Rodrigo Naves desfaz o mito de Van Gogh em seu novo livro

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Livro lançado em fevereiro de 2021, abandona perspectiva tradicional da obra de um dos maiores artistas da arte plástica internacional

A Noite Estrelada, 1889 – Van Gogh – pintura que ilustra a capa do livro de Rodrigo Naves – imagem: Google Arts & Culture

Entre uma avalanche de comentários e opiniões sobre o pintor holandês Vincent Van Gogh, o lançamento de um livro dedicado a este artista nos dias de hoje pode soar um pouco redundante. Se por um lado a lista de opiniões é grande, por outro, o número de análises consistentes dentro do contexto artístico tem proporção inversa.

É nesse escopo de escassez que se posiciona a nova obra do crítico brasileiro Rodrigo Naves.

O autor, conhecido crítico, historiador e professor, já publicou uma série de ensaios, artigos e livros sobre artistas modernos e contemporâneos. Mantém neste volume, a serenidade de sua narrativa costumeira, uma leveza didática mesmo que em referência a argumentos inéditos.

Bem como no artigo de 2005, “O Sol no meio do caminho” onde traça um paralelo entre o livro “O Cortiço” de Aluísio Azevedo e a tela “O caipira picando fumo” do pintor brasileiro Almeida Jr, no qual levanta um único elemento de conexão para embasar sua tese, neste novo volume, “Van Gogh, a salvação pela pintura” (Editora Todavia, 2021) usa estratégia semelhante. Toma por elemento-chave a religião calvinista do pintor como ponto determinante para seu fazer artístico.

Trata-se de um interesse em desfazer o mito da loucura criado e perpetuado acerca da pessoa e da obra de Van Gogh. Apesar de o mito não ser tratado com tanta importância pelo livro, é válido mencionar esse ponto de partida.

É mais do que comum, é quase via de regra que se trate a obra de Van Gogh como consequência de sua famigerada loucura. Publicações como “Van Gogh suicidado pela sociedade” ou “Sede de Viver”, filme brevemente mencionado no livro, se dedicam a observar o pintor sob a lente das perturbações psicológicas.

Ao se recusar a pensar somente dessa forma, Rodrigo Naves mostra uma assertiva postura como crítico de arte. As polêmicas da vida do pintor desde sua saúde mental, o incidente com a orelha, até a maneira como acontece sua morte, são situações das quais não se tem comprovação diagnóstica ou científica.

Por se caracterizarem como suposições e especulações, já não fazem parte do raio de dados usados em uma análise crítica profissional.

As especulações rondam o mundo da arte como espectros de curiosidade e vontade de alimentar um status místico para as obras. A vida do artista muitas vezes se sobrepõe à obra e ao abandonar esses fatores, Rodrigo Naves se debruça sobre o que de fato temos em mãos: as cartas e as pinturas.

As cartas escritas por Van Gogh a seu irmão, argumenta o autor, demonstram uma enorme lucidez e consciência do seu fazer artístico. São cartas poéticas e muito bem escritas e nos dá indícios da perspectiva artística, política e religiosa do pintor.

A noção de trabalho para a religião calvinista é elementar e parte do princípio de que os instintos humanos, os desejos e impulsos são disciplinados pelo trabalho. A presença do elemento humano e manual devem então se mostrar muito presentes e são de fundamental importância para alguém formado na religião calvinista. O uso da tinta e as pinceladas marcantes e grossas, uma técnica chamada impasto, de Van Gogh seriam influência direta dessa prática. Rodrigo Naves aponta que o impasto representaria essa árdua atividade que levaria a salvação, que dá título ao livro.

Há também de ser destacar a tensão existente entre figuração e matéria, uma vez que a pincelada, enquanto matéria, não se anula à serviço da figuração e se faz presente na construção do elemento representativo. Essa ambiguidade seria, segundo Naves, uma espécie de luta que não se finda.

Apesar de sua evidente aproximação com a religião, não lhe agrada pintar temas religiosos em si, mas pretende traduzir a noção de dignidade através de suas cenas. A tela “Os comedores de batata”, se aplica como perfeito exemplo: uma família que, segundo o próprio pintor, em excerto de cartas, come as batatas com as mesmas mãos que trabalham honestamente na terra para colhê-las.

Os comedores de batata (1885), Van Gogh – imagem: Google Arts & Culture

Passeando por seu contexto histórico, o autor menciona algumas experiências pessoais do pintor holandês bem como as práticas de outros artistas e críticos a fim de reiterar e alargar a argumentação de sua tese.

Outro acerto neste livro é a ideia de que mesmo sendo contemporâneo às movimentações impressionistas, Van Gogh não poderia nunca pintar como um impressionista. É como se o pintor vivesse no caminho contrário aos impressionistas. De um lado, a ideia de que a vida é viver e através do amplo uso da luz, a impressão do mundo se torna leve e serena. De outro, a vida entendida como dificuldade de viver, sendo o mundo visto de forma visceral, o que trouxe a Van Gogh um “sentimento áspero do mundo”, nos remetendo novamente ao peso e importância que as grossas tintas carregam na pintura do artista.

Mais do que textos carregados de teoria, os curtos capítulos se constroem como fragmentos de sensações e pequenas doses de estimulantes ideias. De certo, as mesmas que foram despertadas em Rodrigo Naves quando em contato com o trabalho de Van Gogh. O resultado foi uma caminhada leve por lugares pouco antes explorados sem, contudo, se perder em abstrações, mas mantendo uma pesquisa clara e objetiva.

Na mão do autor, Van Gogh é humanizado. Analisado como uma pessoa que passou por experiências doloridas e prazerosas, como qualquer outro artista, o livro liberta a obra do pintor do discurso oficial do sofrimento. Seria essa sua salvação?

Victoria Louise é redatora da ArtSoul formada pela PUC-SP em Arte: História, Crítica e Curadoria e Gestão Cultural

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