A Semana de Arte Moderna de 22: uma mirada 100 anos depois

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Entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922 o Theatro Municipal de São Paulo se preparou para receber a Semana de Arte Moderna. O evento é símbolo de uma série de renovações e mudanças na arte brasileira que escandalizou desde sua abertura e segue reverberando como uma das principais referências culturais do século XX.

É fato que a Semana não é uma ilha isolada na história da arte brasileira, ela sucede inúmeros antecedentes. De modo mais amplo, foi influenciada pelas vanguardas europeias, tanto enquanto linguagem plástica como vontade revolucionária. Também as questões políticas e sociais no Brasil possibilitaram a fertilização de um terreno de transformação: a industrialização de São Paulo, sua subsequente colocação como centro econômico e a consolidação do capitalismo, que evidenciava desigualdades e violências que incomodavam os artistas. Esse cenário foi aliado à vontade por uma discussão da estética nacional como autêntica fazendo eclodir o acontecimento. 

A Semana foi viabilizada com o financiamento da oligarquia paulista, uma grande manobra política no contexto da República Velha (1889-1930). Era projeto de interesse da elite paulista cafeeira fazer de São Paulo uma referência de criação artística, até então o Rio de Janeiro centralizava as grandes academias de belas artes, a oligarquia pretendia ser parte de um evento de projeção nacional.

De modo mais particular, a articulação dos artistas do chamado movimento modernista brasileiro é fundamental enquanto organização, propagação e participação na Semana. Romper com tradições, a busca pela liberdade de criação e pela justiça social eram ideias do movimento que tentou sintetizar em um grande evento. 

Diante do contexto geral em que a Semana estava inserida, é comum nos perdermos nas fronteiras dos acontecimentos entre o movimento e o evento, por isso hoje a Artsoul preparou uma retrospectiva exclusiva do evento.

A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um evento cultural amplo, almejando a consolidação de um movimento que articularia a renovação das linguagens usuais. Àquele momento, o parnasianismo era tido como escola artística oficial do Brasil, o que ligava a criação brasileira ao rigor formal academicista, os modernistas então planejaram um evento que valorizaria a experimentação e a liberdade, explorando diversos aspectos da cultura.

Podemos definir como comissão organizadora da semana os artistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Ronald de Carvalho, Graça Aranha e o mecenas Paulo Prado.

A vontade de experimentação deste núcleo duro da Semana aparece na programação: espontânea, aberta e sem muitas amarras a proposta era mostrar ao público as inúmeras possibilidades do fazer artístico e escandalizar o conservadorismo acadêmico, haveria dança, música, recital de poesias, exposição de obras e palestras. Dessa forma, o denominador comum entre os artistas convidados era apenas o fato de buscarem uma orientação não acadêmica em seu trabalho.

Todo planejamento gráfico e programação visual da Semana esteve a cargo de Di Cavalcanti, que optou por uma comunicação simples e rápida. Na capa do catálogo, estão apenas as informações cruciais, há o desenho de uma silhueta feminina, sem compromisso com rigor formal e rodeada por uma densa vegetação, a composição em preto e branco forma uma típica produção moderna.

Capa do catálogo da exposição da Semana de Arte Moderna, desenhado por Di Cavalcanti. (Imagem: Acervo/Theatro Municipal de São Paulo) 

O objetivo geral da Semana era proferido como destrutivo: a busca pelo fim do que até então era legítimo enquanto criação artística. Aracy Amaral, grande crítica, curadora e referência em pesquisa acerca do modernismo, revela em seu livro Artes plástica na Semana de 22, que Mário de Andrade clamava “pelo direito permanente à pesquisa estética, a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional.”

O evento havia sido previsto para durar sete dias, de 11 à 18 de fevereiro, como foi anunciado nas primeiras divulgações, contudo ele abriu apenas em três dias alternados: 13, 15 e 17. 

No dia 13 de fevereiro aconteceu a abertura oficial, com a conferência do escritor Graça Aranha intitulada A emoção estética da Arte Moderna, ocorreram também outras conferências como A pintura e a escultura moderna no Brasil de Ronald de Carvalho e também solos de piano de Ernani Braga.

O Theatro Municipal de São Paulo estava cheio neste dia dedicado às pinturas e esculturas. A exposição das obras no saguão gerou desconforto em boa parte do público, a ponto de diante do estranhamento as pessoas questionarem se as obras estavam penduradas do lado correto.

A mostra contou com nomes importantes da pintura como: Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Ferrignac, Zina Aita, Martins Ribeiro, Oswaldo Goeldi, Regina Graz, John Graz, Castello, J. F. de Almeida Prado, Vicente Rego Monteiro  e outros. A artista Tarsila do Amaral, apesar de ser figura essencial no movimento modernista, estava em Paris à data e não participou deste evento.

O homem amarelo, Anita Malfatti, 1917. Fonte: wikiart

É crucial pensarmos no papel de Anita Malfatti, especialmente da obra O Homem Amarelo. Este sujeito melancólico e desajeitado de pinceladas ligeiras e expressão densa esteve na sua exposição individual de 1917, aquela que recebeu duras críticas do escritor Monteiro Lobato e foi um antecedente decisivo da Semana e do desenvolvimento do movimento. 

Paisagem de Espanha, John Graz, 1920. Fonte: Itaú Cultural.

Com a simplificação das formas e o uso de uma cartela cromática que equilibrava força e leveza, Paisagem de Espanha foi uma das telas do Suiço John Graz que marcou sua presença com um cubismo autêntico. 

Em contraste com as paisagens europeias, o pernambucano Vicente do Rêgo Monteiro é um dos primeiros a evocar assuntos brasileiros em suas telas. Cabeças de Negras evidencia esse tema e também se destaca por sobretudo se assemelhar a plasticidade e delicadeza impressionista, valorizando a luz para compor a tela.

Cabeça de Negras, Vicente do Rêgo Monteiro, 1920. Fonte: Itaú Cultural.

Assim como as pinturas evidenciam a heterogeneidade de artistas, o mesmo se deu entre os três escultores da semana: Victor Brecheret, Hildegardo Leão Velloso e Haarberg. Cada um à sua maneira, produzindo figuras escultóricas distantes das concepções clássicas, como as estilizadas figuras de Brecheret.

Cabeça de Cristo, Victor Brecheret, 1920. Fonte: Brainly.

O dia 15 foi tomado pelas vaias e insatisfação generalizada do público. Dedicado à literatura, no segundo dia houve a polêmica palestra em que Mário de Andrade defendeu o abrasileiramento da língua portuguesa, que resultou na publicação de A escrava que não é Isaura. Menotti del Picchia também elevou os ânimos da plateia com sua conferência sobre a estética moderna.

Na programação do sarau, Manuel Bandeira iria declamar Os sapos, crítica ao vigente parnasianismo, entretanto o poeta ficou doente e a declamação foi feita por Ronald de Carvalho, recebida também com vaias.

Álvaro Moreyra, Elysio De Carvalho, Oswald de Andrade, Renato Almeida, Luiz Aranha, Ribeiro Couto, Deabreu, Agenor Barbosa, Rodrigues de Almeida, Plínio Salgado e Sérgio Milliet são alguns dos nomes que estiveram presentes na cena literária.

O dia terminou com aplausos diante dos números de dança de Yvonne Daumerie e do concerto de piano de Guiomar Novaes. 

O evento de encerramento da Semana foi dedicado à música. Peças de Villa-Lobos foram executadas pelos diversos músicos participantes. O dia mais calmo do evento, com menos ruídos em vaias, não deixou escapar as críticas ferrenhas dos conservadores, que atacaram Villa Lobos até por estar sem um sapato. No fim o que foi lido como falta de classe era apenas um dolorido calo. 

Monteiro Lobato seguiu sendo grande opositor do movimento modernista, teceu críticas a Semana como continuidade de um projeto prejudicial à arte, decadente.  

Quanto ao público geral, houve bastante resistência. A linguagem, por ser novidade, não foi muito bem entendida, mas não deixou de receber aplausos em diversos momentos. Os intelectuais do movimento e simpatizantes foram os responsáveis por defender a iniciativa nos jornais. 

Tratado como irrelevante, o evento realmente não produziu o impacto nacional imediato que se esperava à época. A mídia só abriu espaço para o evento depois que circulou boatos de que Oswald de Andrade teria pago estudantes para arremessar tomates nele durante a apresentação. A escandalização era parte da revolução proposta, o recurso de marketing deu certo. 

A Semana foi importante por deixar um legado que impactou todas as demais correntes artísticas, do tropicalismo ao neoconcretismo, que usam de conceitos desde antropofagia e experimentação como energia vital para a busca da arte brasileira.

A Semana de Arte Moderna, aconteceu, não por acaso, no centenário da Declaração de Independência. A proposta simbólica era a sugestão de uma outra independência, de caráter emancipatório e libertário para as artes.

Agora em 2022, vivemos o centenário da Semana de Arte Moderna, e qual a emancipação nos é cara? Neste momento, sabemos que apesar da busca pela brasilidade, a inovação estética proposta pelos organizadores da Semana era intimamente ligada às vanguardas europeias. Dessa forma, a arte produzida por artistas negros e indígenas não teve espaço no cenário, bem como a arte produzida por mulheres. Portanto, se percebe hoje urgente a revisão histórica que emancipe o lugar desses artistas que outrora estiveram à margem do grande circuito.

É importante refletir sobre o evento que abriu horizontes e mudanças de olhar, e não se permitir estagnar no status quo, evocando como legado ativo a experimentação, a crítica e a liberdade. Como afirmou o artista Denilson Baniwa para a Revista Desvio: “a antropofagia agora é o devorar de tudo o que existe sem usar talheres franceses”.


Giovanna Gregório é graduanda em Arte: Historia, Critica e Curadoria pela PUC-SP. Pesquisadora e crítica independente.


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