Impressionismo: origens, principais artistas e influências no Brasil

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À arte moderna – especificamente a europeia – é atribuído o feito de desconstruir uma série de tradições seculares na arte ocidental. Na pintura, por exemplo, foi superada a ideia do quadro como representação idealizada da natureza, baseada em técnicas como a perspectiva linear, que buscava reproduzir uma espacialidade de modo ilusório.  Mas tudo tem um começo – ou vários -, e quando se trata de modernismo, a corrente artística conhecida como Impressionismo é considerada o ponto inicial para o desenvolvimento do que conhecemos por arte moderna na Europa. Esta corrente da pintura – e posteriormente da música – antecedeu todas as vanguardas européias responsáveis por transformar definitivamente os circuitos artísticos a partir do início do século XX. 

Claude Monet. Impressão, nascer do sol, 1872. 

Qual a origem do termo impressionismo? 

O termo impressionismo foi utilizado por Louis Leroy em um texto crítico sobre a primeira exposição de um grupo de artistas franceses que buscava novas formas de representação na pintura, especialmente através do retrato de figuras humanas e paisagens. Entre as obras presentes, ele destaca a tela Impressão, Sol nascente do pintor francês Claude Monet. No texto, Leroy criticava a exposição dos pintores que ocorreu no estúdio do fotógrafo Félix Nadar em 1874, nomeando-a de “Exposição dos Impressionistas”. Para o crítico, a falta de profundidade ou de acabamento refinado nas pinceladas, fugindo das características da pintura acadêmica, fazia com que as obras da exposição parecessem inacabadas, amadoras. 

Essa nova aspiração dos artistas em questão era contra as representações naturalistas da arte acadêmica, aquela que se comprometia em representar o mundo do modo mais fiel possível, muitas vezes escondendo qualquer rastro do trabalho artístico, como as pinceladas e rastros da superfície da tela. 

Ao deixar as ilusões da arte acadêmica de lado, os impressionistas perceberam que as pinceladas quando não misturadas podiam causar um efeito ótico no observador – as cores podem se misturar no momento em que a imagem é recebida no cérebro. 

Berthe Morisot. Woman at Her Toilette, 1875/80. Reprodução: Britannica. 

Origens e referências impressionistas 

Antes que o movimento impressionista fosse articulado, alguns artistas já estavam experimentando novas formas de pintar. Eugène Boudin e Johan Barthold Jongkind são apontados como referências diretas para Claude Monet, um dos precursores do movimento. Diferente do costume de muitos artistas de finalizar as obras dentro do ateliê após sessões externas de pintura, Boudin exerceu a prática de produzir toda a obra ao ar livre, que foi adotada pelos impressionistas posteriormente. O artista estava, inclusive, presente na famosa primeira exposição impressionista de 1874.

Uma das principais características compartilhadas entre os impressionistas é o estudo de luz. Esses pintores treinaram o olhar para perceber como a luz do sol incidia sobre uma infinidade de superfícies, e desenvolveram diversas técnicas para reproduzir esses efeitos na pintura. Mais do que copiar o efeito de uma luz, os impressionistas reelaboravam suas próprias percepções visuais na hora de pintar. 

Principais artistas impressionistas

Claude Monet e suas pinturas realizadas ao ar livre são provavelmente a expressão máxima do impressionismo. O pintor deixou uma extensa produção que contempla paisagens, marinhas, cenas familiares, entre tantas outras. No final da vida, se dedicou a pintar os jardins cultivados dentro de sua propriedade em Giverny, no norte da França. 

Desta época surgem séries famosas como as Ninféias, nas quais o artista foca nas flores aquáticas, e também a ponte japonesa que pairava sobre um lago. Monet tinha o costume de pintar a mesma cena muitas vezes – em diversos momentos do dia, nas quatro estações do ano – valorizando as variações de luz em cada uma. O MASP possui 2 obras de Monet, uma ponte e uma cena em que duas moças estão sentadas em uma canoa. 

Claude Monet. A canoa sobre o Epte, cerca de 1890. Foto: reprodução acervo MASP. 

Na obra A canoa sobre o Epte, que pode ser vista no museu paulistano, encontramos algumas características marcantes do movimento impressionista, como a importância da fluidez da pincelada na representação de texturas e elementos diversos. O reflexo da água sobre a canoa é composto por pinceladas em movimentos ondulares, que remetem às cores da paisagem que rodeia a cena, além de dar forma ao próprio movimento da água, agitada pelo remo empunhado por uma das moças. 

Pierre Auguste Renoir, outro nome emblemático do movimento, possuía um modo próprio de trabalhar o volume na pintura. Massas de cor livres de contorno compunham de forma vívida paisagens, natureza-morta, retratos, e cenas ao ar livre. O MASP possui também em seu acervo 13 obras de Renoir, incluindo a icônica Rosa e azul – As meninas Cahen d’Anvers, pintada em 1881. 

Pierre Auguste Renoir. Rosa e azul – As meninas Cahen d’Anvers, 1881. Reprodução: wikimedia. 

Diferente da maioria dos impressionistas, Renoir se interessava muito pela figura humana. Nesta obra, o artista representou de forma suave detalhes das vestes, como o tecido acetinado e as camadas de renda dos vestidos. Renoir se permitia dar variados acabamentos para cada textura estudada, como pode ser visto na diferença das pinceladas na pele, no fundo e nas roupas. 

Apesar das cenas externas serem mais lembradas, o trabalho dos impressionistas trouxe novas visões sobre como expressar a figura humana na arte. Artistas como Berthe Morisot e Edgar Degas, por exemplo, se aprofundaram na intimidade de cenas do cotidiano. As bailarinas de Degas se tornaram sua série mais marcante, expandida também para esculturas em bronze. Na pintura, as cenas dos ensaios de balé eram construídas em enquadramentos diversos, como recortes de uma cena maior. Outro diferencial de Degas entre os impressionistas era seu maior interesse em ambientes internos e nas luzes artificiais. 

Edgar Degas. Ensaio no palco, cerca de 1874. Reprodução: The Met Museum. 

Frédéric Bazille foi outra figura importante na primeira fase impressionista, graças ao contato com Monet e Renoir, chegando a ceder o espaço do seu ateliê para os colegas. Diferente dos companheiros, a obra de Bazille possuía certa estaticidade e dureza, tanto nas suas paisagens como nos retratos de cenas casuais. 

O mais velho do grupo, Camille Pissarro, foi o único artista da primeira fase a expor nas 8 exposições impressionistas realizadas pelo primeiro grupo. Apesar de ter experimentado em diversos estilos na pintura, o artista deixou sua contribuição para o impressionismo, especialmente por suas pinturas de paisagem rural. Pissarro representava uma figura de respeito, contribuindo para o debate em torno das questões caras do grupo. 

Já Edouard Manet, que já estava trazendo novas possibilidades de representação na arte pela escolha de seus modelos e o modo como os retratava, também aderiu ao movimento posteriormente. Outros artistas participantes da primeira geração impressionista são Alfred Sisley e Armand Guillaumin que se dedicaram à paisagem francesa, o que inclui os rios, conjuntos arquitetônicos, os bosques, entre o rural e o urbano em pleno desenvolvimento. 

O pós-impressionismo 

O impacto das experimentações pictóricas impressionistas pode ser visto em produções conhecidas como pós-impressionistas, que se espalharam para diversas regiões além da França. Diferente do grupo de pintores franceses mencionados até aqui, os artistas pós-impressionistas não necessariamente participavam de um círculo próximo. Além disso, alguns artistas são classificados tanto como impressionistas, como pós-impressionistas, como é o caso de Edgar Degas e Paul Cézanne. 

A característica experimental na obra de Cézanne é geralmente associada a uma influência que o artista teve sobre o surgimento de movimentos como o Cubismo e o Fauvismo, especialmente por sua inovação na perspectiva e geometrização dos elementos representados. O artista também possui uma aproximação com a plasticidade pós-impressionista em algumas pinturas de paisagem. 

Vincent Van Gogh. Irises, 1890. Reprodução: Van Gogh Museum

Vincent Van Gogh, um dos maiores pintores holandeses da história e muito popular atualmente, é considerado um dos precursores do pós-impressionismo. A pincelada marcada fica mais evidente na obra de Van Gogh, que trabalhava a densidade da tinta para representar o volume em alguns pontos específicos das obras. Além disso, uma maior liberdade no uso da cor o permitia compor obras mais vibrantes. Outros artistas pós-impressionistas importantes são Paul Gauguin, Henri de Toulouse-Lautrec e Paul Sérusier. 

O impressionismo no Brasil 

É inegável a influência da arte européia ao longo dos séculos de colonização no Brasil. A Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro foi um grande reduto de artistas franceses no país desde o início do século XIX. 

Eliseu d’Angelo Visconti, imigrante italiano, é apontado como o precursor do impressionismo no Brasil. Em 1885, após ter estudado no Liceu de Artes e Ofícios por 3 anos, o artista se matriculou na então Academia Imperial de Belas Artes. Em 1890, a instituição foi nomeada Escola Nacional de Belas Artes, dentro de um contexto de transformações no país e, logo, dentro do centro artístico. Após 2 anos o artista recebeu o prêmio de viagem à Europa, o que o permitiu ter um contato mais próximo com as inovações artísticas do período. 

Eliseu Visconti. Patinhos no Lago, 1897. Imagem: Projeto Eliseu Visconti. 

Ao retornar ao Brasil, o artista trouxe consigo algumas ideias encontradas na Art Nouveau e no Impressionismo – não por uma assimilação direta, mas sim uma incorporação de características que ela via sentido em harmonia com seus estudos acadêmicos. A influência impressionista na obra de Visconti por ser vista especialmente nos estudos de luz em paisagens e cenas do campo.

Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.


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