Candido Portinari: entre o acadêmico e o moderno

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“Rompendo a tela, a realidade / nas cores da felicidade” é trecho do samba enredo da escola carioca Mocidade Independente de Padre Miguel que, em 2012, homenageou um dos maiores pintores do Brasil: Candido Portinari. Abrimos a matéria com esses versos que sintetizam dois traços fundamentais de sua carreira: o engajamento social e o uso da emoção.

Portinari, carinhosamente chamado de Candinho pelos íntimos, nasceu em 1903 em um contexto familiar muito comum no interior de São Paulo, filho de imigrantes italianos que à época vieram aos montes para o Brasil em decorrência da recém-mudança de mão de obra após o fim legal da escravidão. 

Crescendo em uma fazenda de café e compartilhando a vida com mais doze irmãos, Portinari residia em Brodowski. Desde cedo demonstrava interesse pelas artes, com dez anos já desenhava retratos e aos quinze anos foi convidado a ajudar pintores e escultores com a decoração de uma igreja, onde se dedicou com todo vigor ao trabalho.

Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
E nada mais resiste à mão pintora.

(Trecho de “A mão”, poema que Carlos Drummond de Andrade dedicou à Portinari.)

Já no ano seguinte, em 1919, o pintor se muda para o Rio de Janeiro e inicia as aulas de desenho figurado na Escola Nacional de Belas Artes. A partir de então Portinari seguirá por anos no circuito de ensino formal de arte, regido pelo academicismo, pela estética clássica e representativista, entretanto, o pintor é comumente celebrado como artista moderno. Como isso foi possível no rigor de sua formação?

Candido Portinari e a pincelada moderna

Para entendermos como o modernismo infiltrou gradualmente seu trabalho, é importante remontar a 1924. Neste ano, o pintor submeteu oito pinturas para a seleção do salão da Escola, o júri aceitou sete trabalhos, recusando apenas Baile na Roça, já que a tela apresentava traços demasiadamente modernos para os técnicos.

Baile na Roça, 1924. Candido Portinari. Imagem: Acervo digital do Projeto Portinari.

Existem aspectos da pintura clássica evidentes em Baile da Roça como a iluminação do quadro e o uso sutil e realista das cores. Já o tema, a cena cotidiana,  popular e interiorana, junto às explícitas pinceladas revelam uma característica moderna: a pintura como processo pela presença do gesto do artista, que se contrapunha à técnica clássica.

Portinari, diante da rejeição, vendeu o quadro logo após o episódio, que só foi recuperado pelo Projeto Portinari anos após a morte do artista. 

Dessa maneira, ele seguiu atuante no circuito tradicional, representando uma figura que era bem-vinda aos moldes clássicos. Com sua formação e técnica requerida, era constantemente elogiado na imprensa e ainda assim revelava, aos poucos e sutilmente, camadas modernas que conquistou também a vanguarda rebelde da época.

Assim como a carreira da maioria dos artistas, a de Portinari também sofreu uma reviravolta após sua ida à Europa. A viagem foi um prêmio recebido pelo retrato exposto na XXXV Exposição Geral de Belas Artes em 1928.

Retrato de Olegário Mariano, 1928. Candido Portinari. Imagem: Enciclopédia Itaú Cultural.

Portinari usufruiu de seus quase dois anos do outro lado do Atlântico percebendo a produção, consumindo e digerindo novas técnicas. A viagem foi o divisor de águas definitivo em sua carreira, o afastou do rigor acadêmico e o aproximou de temas que lhe interessavam, como afirmou em 1930: “Daqui fiquei vendo melhor a minha terra (…) Vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor.” 

O pintor retornou ao Brasil casado e com apenas seis pinturas. De volta, participa do XXXVIII Salão Nacional, uma das telas apresentadas é O Violinista que encanta Mário de Andrade. É nesta oportunidade que o pintor e o poeta se conhecem e se tornam grandes amigos. Essa amizade é importante para além dos afetos, posto que Mário de Andrade é um dos primeiros modernistas a voltar o olhar para Portinari e o inserir no circuito do movimento moderno.

O Violinista, 1931. Candido Portinari. Fonte: Google Arts & Culture.

O Violinista, já diferente das duas telas aqui mostradas, possui cores mais vibrantes e  assume contrastes maiores, mais uma vez Portinari faz sua mão presente com a revelação das passadas de pincel.

A carreira do pintor seguiu em crescimento e por volta de 1933 Portinari realiza uma série de trabalhos que o crítico Mário Pedrosa denominou como fase marrom, na qual os quadros detém grande carga sentimental por recordar sua infância em Brodowski.

Jogo de Futebol em Brodowski, 1933. Candido Portinari. Imagem: Acervo digital do Projeto Portinari.

Jogo de Futebol em Brodowski é uma das telas pertencentes à fase. Nela, é possível observar como a predominância do marrom escurece as cenas e dialoga simultaneamente com a terra escura da cidade paulista e com uma emoção mais densa, melancólica. A pintura é turva como se a nostalgia retratada fosse a lembrança embaçada de um sonho. Com o uso de tintas escuras, Portinari passa a demonstrar sua sabedoria na técnica de contraste operando cirurgicamente com o branco para trazer os efeitos de luz. Apesar da reprodução digital não tornar evidente, nessa fase o pintor também começa a investigar a pastosidade das tintas, dando volume plástico às telas.

Se o modernismo tinha como pretensão valiosa o retorno ao nacional, Portinari o fez, trilhando no modernismo a proposta de uma brasilidade, remontando aos espaços sociais em suas microesferas: a sua cidade, as suas experiências e seus afetos.

Posteriormente, Portinari se debruça sobre a abstração do plano e a geometrização das formas,  à exemplo de Sorveteiro.

Sorveteiro, 1934. Candido Portinari. Imagem: Google Arts & Culture.

Aqui existe uma preocupação mais analítica de composição. Investigando as noções de espaço, Portinari realiza com sua perspectiva sensível o desenvolvimento de personagens que marcarão sua trajetória, as figuras trabalhadoras de mãos e pés exagerados, que, ao mesmo tempo comunicam o uso exploratório do trabalho braçal e conferem monumentalidade a essas pessoas.

Portinari era membro do Partido Comunista Brasileiro, foi candidato a cargos políticos mais de uma vez e tinha como preocupação em suas telas evidenciar que os homens trabalhadores serviam sua força, exaustivamente,  ao lucro dos latifúndios de café que dominavam o estado de São Paulo.

O lavrador de café, 1934. Candido Portinari. Imagem: Google Arts & Culture.

Interessado então no homem e no trabalho, Portinari pintou em 1934 O lavrador de café, entendida como símbolo do trabalhador rural brasileiro. Marcado pelas cores vibrantes e o cenário típico da monocultura do café — o trem, o desmatamento e a extensão de lavoura que foge aos olhos — apresenta em primeiro plano o homem que parece tenso e triste.

A evidência do trabalho braçal é dada pela expressiva desproporção dos membros e a precarização desse trabalhador é nítida pelos pés que se encontram descalços.

Um fato curioso é que O lavrador de café, pertencente à coleção do MASP, foi roubada em 2007 juntamente à tela Retrato de Suzanne Bloch, de Picasso. O roubo aconteceu na madrugada, durante a troca de turno de vigias do museu, no entanto, em menos de um mês a obra foi recuperada pela instituição.

Nos anos 1950, Portinari passou por uma recomendação médica para que parasse de pintar, o artista estava com uma intoxicação por elementos presentes na tinta. Contudo, a indicação não o impediu de realizar Guerra e Paz, um painel composto por duas partes de 10 x 14 metros.

O trabalho monumental foi comissionado pelo governo brasileiro para presentear a sede da ONU em Nova York, o projeto demandou cinco anos para ser concluído e foi entregue em 1956. Portinari foi impedido de ver sua obra ocupando a sede porque, em decorrência do seu envolvimento com o comunismo, não conseguiu visto para entrar nos Estados Unidos.

Guerra e paz de 1956 em itinerância ocupando o Theatro Municipal em 2010. Imagem: Agência O Globo

Portinari sempre usou seus saberes técnicos do fazer artístico para conduzir suas emoções e expressar precisamente o que o movia, permeado pela inteligência e pela experimentação, no final dos anos 1950, publica seu livro de poesia, apresentando-o da seguinte forma: “quanta coisa eu contaria se pudesse e soubesse ao menos a língua como a cor.”

Devido à exposição exaustiva às tintas durante sua vida, Portinari faleceu em 1962, aos 59 anos, por intoxicação. Dezessete anos após sua morte, seu único filho, João Candido, fundou o Projeto Portinari com o apoio da PUC-RJ, onde é localizada sua sede social. Com um trabalho sistemático de resgate dos trabalhos e memórias de Candido Portinari, o projeto preserva a obra com compromissos socioeducativos e culturais.

Essa ação, que já dura 43 anos, possibilita que seu acervo conquiste cada vez mais acesso público ao colaborar com exposições como Portinari para todos do Museu de Imagem e Som, com previsão de abertura para março de 2022. Seguindo a linha de abordagem do MIS-SP, a exposição será uma grande experiência para o público e contará com propostas de imersão e criações interativas com base nas obras e legado do artista.

Portinari é fundamental para a arte brasileira, um artista dignamente reconhecido em vida, premiado nacional e internacionalmente, transitou entre a academia e os modernos, e nunca renunciou seus ideais colocando o trabalhador e sua expressão como foco de sua obra.

E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.”

(Trecho de “A mão”, poema que Carlos Drummond de Andrade dedicou à Portinari.)


Giovanna Gregório é graduanda em Arte: Historia, Critica e Curadoria pela PUC-SP. Pesquisadora e crítica independente.

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