Fauvismo: A beleza das cores puras, o instinto sobreposto à realidade

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O Fauvismo, também conhecido como o movimento “Das Feras”, foi uma revolução artística, o marco do fim de uma era e o testemunho do progresso, das descobertas e invenções que chegaram para mudar o mundo.

Esse período trouxe a busca pela expressão mais pura, a projeção dos sentimentos do artista por meio de cores intensas. A proposta trouxe pinceladas mais bruscas e novas técnicas que ignoraram a perfeição da forma, valorizando as sensações que a arte desperta em quem a observa.

A quebra com a tradição, rumo ao avant-garde

Quem não conhece a beleza da Noite Estrelada de Vincent Van Gogh? Ainda que as obras do holandês tenham sido parte do período pós-impressionista, ele foi um pioneiro do modernismo e seu estilo foi uma forte influência para o surgimento do Fauvismo.

O movimento fauvista é conhecido por utilizar-se de cores puras e ousadas, que dão um toque intenso e vibrante às obras. Os artistas davam preferência para a utilização das tintas diretamente do tubo, sem alterações provenientes da combinação com outras tonalidades. Rejeitando a tridimensionalidade, o apego ao realismo, buscando transmitir as emoções das cenas que retratavam. 

No Salon d’Automne de 1905, uma exposição que acontece na França anualmente desde 1903, as obras do grupo de artistas Henri Matisse, André Derain, Albert Marquet, Maurice de Vlaminck, Kees van Dongen, Charles Camoin e Jean Puy foram expostas pela primeira vez. 

Quando o crítico Louis Vauxcelles viu as obras singulares, as pinceladas agressivas, as tonalidades puras, chamou os pintores de “Les Fauves“, as Feras, o que deu o nome ao movimento. Uma curiosidade interessante é que a frase realmente usada pelo crítico foi “Donatello chez les fauves“, em tradução livre, Donatello entre as Feras, pois havia uma estátua no estilo renascentista que foi exposta na mesma sala das obras vibrantes do fauvismo.  

Esse foi o período artístico que fez parte do início da ruptura de uma era, sendo englobado pelo movimento modernista. O modernismo europeu foi uma época experimental para várias áreas artísticas como, literatura, artes visuais e música.

Tendo acompanhado o início da Revolução Industrial, as Guerras Mundiais, a Revolução Russa, a divulgação da Teoria da Relatividade de Einstein e até mesmo o nascimento da psicanálise com Freud e seus estudos do inconsciente. Em vista de tantas mudanças que ocorriam no mundo, a expressão artística também começou a se adaptar a essa nova realidade.

Os pintores que faziam parte do modernismo buscavam uma nova forma de se expressar. Rejeitando os valores conservadores vigentes, tradicionalmente as pinturas realistas, que retratavam os temas das obras da forma mais pragmática possível, eram tidas como o ideal. Os modernistas buscavam inovação, experimentando com as formas, cores e linhas e técnicas, criando uma tendência ao abstrato.

Seu objetivo era trazer novas concepções para suas obras, acompanhando o rápido progresso da sociedade e se transformando de acordo. Consequentemente a arte criada chocava o público com as possibilidades e criações que eram diferentes de tudo que já havia sido presenciado até então.

A expressão artística sempre dialoga com eventos importantes, por isso para entender as obras em sua complexidade, é importante conhecer os acontecimentos históricos da época em que foram concebidas.

Para inspirar tanto artistas quanto apreciadores da arte, trouxemos algumas obras de arte de um dos movimentos mais ousados da história, a transição entre eras, a arte de Les Fauves.

Femme au Chapeau de Henri Matisse

A pintura foi criada por Henri Matisse, o líder do grupo de artistas que deu início ao fauvismo. A obra retrata sua esposa Amélie Matisse, e quando foi exposta pela primeira vez, foi o foco das críticas dentre todas as outras pinturas expostas na mesma sala.

Na época, a técnica foi considerada agressiva. É notável que as pinceladas são feitas de forma mais solta e expressiva, não buscando o realismo, ao invés disso o foco se mantém na textura áspera que foi criada pela aplicação da tinta.

É notável no trabalho com luz e sombra, a forma como Matisse decidiu expressá-las. Os tons de amarelo e laranja delineando os locais onde a luz toca, tons de verde e roxo para representar algumas das áreas sombreadas.

A forma como ele utilizou as cores era diferente de tudo que se havia visto até o momento, a rejeição da tridimensionalidade e a técnica dão um ar “inacabado” para a obra. Ainda assim, com seu charme vibrante, o trabalho cativou um casal de compradores que o levaram por 500 francos, o que entusiasmou e encorajou o artista, mesmo em meio a tantas críticas negativas.

Henri Matisse. Femme au Chapeau. 1905. Óleo sobre tela. Reprodução: Henri Matisse.org. 

Le Verger de Maurice de Vlaminck

A obra de Maurice de Vlaminck, “O Pomar”, vem com uma abordagem diferente de Matisse. A aplicação de tinta cria uma textura mais espessa, as pinceladas curtas e a abundância de cores são usadas para dar uma vida nova às folhagens que enfeitam a bela paisagem.

A forma como o artista utiliza apenas cores quentes e frias cria a separação entre os diferentes planos de profundidade. Com tons mais quentes em planos mais próximos, e tons mais frios conforme os planos se distanciam. As pinceladas parecem se tornar mais suaves conforme a perspectiva se afasta do ponto de referência.

Apesar de que Vlaminck não teve o mesmo nível de estudo formal de outros artistas citados, ele começou a dedicar mais de seu tempo à pintura quando conheceu o artista André Derain, fazendo colaborações com o mesmo. Também vale mencionar que seu trabalho foi fortemente inspirado pelas peças de Van Gogh.

Maurice de Vlaminck. Le Verger. 1905. Óleo sobre tela. Reprodução: Diário das Artes.

Le Pont de Waterloo de André Derain

A obra de André Derain mostra uma técnica diferente das anteriores, tem certa semelhança com o pontilhismo. É uma verdadeira explosão de cores, a textura não é tão perceptível, em contrapartida o foco se encontra na direção das pinceladas curtas que criam a ilusão de movimento.

É curioso observar a sutil diferença entre a direção da luz no céu, lembrando os raios de sol, as cores parecendo se tornar mais estáticas nas construções e mais maleáveis no rio criando a impressão de pequenas ondas, especialmente quando notamos a mudança no padrão e no tom de azul que se torna mais escuro onde o rio se encontra com a terra.

André Derain. Le Pont de Waterloo. 1906. Óleo sobre tela. Reprodução: Museo Tyssen.

Le Coquelicot de Kess Van Dongen

A obra de Kees Van Dongen é notavelmente mais sóbria com as cores, suas obras tem claras influências cartunescas, e isso se dá graças ao fato de que apesar de ter ficado conhecido como um de “les Fauves”, no início de sua carreira o pintor criava quadrinhos para alguns jornais da época como Le Rire, L’Indiscret, Rotterdamsche Nieuwsblad, entre outros.

Suas pinturas são uma combinação de ambos os estilos, criando diferentes texturas pela pintura. Os olhos e os cabelos adquirem uma aparência um pouco mais áspera, assim como o contorno e a sombra. Em contrapartida, o dorso e o rosado suave no rosto tem uma aplicação claramente mais leve.

Há uma mistura de técnicas diferentes que tornam seus trabalhos marcantes, assim como os olhos profundos de Le Coquelicot.

Kees Van Dongen. Le Coquelicot. 1919. Óleo sobre tela. Reprodução: Tutt’ Art.

Flânerie sous les pins de Jean Puy

A obra de Jean Puy tem mais sutileza na escolha de cores quando comparado aos outros artistas do fauvismo. Porém todo o sombreado é criado com cores puras ao invés de usar os tons mais comuns ele cria a ilusão de certas cores com um “mosaico”.

Há vários pequenos pontos de tonalidades puras que dão a impressão de uma cor sóbria, e quanto mais nos aproximamos passamos a perceber, especialmente no chão onde a luz do sol ilumina a pintura.

O foco dessa obra está mais na composição do que nas cores, as formas arqueadas da paisagem, as árvores, o rio, os personagens relaxando tranquilamente sob a sombra dos pinheiros, guiam o olhar de forma circular, dando voltas por todos os detalhes da pintura.

Jean Puy. Flânerie sous les pins. 1905. Óleo sobre tela. Reprodução: Musée Paul-Dini

O Fauvismo no Brasil

O modernismo brasileiro teve início com Anita Malfatti em 1917 na “Exposição de Pintura Moderna Anita Malfatti”, em São Paulo, contando com 53 obras de sua autoria. Apesar de ter tido uma repercussão negativa por sua excentricidade, o movimento modernista foi fundamental para que a arte brasileira desse início ao processo de transformação estética, buscando criar uma identidade artística própria.

O fauvismo também fez parte do cenário nacional, as influências do movimento ecoaram pelo tempo e inspiraram várias obras até os dias de hoje. Mesmo sendo mais sutil, alguns artistas fizeram parte do movimento com trabalhos vibrantes e belíssimos. Alguns foram inspirados por suas viagens à Europa, como foi o caso de Arthur Timótheo da Costa e Mário Navarro da Costa.

Porém o maior símbolo do fauvismo no Brasil surgiu na metade do século XX, Inimá José de Paula. Suas obras coloridas, vibrantes, as pinceladas soltas que dão pouca importância à forma e focam na expressão do artista, lembram o início do movimento na França, porém com a o toque das paisagens tropicais que nos dá uma sensação de familiaridade com o ambiente.


Inimá José de Paula. Paisagem com Casario. 1979. Óleo sobre tela. Reprodução: Arremate Arte.

“CASAS COM IGREJA /MG” 50 x 72, de Inimá de Paula. Imagem: Abaporu Art Gallery

Hakai S. Ghilardi é graduado em Design Gráfico e pesquisador independente de História da Arte.


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