Expressionismo: A Vanguarda Alemã

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O movimento trouxe uma estética subjetiva e emocional à pintura aliada a uma visão pessimista do mundo

A arte esteve em constante evolução desde seu início na pré-história, seja a fins políticos, religiosos, acadêmicos ou sociais. Após a industrialização e o surgimento de meios artísticos conflitantes com a pintura, como a fotografia e o cinema, manifestou-se a necessidade de se desvincular da estética clássica e dar às artes plásticas um novo valor. Nesse contexto surgem, por volta do fim do século XIX e começo do século XX, diferentes estilos na arte moderna, as chamadas Vanguardas Europeias. Neste período, dentre conflitos políticos e sociais na Alemanha, surge o Expressionismo. 

O que foi o Expressionismo?

O expressionismo surge em meio a uma nova produção intelectual em desenvolvimento como a psicanálise de Freud, que influenciou a maneira de pensar e estudar o inconsciente, levando a uma visão mais emocional e psicológica do ser. O expressionismo foi a vanguarda que transcreveu essa pulsão para a arte. Em oposição ao Impressionismo, movimento anterior, ia contra a ideia de positivismo e de imitação da realidade. 

As pinturas já não eram mais retratos da natureza ou de pessoas inseridas nela, mas sim da subjetividade e do  sentimento interior e inconsciente do indivíduo. Eram, em sua maioria, de cunho pessimista e dramático. Entretanto, nem todos os artistas trabalhavam em suas obras da mesma forma. Um exemplo é a divisão em dois grupos na Alemanha: O Die Brücke (1905) e o Der Blaue Reiter (1911), um mais voltado para movimentos sociais e políticos e outro para o emocional e espiritual, respectivamente.

Capa do almanaque “O Cavaleiro Azul”, 1911. Wassily Kandinsky. Imagem: Wassily Kandinsky Org.

O expressionismo também gerou um grande impacto em diferentes campos da arte, como na literatura, cinema e música, principalmente quando passou a se expandir para outros países. Isso porque contribuiu com a quebra do padrão estético de estilos e períodos anteriores e a busca pelo belo, assim como contrariou a ideia de mimese (arte como imitação da vida) que era seguida desde que foi proposta na Grécia Antiga

A ascensão da vanguarda foi tamanha que incomodou muitos que não concordavam com o novo ideal de arte, inclusive o Partido Nazista alguns anos depois. Artistas alemães foram perseguidos; pinturas, filmes e literatura expressionistas, assim como de outros estilos do movimento modernista, foram roubadas e queimadas, ou então colocadas à mostra mais tarde na Exposição de Arte Degenerada (1937) na galeria do Hofgarten em Munique, na Alemanha. Estas eram quaisquer obras que fugissem da estética clássica e naturalista, que não representassem a “raça ariana” e que manchavam a imagem do sistema e do país.

“Mask Still Life”, 1911. Emil Nolde. Foi um dos artistas considerado “degenerado” pelo regime nazista. Imagem: WikiArt.

Principais artistas e suas inspirações

Apesar de estarem associados ao pós-impressionismo, Van Gogh e Munch foram, de certa forma, os pioneiros que mais tarde viriam a ser inspiração para todo o movimento expressionista. Isso devido a ruptura com a estética presente na época e pelo uso do sentimento, da expressão e da subjetividade em suas mais famosas obras, como Noite Estrelada e O Grito. Suas fortes e saturadas cores também serviram de exemplo para artistas que buscavam trabalhar uma interpretação mais pessoal e emocional da arte.

Falando sobre o movimento em si, é impossível não citar Ernst Ludwig Kirchner, Fritz Bleyl, Erich Heckel e Karl Schmidt-Rotluff, os estudantes de arquitetura que deram início ao primeiro grupo do expressionismo alemão, o Die Brücke, em Dresden. Estes, além de Otto Mueller e Emil Nolde, se opunham ao Fauvismo principalmente pelo olhar otimista e positivo sobre arte, e buscavam representar acontecimentos e temas que eram considerados tabus na sociedade e política da época.

Por outro lado, outros importantes  pintores formaram o grupo Der Blaue Reiter, como Wassily Kandinsky, que foi fundador ao lado de Franz Marc e provavelmente um dos artistas expressionistas que mais produziu em vida. Gabriele Münter, Paul Klee, Marianne von Werefkin e August Macke também foram grandes nomes que participaram do grupo.

Alguns pintores que não se filiaram a nenhum dos dois grupos ficaram conhecidos por seu próprio fazer artístico dentro da vanguarda, sejam eles alemães ou não, uma vez que o expressionismo já tomava grandes proporções ao redor do mundo. 

O alemão Otto Dix foi uma importante figura durante o período das Grandes Guerras Mundiais, pois retratava em seus trabalhos as consequências dos conflitos nos indivíduos, tanto interna quanto externamente. Com uma característica muito própria, Dix conseguia unir a subjetividade expressionista com elementos do que logo viria a ser o Surrealismo, como a distorção da forma humana e a presença de objetos no lugar de membros do corpo, dando a impressão de algo inexistente e imaginário. A aparência desgrenhada e agoniante dos personagens de suas obras tornava-as tão expressivas que levaram o artista a ser considerado um dos mais famosos pintores degenerados.

Muitos artistas fora da Europa se tornaram igualmente renomados por sua arte expressionista. Lasar Segall foi um deles. Pintor lituano e judeu, ficou conhecido por obras que retratavam a dor e os traumas vividos na infância e na vida adulta durante as guerras. Além de sua passagem no Brasil, influenciando artistas importantes do modernismo, como Anita Malfatti, Segall teve grande atuação na Alemanha quando participou da exposição de arte degenerada e fundou, junto de seu amigo Otto Dix, o Dresdner Sezession Gruppe.

A forte expressividade das cores no conjunto de obras de Lasar Segall  Cultura no Atelier
“Família Enferma”, 1921. Lasar Segall. Imagem: Atelier.

Com o passar dos anos o expressionismo foi se expandindo em vertentes e estilos diferentes, como, por exemplo, na arte abstrata, por volta dos anos 1940. Dentro deste, alguns artistas tiveram grande destaque, como o norte-americano Jackson Pollock, que partia da  técnica de action painting, inspirado principalmente pela ucraniana Janet Sobel, também expressionista abstrata.

Outros artistas desse estilo foram: Willem de Kooning, Mark Rothko, Barnett Newman, Adolph Gottlieb, Helen Frankenthaler e Lee Krasner.

“One: Number 31”, 1950. Jackson Pollock. Imagem: MoMA.
Alex Halberstadt, escritor sênior do Museum of Modern Art (MoMA), fala sobre a obra “Milky Way” de Janet Sobel, inspiração de Jackson Pollock. Video: MoMA Youtube.

Principais obras do expressionismo

O Grito, de Edvard Munch

“O Grito”, 1893. Edvard Munch. Imagem: WikiArt.

O Grito, de Edvard Munch, é a mais famosa pintura desta vanguarda. Considerada a primeira obra expressionista, influenciou a maneira com a qual diversos artistas passaram a interpretar a arte, pela ótica pessoal e sentimental, não apenas uma reprodução da realidade. 

Nesta tela, Munch utiliza das cores saturadas e complementares, como o céu alaranjado em contraste com o azul do cenário, para transmitir a sensação de ansiedade e desespero vividas pelo protagonista que aparenta estar com medo, algo notável através de suas feições. 

Outra característica muito própria do expressionismo nesta obra é a distorção do cenário e personagens, mas ainda permitindo a identificação das formas.

Foi pintada sobre um suporte de papelão, utilizando a técnica de têmpera, tinta a óleo e giz pastel. Atualmente, pertence ao acervo do Museu Nacional de Oslo, na Noruega.

Os Grandes Cavalos Azuis, de Franz Marc

“Os Grandes Cavalos Azuis”, 1911. Franz Marc. Imagem: Amazon.

Os cavalos azuis de Marc estão presentes em diversas obras do autor, que demonstra uma paixão intensa pelos animais e pela cor, algo que tinha em comum com seu colega de grupo, Kandinsky. 

Nesta obra, é possível observar interessantes e característicos traços do expressionismo: a utilização de cores vibrantes; a realidade deformada, mas que ainda permite a percepção das formas; e o caráter emocional e subjetivo. Este último é representado através da cor azul que remete a espiritualidade e o cavalo como símbolo de força, reforçando a ideia de contrariedade entre material e espiritual. 

A pintura foi feita com óleo sobre tela e está exposta no Walker Art Center, em Minneapolis.

Cinco Mulheres na Rua, de Ernst Ludwig Kirchner

“Cinco Mulheres na Rua”, 1913. Ernst Ludwig Kirchner. Imagem: WahooArt.

Kirchner imprime inquietude na obra “Cinco Mulheres na Rua”, sensação transmitida  pela utilização do amarelo e preto, além de suas formas alongadas e cenário distorcido que preenche quase todo o quadro. Nesta tela, cinco mulheres vestindo roupas de festa, elegantes na época, estão paradas na rua observando o que parece ser uma vitrine, exceto pela primeira da esquerda, que parece olhar no sentido contrário.

A obra foi pintada com óleo sobre tela e está localizada no Museu Ludwig, na Alemanha.

A Boba, de Anita Malfatti

“A Boba”, 1916. Anita Malfatti. Imagem: WikiArt.

Em “A Boba”, podemos ver uma mulher vestindo amarelo sentada em uma cadeira da mesma cor, com o olhar indiferente. A artista utiliza dos elementos do expressionismo, mas também de outros estilos, como cubismo e futurismo. A expressão da personagem, as cores e até mesmo o plano que foi posicionada são algumas características do movimento que chamam atenção na obra.

A pintura foi feita durante a estadia de Malfatti nos Estados Unidos, utilizando óleo sobre tela. Hoje a obra pertence à Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

Retirantes, de Cândido Portinari

“Retirantes”, 1944. Cândido Portinari. Imagem: MASP.

Assim como Malfatti, Portinari também se consagrou um renomado pintor do movimento expressionista, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. 

Em Retirantes, ele evidencia uma família de imigrantes, conseguindo representar a angústia da fome e da pobreza através das formas distorcidas dos personagens. O tom dramático, clássico do expressionismo, é perceptível aqui. A obra foi feita em óleo sobre tela e pertence ao acervo do MASP, em São Paulo.

Expressionismo no Brasil

Nota-se, com obras de artistas brasileiros, que o expressionismo teve enorme influência na arte moderna no país. 

Marcando presença na famosa Semana de Arte Moderna, que completou 100 anos em 2022, a arte da subjetividade e do interior se fez responsável por apresentar muitas obras e artistas nacionais ao mundo, além de trazer ilustres pintores de outros países que contribuíram para a formação e consagração da vanguarda no Brasil. 

Alguns dos artistas fundamentais foram: Oswaldo Goeldi, Iberê Camargo, Lasar Segall, que passou boa parte da vida no país, e os já citados antes, Anita Malfatti e Cândido Portinari. Estes continuam sendo referência e inspiração para muitos e suas obras permanecem trazendo vida às exposições, com pinturas famosas ou até mesmo nunca expostas, como, por exemplo na nova mostra “Portinari Raros”, aberta para o público até 12 de setembro no CCBB, no Rio de Janeiro.

Julia Mattioni é artista visual e estudante de Artes Visuais das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).


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