Retratos contemporâneos e a restituição de poder na arte 

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Artistas negros formulam um novo imaginário para corpos que foram marginalizados por uma história hegemônica na arte

A figuração humana sempre esteve presente na arte com diferentes propósitos. Entre homenagens às divindades na escultura e retratos na pintura, a representação do humano esteve atrelada a uma série de fatores sociais. O gênero de pintura de retrato – foco deste texto – pode ser entendido como uma ferramenta de expressão de poder, primeiramente, quando considera-se quem pôde ser retratado ao longo da história, e de que forma foi retratado. 

Sem traçar uma linha do tempo linear, pode-se recorrer a determinados momentos históricos que certamente impactaram a contemporaneidade – os quais geram reflexos e respostas de artistas em produção atualmente. 

A história da arte europeia, por exemplo, carrega séculos de produções visuais à serviço da igreja e realezas, de representações de santos a reis e rainhas em completo esplendor – todos brancos, formando uma identidade idealizada e um padrão estético. Por muito tempo foram essas as instituições que financiaram a arte e, portanto, detinham o protagonismo na pintura de retrato. 

Mesmo que determinados grupos marginalizados tenham sido retratados em diversos momentos da história, a maioria dessas representações respondiam a ideais daqueles grupos detentores de poder. Neste amplo contexto, muitos retratos de pessoas negras ou de indígenas, produzidos por artistas brancos sob uma ótica colonialista, desumanizam os modelos e tiram deles sua individualidade, sempre recorrendo a estereótipos. 

A ocupação dos espaços de poder 

À medida em que grupos sociais até então marginalizados passaram a ocupar os espaços de disputa de poder e legitimação – como as instituições culturais -, outras narrativas passaram a ser tangíveis. A incorporação de produções negras não é um fenômeno isolado, e é importante lembrar que as lutas sociais abriram campo para que pessoas racializadas ocupassem todo tipo de espaço que lhes foi negado por séculos.

Contra um histórico de representações estereotipadas e sequestros de narrativas, artistas têm utilizado a pintura de retrato para revisitar uma história que se passou, articular o presente e, logo, criar novas possibilidades para o futuro. Esse movimento ocorre em produções artísticas e intelectuais, reverberando nos posicionamentos institucionais. 

Vista da exposição Enciclopédia Negra na Pinacoteca de São Paulo com retratos de diferentes artistas. Reprodução: Nara Roesler. 

A Enciclopédia Negra, publicação que se tornou exposição na Pinacoteca, pode ser um bom exemplo sobre como curadores, artistas e instituições se articulam atualmente para responder às lacunas históricas que se percebem no cenário da arte, em especial nos acervos dos museus. 

A exposição trouxe retratos de pessoas negras que tiveram papéis importantes na história, contudo, grande parte não foi retratada em vida. Para que o reconhecimento dessas histórias e o resgate de suas imagens fosse possível, a curadoria de Jaime Lauriano, Lilia Schwarcz e Flávio Gomes convidou artistas para que produzissem retratos incluídos na publicação e expostos na Pinacoteca. Além disso, a instituição adquiriu as obras expostas para seu acervo fixo e ampliou consideravelmente o número de artistas negros presentes na coleção. 

Dentro do movimento de pensar novos retratos, artistas têm construído imagens de reconhecimento de poder. Elian Almeida, artista nascido no Rio de Janeiro, trabalha especialmente com pintura de tinta acrílica sobre tela. Obras do artista estão presentes na Enciclopédia Negra, especificamente sua série Vogue, inspirada na composição das capas da revista de moda mais famosa do mundo. 

Em entrevista, o artista afirma que a pesquisa dessa série está relacionada à investigação do apagamento de memória social. Almeida questiona quais foram as protagonistas dessas capas – assim como outros espaços midiáticos – e de que modo pessoas negras tiveram pouco ou raro acesso a este tipo de imaginário. 

Elian Almeida. Esperança Garcia, Luísa Mahin e Maria Firmina dos Reis (Vogue Brasil), 2021. Reprodução: Nara Roesler. 

Um dos artistas que têm ganhado destaque no gênero de retrato atualmente é O Bastardo, que iniciou sua carreira no grafitti e foi introduzido a outras técnicas de pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e posteriormente na Beaux-Arts de Paris. O artista traz em seus trabalhos elementos próprios da estética da periferia carioca, das roupas e cortes de cabelo à gestualidade. 

A ostentação também se torna ferramenta para artistas como O Bastardo, que incorporam em suas obras algumas marcas de luxo e demais elementos referentes ao poder aquisitivo. Em entrevista, o artista menciona a questão da autoestima que é pensada para pessoas negras e periféricas dentro do contexto do consumo e ocupação de novos espaços.

O Bastardo. Obra comissionada para a exposição Contramemória, apresentada no Theatro Municipal de São Paulo em 2022. Reprodução: Casa Triângulo. 

Recentemente, O Bastardo produziu uma obra comissionada para a exposição Contramemória, apresentada no Theatro Municipal de São Paulo na ocasião do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. A obra remonta a composição de uma fotografia icônica de artistas que estavam presentes na semana. Contudo, o artista insere personalidades que ele considera como os novos modernistas, incluindo os curadores Jaime Lauriano e Carollina Lauriano, o artista Jaider Esbell e ele mesmo. 

Novas composições e protagonismos

A pintura de retrato pode ser analisada pelos enquadramentos, perspectivas, jogos de luz e como toda a composição é formulada para apresentar a pessoa retratada. Esses elementos são trabalhados por artistas para tecer narrativas específicas, com o potencial de valorizar ou reduzir uma pessoa – ou todo um recorte social. 

Pode-se recorrer à arte acadêmica para uma compreensão de como pessoas negras e indígenas foram retratadas de modo caricato e estigmatizado por séculos. A grande maioria das produções pertencentes à arte acadêmica distanciaram essas pessoas de qualquer imaginário diferente daquele relacionado ao trabalho braçal, o que muitas vezes culminou em representações sexualizadas e/ou serviçais.   

Antonio Ferrigno. Preta quitandeira, 1900. Imagem: Google Arts. 

Nessas obras, o enquadramento que posiciona o personagem abaixo do ângulo de visão do observador, aliado à iluminação dramática, trabalham em conjunto para formular um discurso visual de desvalorização do sujeito. Ao mesmo tempo que, pessoas brancas em posições de poder eram retratadas em ângulos opostos, com grandes focos de luz, posições heróicas, acompanhadas de símbolos que reforçam a posição de domínio. 

Já os artistas contemporâneos buscam outras perspectivas e usos desses elementos da pintura para inverter tais narrativas. Ainda, para além da leitura técnica, é interessante pensar nas conexões estabelecidas em todo o processo que envolve a produção de um retrato. A série Vigília, da artista Panmela Castro, é desenvolvida a partir do que a artista chama de “deriva afetiva”, segundo apresentação em seu site oficial

Panmela Castro. Mc Carol de Niterói – Vigília”, 2021. Reprodução: Prêmio PIPA.

Para a composição de um novo retrato, a artista leva em consideração uma relação criada – ou reafirmada – com a pessoa retratada e seus relatos apresentados no momento de produção. Diferente de muitos retratos produzidos ao longo da história da arte que eram carregados de impessoalidade, a produção de Castro é envolvida e, de muitas maneiras, comprometida. Para além da maneira como a artista valoriza novas perspectivas em seus retratos, é valioso perceber que as pessoas escolhidas para serem representadas pela artistas são, em sua maioria, justamente aqueles corpos que foram marginalizados na arte e seus circuitos por tanto tempo. 

Maxwell Alexandre. “Pardo é Papel”, 2019-2020, Museu de Arte do Rio, Reprodução: Prêmio PIPA. 

Obras como as de Maxwell Alexandre presentes em sua exposição “Pardo é Papel” trazem uma perspectiva mais ampla de retrato, que engloba uma visão coletiva e não apenas individual como é de costume. Nessa produção existe uma possibilidade mais ampla de identificações através de figuras marcadas por uma gestualidade e visuais próprios do local de origem do artista: a favela carioca. Indo contra as correntes usuais de representação da vida periférica que focam apenas na violência, extremamente estigmatizadas, o artista representa também os momentos de lazer e bem-estar social do seu cotidiano.

O artista não deixa de retratar questões como a violência policial que aflige a população negra periférica, mas traz mais complexidade ao imaginário sobre esse recorte social que já está presente em toda população brasileira através de mídias como o cinema, a televisão e a música. 

Tais mídias, que atingem públicos muito maiores que as artes plásticas, também passam por movimentos de criação de novos imaginários para corpos dissidentes. Novelas passaram a ser protagonizadas por atrizes e atores negros que finalmente centralizam histórias e não apenas são coadjuvantes, reality shows são estrelados por pessoas negras e transgênero e, ainda que a passos lentos, esses corpos passam a ocupar tais espaços. Já na música e na produção audiovisual, rappers e ícones da indústria, como Beyoncé, produzem letras, clipes e álbuns visuais nos quais pessoas negras retomam seu poder através de todos os elementos já mencionados neste texto. 

O retorno que esses artistas têm recebido é uma inserção e valorização nos diferentes mercados culturais como o das artes, da moda, da música e do entretenimento. É o que mostrou um relatório da ArtPrice no ano passado, destacando o fenômeno chamado de “Black Renaissance”, pelo qual se observa um aumento das vendas de obras de artistas negros das Américas, África e Europa para colecionadores de diversos lugares do mundo. Além do aumento de vendas, ocorre também um aumento expressivo nos valores das obras destes artistas. 

Se, na virada da Idade Média para a era Moderna ocorreu um Renascimento, no qual uma ideia específica de humanidade se tornou central na arte através de moldes brancos e europeus, hoje, um Renascimento Negro opera na criação de novos paradigmas que impactam não apenas a vida e obra de artistas negras e negros, mas mexem na estrutura de todo um sistema da arte. 

Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.


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