O que esperar do circuito brasileiro de arte em 2022?

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O ano de 2022 está apenas começando, mas o circuito brasileiro de arte já está a todo vapor preparando grandes acontecimentos em um cenário otimista. Enquanto  a sensação de instabilidade causada pela pandemia de COVID-19 se dilui com o avanço da vacinação no Brasil, eventos do mundo da arte restabelecem seu compromisso com suas edições em 2022.

Esse otimismo se mostra principalmente no mercado da arte, como afirma o galerista brasileiro Thiago Gomide em entrevista à Arte!Brasileiros, na qual diz acreditar que estamos apenas no início de um grande boom e que a próxima década vai ser a melhor que o mercado da arte já teve na história. Esta projeção se confirma com o relatório da Deloitte, segundo o qual até 2025 deve-se ver um grande crescimento no investimento em artes visuais não apenas no Brasil, como em todo o mundo.

Nessa perspectiva, as principais feiras do mercado da arte brasileiro, SP-Arte e ArtRio, tem suas edições de 2022 previstas para acontecer em abril e setembro, respectivamente. Além disso, a ArtRio anunciou que vai expandir sua atuação com a criação de uma edição na capital paulista, a ArtSampa, que vai acontecer em março de 2022 na OCA, projeto de Oscar Niemeyer dentro do Parque Ibirapuera. Esse cenário de confiança é mundial: um dos responsáveis pela TEFAF (The European Fine Art Foundation), Hidde van Seggelen, afirma que é natural a apreensão acerca da situação global causada pela COVID-19, mas que acredita que as feiras de arte respondam com protocolos mais diligentes para proporcionar segurança ao público. Além das feiras, outros eventos como grandes exposições e mostras estão programadas para 2022. A seguir veremos alguns destes acontecimentos no circuito brasileiro de arte.

Portinari para todos

O calendário de grandes exposições abre em janeiro com a mostra realizada pelo MIS Experience de projeções interativas em alta resolução das mais de cinco mil obras deixadas pelo artista Cândido Portinari (Brodowski, São Paulo, 1903 —1962), um dos maiores nomes da pintura brasileira. A mostra tem curadoria de Marcello Dantas e também levará o visitante a uma recriação cenográfica do ateliê do pintor e a caminhar por um túnel de luz imersivo.

Candido Portinari. Criança Morta, 1944. Imagem: Funarte

Volpi Popular 

Em 2022, no ciclo voltado às ‘Histórias brasileiras’, o MASP apresentará Volpi popular, a terceira mostra dedicada a artistas modernistas brasileiros que trabalham com referências populares. A  mostra destinada a Alfredo Volpi (Luca, Itália, 1896-1988) deve ser inaugurada em 25 de fevereiro e contará com algumas das mais famosas obras do artista autodidata.

Alfredo Volpi. Cataventos, sem data. Imagem: MASP

Adriana Varejão na Pinacoteca de São Paulo

Ainda em março de 2022 teremos mais uma grande exposição dedicada a uma das artistas brasileiras de maior repercussão internacional. A mostra panorâmica da obra de Adriana Varejão (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1964) contará com cerca de 60 trabalhos de diferentes fases e períodos da artista e ocupará 7 salas da Pinacoteca, além do Octógono, espaço central do museu, onde estarão as obras recentes da série Ruínas.

Adriana Varejão. Alegoria Imprecisa, 2011. Imagem: Almeida e Dale

Beyond Van Gogh

A exposição Beyond Van Gogh é uma experiência imersiva onde o público entra em contato com 300 obras do pintor que ganham vida através de projeções, fluindo por múltiplas superfícies em um espaço pensado especialmente para que o público mergulhe na poética do artista. O pintor holandês Vincent Van Gogh ( Zundert, Países Baixos, 1853 – 1890) é considerado um dos maiores artistas da história, com uma produção dotada de forte carga emocional e expressiva, tendo influenciado as principais vanguardas artísticas do século XX. Beyond Van Gogh é uma exposição itinerante idealizada pelo Normal Studio e já passou por países como Canadá, Chile e Estados Unidos. A mostra chegará em São Paulo em março e em Brasília em julho.

Beyond Van Gogh. Imagem: Sobreviva em São Paulo

Arthur Bispo do Rosário 

Em maio o Itáu Cultural apresentará uma grande exposição dedicada ao artista Arthur Bispo do Rosário  (Japaratuba, Sergipe, 1911- 1989), uma figura reconhecida nacional e internacionalmente. Ao longo de anos em que viveu internado em instituição de saúde mental, desenvolveu com objetos cotidianos uma produção em artes visuais riquíssima. Considerado gênio por alguns e louco por outros, sua influência na arte contemporânea brasileira é inegável.

Arthur Bispo do Rosário. Manto da Apresentação. Imagem: Museu Bispo do Rosário

Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922

Outro importante acontecimento de 2022 é a celebração do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Uma rica programação vem sendo pensada por diferentes instituições como forma de celebrar este marcante evento na história da arte nacional. A biografia e trajetória intelectual de Mário de Andrade (São Paulo, São Paulo 1893-1945), um dos principais expoentes da Semana de Arte de 1922, serão exibidas na mostra Arqueologia Amorosa de São Paulo no Museu Afro Brasil, com o primeiro módulo expositivo inaugurado em 25 de janeiro de 2022, data de aniversário da cidade.

Além disso, a exposição Abaporu Periférico no Museu Catavento, apresentará 12 grandes telas produzidas por artistas urbanos e grafiteiros em uma reinterpretação com o contexto da periferia a partir de trabalhos de artistas modernistas, como Anita Malfatti e Di Cavalcanti. Também a mostra Era Uma vez o Moderno que reúne mais de 300 obras e documentos dos principais artistas do movimento, como Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, será apresentada no Centro Cultural Fiesp até maio de 2022. Ainda, o Instituto Moreira Salles apresentará mostras temáticas em diálogo com o centenário da Semana de Arte Moderna e o bicentenário da Independência do Brasil.

O IMS anuncia que apesar de não dedicar exposições específicas a esses eventos, o diálogo se desenvolverá equacionando suas perspectivas e questões por meio do estudo de contextos relevantes, que sejam contemporâneos ou que se articulem com eles em alguma medida. É o caso da mostra Modernidade fora de foco: Foto e filme no Brasil, 1889-1930, que abre em setembro e parte da constatação da ausência do cinema e da fotografia na Semana de 1922 e revela como essas duas artes retrataram o acelerado processo de urbanização ocorrido nas principais cidades brasileiras à época, durante a Primeira República (1889-1930). 

Cartaz da Semana de Arte Moderna de 1922. Imagem: O Globo

O Brasil na 59ª Bienal de Arte de Veneza

A Bienal de Arte de Veneza voltará a ser realizada em 2022, após o adiamento de um ano devido a pandemia de COVID-19. Para representar o Brasil na mais antiga Bienal do mundo, o curador Jacopo Crivelli Visconti foi nomeado pela Fundação Bienal de São Paulo. A instituição defende que, além de tratar-se de uma tradição nomear para a Bienal de Veneza o curador geral da última edição da Bienal de São Paulo, a escolha se deu em função do vasto conhecimento que Visconti demonstra acerca da arte contemporânea brasileira. O curador, por sua vez, selecionou o artista alagoano Jonathas de Andrade (Maceió, Alagoas, 1982). O artista desenvolverá uma instalação inédita comissionada para a ocasião em diálogo com o tema da edição, que inspira-se no título do livro The Milk of Dreams (O leite dos sonhos) da artista surrealista Leonora Carrington. O público poderá visitar o Pavilhão do Brasil entre abril e novembro.

Jonathas de Andrade. Fotograma de O peixe, 2016. Imagem: 32ª Bienal de São Paulo

Ampliação da Pinacoteca de São Paulo

Em dezembro a Pinacoteca de São Paulo anunciou sua ampliação, com previsão de inauguração para novembro de 2022. Com o novo espaço, a instituição ampliará sua área e capacidade de público, tornando-se um dos maiores museus de arte da América Latina. A Pina Contemporânea terá potencial para atender até 1 milhão de visitantes por ano e se somará ao conjunto de edifícios da Pinacoteca de São Paulo, hoje composto pela Pinacoteca Luz e pela Pinacoteca Estação. A instituição defende que o principal objetivo da ampliação é criar um ambiente com todos os requisitos fundamentais para um museu do século XXI, que seja também amigável, inclusivo, acessível e integrado ao parque da Luz e ao edifício da Pinacoteca Luz: “Um museu de arte brasileira em diálogo com as culturas do mundo”, nas palavras de Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca de São Paulo. 

Documenta de Kassel

A documenta de Kassel, um dos mais importantes eventos do mundo da arte, está com sua 15ª edição prevista para acontecer entre junho e setembro de 2022 em Kassel, na Alemanha, e conta com a curadoria do coletivo de artistas ruangrupa, sediado na Indonésia. O coletivo esteve no Brasil em 2014, participando da 31ª Bienal de São Paulo e em março de 2021 na Casa do Povo, também em São Paulo, onde realizou cerca de 10 encontros com diversos agentes sociais e grupos, como o Movimento Sem Terra e a liderança indígena Jerá Guarani. O conceito curatorial de ruangrupa baseia-se em uma abordagem abrangente da sustentabilidade e coletividade, como afirmam em seu site: “Queremos criar uma plataforma de arte e cultura globalmente orientada, colaborativa e interdisciplinar que permanecerá efetiva além dos 100 dias da documenta quinze. Nossa abordagem curatorial busca um tipo diferente de modelo colaborativo de uso de recursos – em termos econômicos, mas também no que diz respeito a ideias, conhecimento, programas e inovações”.

Coletivo ruangrupa. Imagem: Site do coletivo

Museu de Arte Negra em Inhotim

Em curadoria conjunta entre o Instituto Inhotim e o IPEAFRO (Instituto de Pesquisa e Educação Afro Brasileira), o projeto Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra, foi pensado como uma homenagem ao artista e ativista Abdias Nascimento, no ano em que se completam 10 anos de sua morte. O Museu de Arte Negra, que foi idealizado por Nascimento como um projeto itinerante e hoje é preservado e mantido pelo IPEAFRO, ocupará a Galeria da Mata do Inhotim (Brumadinho-MG) pelos próximos dois anos com exposições divididas em quatro atos e abordagens inéditas. O primeiro ato, chamado de “Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra” apresenta uma relação entre o acervo do MAN e a obra de Tunga, artista de grande importância para arte brasileira que explorava em sua obra temas comuns aos das mitologias africanas, além de ser amigo pessoal de Abdias Nascimento. O primeiro ato poderá ser visitado até abril.

Inhotim e o Museu de Arte Negra. Imagem: Estado de Minas

Dois novos museus em São Paulo: Museu das Favelas e Museu das Culturas Indígenas

No final de 2021 o Governo do Estado de São Paulo anunciou o aporte de mais de 40 milhões de reais para a ampliação do Museu da Diversidade Sexual (inaugurado em 2012) e a criação de dois novos museus: o Museu das Favelas e o Museu das Culturas Indígenas. O primeiro tem como objetivo articular, preservar e comunicar as potências das favelas paulistas e brasileiras, suas histórias e memórias de resistência e resiliência das comunidades, seus patrimônios culturais e outras riquezas. O Museu das Favelas contará com a parceria da Central Única das Favelas, terá investimento previsto de 15 milhões de reais e será inaugurado em junho de 2022. Já o Museu das Culturas Indígenas será o primeiro museu feito e conduzido por indígenas no estado de São Paulo e pretende ser um espaço de referência, além de uma vitrine para a potência dessas comunidades. O museu contará com a parceria do Instituto Maracá e de lideranças indígenas, que estão participando de sua concepção. Com investimento de 14 milhões de reais, o Museu das Culturas Indígenas tem sua abertura programada para março de 2022. A exposição inaugural será uma homenagem a Jaider Esbell, artista e ativista dos direitos indígenas, que foi destaque da 34ª Bienal de São Paulo e faleceu no final do ano passado, aos 42 anos.


Luísa Prestes, formada em artes visuais pela UFRGS, é artista, pesquisadora e arte-educadora. Participou de residências, ações, performances e exposições no Brasil e no exterior.


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