Anita Malfatti: a mulher que trouxe o modernismo para o Brasil 

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Conheça a vida e a obra de uma das artistas mais influentes na arte brasileira

A história da arte no Brasil foi amplamente constituída por duas forças diametralmente opostas: por um lado, em função de sua história colonial, sofreu larga influência da arte academicista européia. Por outro lado, a partir do início do século XX, surgiu na comunidade artística e intelectual um intenso desejo de se conceber uma identidade nacional, uma arte verdadeiramente brasileira. Um dos primeiros movimentos a dar conta desse desejo de construção de uma arte brasileira, foi o modernismo. Dentro do movimento modernista, alguns artistas foram pioneiros e tiveram maior impacto, como Anita Malfatti.

Anita Malfatti. O Farol, 1915. Imagem: Google Arts And Culture

A história de Anita Malfatti

Anita Catarina Malfatti (São Paulo, São Paulo, 1889 – 1964) foi uma artista paulistana de origem familiar multicultural. Seu pai, Samuele Malfatti, era um engenheiro italiano e sua mãe, Betty Krug, uma professora de pintura americana descendente de alemães. Desde a tenra infância, Malfatti teve contato com o universo da arte e iniciou-se na prática artística estudando com sua mãe. No entanto, a artista precisou superar o desafio de ter o braço direito congenitamente atrofiado, aprendendo a pintar com a mão esquerda. Anita Malfatti, que guardava uma personalidade mais sóbria e discreta, não permitiu que a deficiência física a impedisse de se tornar uma das mais importantes representantes da pintura na História da Arte brasileira.

A formação de Anita Malfatti

Seu contexto familiar já acostumado à migrações também foi um fator influenciador na sua formação. Seu esforço pessoal e o apoio familiar, principalmente de um tio que financiou seus estudos, permitiram que a artista aprimorasse seus conhecimentos no exterior. Primeiramente na Alemanha, onde Malfatti foi viver em 1910, tendo aulas particulares com o pintor Fritz Burger e estudando na Academia Imperial de Belas Artes, em Berlim. Nesse período, Anita Malfatti teve contato direto com a estética e as ideias que pautavam o movimento expressionista alemão e outras correntes da vanguarda européia. Porém, a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) forçou a artista a retornar ao Brasil.

Em 1914, Anita Malfatti retorna ao Brasil transformada pela temporada europeia, sua obra começa a mostrar força e gestualidade inéditas. Nesse mesmo ano, a artista apresenta seus estudos de pintura inspirados pelo movimento expressionista em uma exposição na Casa Mappin, em São Paulo. Sua família e o público têm dificuldade de entender seu trabalho a princípio, pois a estética em voga naquele momento ainda era a academicista, com tendências de representação realista e seus ideais de beleza clássica. À época esperava-se principalmente das jovens artistas mulheres um tipo de pintura agradável, com tons suaves e temas delicados. A pintura de Malfatti era comparada com uma pintura masculina, o que a artista considerava um elogio. 

Em 1915, seu tio novamente financia seus estudos no exterior e a artista viaja para os Estados Unidos, onde estuda na Arts Students League of New York e na Independent School of Art. Naquele momento o país fervilhava culturalmente com seus próprios expoentes, mas também com a presença de artistas europeus que fugiram da Grande Guerra, permitindo que Malfatti mais uma vez vivesse uma imersão nas vanguardas artísticas

A estética da artista

Malfatti explorava ricamente em sua obra as influências dos encontros que viveu com os movimentos de vanguarda. Nota-se principalmente a presença de elementos do expressionismo em obras dos anos iniciais, como Retrato de um professor (1912) e do cubismo em obras, como Nu cubista (1915). E principalmente do fauvismo em algumas de suas obras mais emblemáticas, como A boba (1916). A escolha de seus temas demonstrava o interesse profundo em retratar os personagens, cenas e paisagens típicas da cultura brasileira, tratando de tais temas de forma não naturalista e expressiva, como na obra Tropical (1917). Malfatti, desde seus anos iniciais, fez um rico uso da cor em suas pinturas, pode-se dizer, inclusive, que a cor é o elemento essencial de sua obra.

  • Anita Malfatti. Tropical, 1917. Imagem: Fundação Clóvis Salgado

A influência de Anita Malfatti na arte moderna brasileira

Ela mais uma vez retorna ao Brasil em 1916, onde segue trabalhando sob influência dessas novas ideias. A forma como a artista trabalhava seu uso de cores explode agora em uma potência e vigor surpreendentes. No ano seguinte realizou sua segunda exposição individual. A mostra “Pintura Moderna – Anita Malfatti”, realizada em São Paulo entre dezembro de 1917 e janeiro de 1918, foi uma das primeiras de um artista modernista no país, sendo que a primeira foi a de Lasar Segall, em 1913. A exposição de Anita Malfatti teve repercussões enormes, tanto positivas quanto negativas. Por um lado, a artista estava pavimentando o caminho da arte moderna no Brasil, estimulando novas gerações de artistas que surgiriam. Por outro lado, havia o embate entre os dois projetos de arte opostos que vigoravam no Brasil naquele momento: a herança academicista do final do século XIX e as vanguardas da arte moderna que despontavam naquele início do século XX. 

Um dos grandes censores das obras modernistas foi o escritor e, na época, crítico de arte, Monteiro Lobato, que publicou no jornal O Estado de São Paulo um artigo intitulado “A Propósito da Exposição Malfatti“, mas que ficou conhecido como “Paranóia ou Mistificação?”. No artigo em questão, Lobato tece comentários mordazes e ofensivos sobre a arte moderna, utilizando as obras de Malfatti como exemplo do que seria uma arte degenerada e desonesta, de acordo com sua visão limitada de oligarca conservador.

A crítica de Lobato afetou profundamente Anita Malfatti, fazendo com que a artista passasse um ano em reclusão, pintando  durante o período apenas duas ou três telas. Seus amigos vieram em seu recurso estimulando a artista a voltar a produzir e exibir seus trabalhos. Esses amigos eram nada menos que Tarsila do Amaral e os escritores Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia, com quem Malfatti viria a constituir o Grupo dos Cinco, importante precursor do modernismo no Brasil. 

O Grupo dos Cinco foi um dos principais responsáveis pela realização da Semana de Arte Moderna de 1922, evento de extrema relevância na história brasileira. Depois desse evento, o modernismo e seus movimentos de vanguarda conquistaram definitivamente seu espaço no imaginário cultural e artístico do país. A projeção do evento também garantiu à Anita Malfatti uma bolsa de auxílio a artistas, permitindo que ela voltasse a estudar na Europa em 1923. Desta vez, na França, onde ela viveu por cinco anos. Malfatti realizou exposições em Paris, Berlim e Nova York e retornou ao Brasil em 1928, quando assumiu o cargo de professora na Universidade Mackenzie, em São Paulo.

O legado de Anita Malfatti é fundamental para a arte brasileira por seu caráter revolucionário. A partir de suas contribuições, se criou o contexto que permitiu o surgimento de novas gerações de pintoras e pintores, de artistas contemporâneos, com liberdade para expressar-se em sua individualidade sem a preocupação de uma pintura com expectativa de fidelidade à realidade.

A partir de Anita Malfatti e seus contemporâneos, surge uma nova tradição no cenário nacional, um movimento preocupado em expressar a experiência do ser brasileiro na sua verdadeira face. É ainda mais admirável que a artista tenha conquistado a posição que detém na história, se levarmos em consideração as barreiras tão arraigadas na cultura brasileira da época que precisou superar, sendo uma pessoa com deficiência e uma mulher numa sociedade capacitista e patriarcal. Anita Malfatti foi e segue sendo uma inspiração na arte brasileira.

Luísa Prestes, formada em artes visuais pela UFRGS, é artista, pesquisadora e arte-educadora. Participou de residências, ações, performances e exposições no Brasil e no exterior.

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