O mundo dos sonhos e o inconsciente na obra de artistas surrealistas

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Faz parte da arte a reflexão em torno da ideia de realidade. Dentre os movimentos de vanguarda que despontaram na arte européia no início do século XX, o surrealismo foi aquele que mais se aproximou do inconsciente e do mundo dos sonhos. O inconsciente começou a ser estudado por Sigmund Freud no livro A interpretação dos sonhos, de 1900, sendo considerado a primeira fonte de inspiração para os artistas surrealistas.

O surrealismo possuía muitas influências, entre elas o dadá (ou Dadaísmo), movimento formado no contexto da Primeira Guerra Mundial por artistas e poetas franceses e alemães exilados em Zurique, na Suíça. Uma característica em comum entre os movimentos é a atitude de contestação da racionalidade. Todavia, enquanto o dadá negava a arte e expunha seus limites, o surrealismo a impulsionava através de linguagens como a pintura, a escultura, a literatura e o cinema.

Yves Tanguy. Azure Day, 1937. Reprodução: TATE.

Como dar forma ao inconsciente?

Entre as técnicas desenvolvidas ou apropriadas pelos artistas surrealistas para acessar o inconsciente, a mais conhecida é o automatismo. Com base na psicanálise de Freud, a técnica consiste em um processo criativo no qual o agente – artista ou escritor – realiza uma ação antes do pensamento, ou junto a ele. Na literatura, por exemplo, os escritores escreviam de forma rápida e contínua, de modo automático, seguindo um fluxo de pensamento por livre associação das ideias.

André Breton e a literatura surrealista

Fundador do movimento, o poeta e escritor André Breton escreveu o Manifeste du surréalisme (o primeiro manifesto surrealista) e o publicou em 1924 – o segundo foi publicado em 1929 -, delineando os alicerces desta que viria a se tornar uma das mais populares correntes artísticas no século XX. Breton estudou medicina e psiquiatria, o que explica inicialmente seu interesse nas questões da mente – tão centrais ao movimento sistematizado por ele.

Apesar disso, em 1920 o escritor já havia publicado Les Champs magnétiques (Os campos magnéticos) em parceria com Philippe Soupault, sendo considerada a primeira obra literária surrealista. Breton e os integrantes do grupo surrealista também eram responsáveis pela revista La Révolution surréaliste, publicada entre 1924 e 1929, que contava com artigos de Giorgio de Chirico, André Masson, Max Ernst e Man Ray. Além destes, a literatura surrealista inclui nomes como Paul Éluard, Pierre Reverdy, Georges Bataille, Louis Aragon, Michel Leiris e Max Jacob.

Os principais artistas surrealistas

Max Ernst

O artista alemão Max Ernst é conhecido por ter desenvolvido as técnicas de frottage e grattage em seus trabalhos. A primeira consiste em uma técnica de transferência de uma textura para um papel sobreposto em uma superfície. Já a grattage, de maneira oposta, é uma técnica de raspagem de uma superfície, gerando um desenho que revela o que há nas camadas inferiores da pintura. Estas técnicas são incluídas no automatismo pela imprevisibilidade e imprecisão do resultado, e pela maneira como Ernst e outros artistas as utilizavam. Além destas, o artista também utilizava recortes aleatórios de revistas e jornais para produção de colagens.

artista surrealista Max Ernst. The Sea and Rain (O mar e a chuva), cerca de 1925. Reprodução: TATE.

Max Ernst. The Sea and Rain (O mar e a chuva), cerca de 1925. Reprodução: TATE.

Salvador Dalí

Surrealismo e Dalí são termos inseparáveis. O mais conhecido dos artistas do movimento criou um universo único na pintura, com um estilo marcante e facilmente reconhecível, construindo uma carreira de sucesso e polêmicas. Apesar da pintura ser a linguagem mais conhecida da obra de Dalí, o artista produziu também esculturas, fotografias, filmes, peças de roupa, e chegou a esboçar um projeto de animação em parceria com Walt Disney entre 1945 e 1946, chamada Destino, que não chegou a ser realizada por limitações no orçamento, mas o projeto foi retomado pela Disney em 2003 e ganhou uma versão de 6 minutos.

Obra do artista surrealista Salvador Dalí, A Persistência da Memória

Salvador Dalí. A persistência da memória, 1931.

Sua obra mais famosa é A persistência da memória, pintada em 1931. A pintura altamente contrastada evoca o universo dramático do artista, que utilizou a distorção de elementos reais para aludir ao mundo dos sonhos. Seus relógios derretidos podem contar muito sobre a postura surrealista que supera nossas concepções do espaço e do tempo, e assim falam de um lugar onde tudo é possível através do imaginário.

Dalí também se aventurou no cinema, tendo produzido junto com Luis Buñuel o filme Um Cão Andaluz em 1929, gerando uma das cenas mais icônicas da história do cinema, na qual uma personagem tem seu olho cortado por uma navalha.

Luis Buñuel e Salvador Dalí. O cão andaluz, 1929.

A imagem pessoal de Salvador Dalí ficou tão marcada na indústria que hoje suas obras e seus retratos se tornaram produtos extremamente comerciais, ilustrando de cadernos a bolsas.

René Magritte

O pintor belga René Magritte é sem dúvida um dos artistas surrealistas mais famosos. Em suas pinturas empregava elementos cotidianos e gestos comuns – como um beijo, por exemplo – de modos inesperados. Suas obras são carregadas de mistério e simbologias, pelas quais podemos encontrar diversos significados de acordo com nosso olhar e imaginação. Uma de suas obras mais conhecidas é A traição das imagens, de 1929, onde lemos “Isto não é um cachimbo”, na qual o artista suscita uma importante reflexão sobre como tudo na arte é uma representação, e não a coisa representada em si. Outras obras importantes de Magritte são Os amantes, de 1928, O filho do homem, de 1964, e O espelho falso, de 1928.

René Magritte. A traição das imagens, 1929. Reprodução: Mymodernmet.

Joan Miró

O artista espanhol Joan Miró nasceu em Barcelona, e se formou na Real Academia Catalana de Belles Arts de Sant Jordi e na Academia de Gali. Posteriormente foi a Paris em 1919, onde conheceu Picasso e as tendências modernistas da época. Miró também construiu um universo visual próprio, no qual trabalhou muitos elementos e símbolos pequenos que se espalham pela tela, geralmente pintados de preto em combinação com cores primárias.

Joan Miró. Números e constelações em amor com uma mulher, 1941.

Man Ray

​​Glass Tears, 1932. Reprodução: obviousmag.

O estadunidense Man Ray – pseudônimo de Emmanuel Rudnitsky – começou na pintura, mas suas experimentações fotográficas o fizeram uma das maiores referências da fotografia artística, tendo também produzido filmes. Fez parte dos movimentos dadá e surrealismo, com uma carreira entre Nova York e Paris. Outros nomes importantes para a fotografia surrealista são a francesa Dora Maar (Henriette Theodora Markovitch) e o húngaro-francês Brasaï (Gyula Halasz). O mundo da arte demorou para aceitar a fotografia enquanto uma linguagem artística e não somente documental. Nesse sentido, encontramos nos experimentos de Man Ray uma infinidade de possibilidades criativas nas mídias fotográficas de modo precursor.

André Masson

A técnica de desenho automático foi muito utilizada pelo artista francês André Masson, que explorava outros estados do corpo para produzir suas obras, como trabalhar após longos períodos sem comer e dormir, ou mesmo sob efeito de drogas. As obras que resultam desses processos se aproximam muitas vezes das correntes expressionistas.

André Masson. Automatic drawing, 1924.

Mulheres surrealistas

Apesar de não figurarem nas principais listas que elencam os maiores artistas surrealistas, existem artistas mulheres que desenvolveram extensas produções dentro do estilo. Mesmo não se considerando uma artista surrealista, já que pintava suas próprias dores reais, Frida Kahlo é considerada um eixo central para o surrealismo no México. Em torno dela estavam artistas exiladas de diversos países além do México, entre elas: Maria Izquierdo, Leonora Carrington, Alice Rahon, Remedios Varo, Kati Horna, Bridget Tichenor e Rosa Rolanda. A estadunidense Gertrude Abercrombie também é uma referência feminina no surrealismo.

Remedios Varo. La creación de las aves, 1957.

O surrealismo é o tipo de movimento que não morre, apenas se transforma e renasce em produções dispersas ao redor do mundo. O que nasceu enquanto vanguarda européia influencia até hoje os artistas que buscam externalizar o mundo dos sonhos e provar que a realidade por si só não basta.

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Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.

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Confira nossa seleção de obras que flertam com o surrealismo: Enigma.

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