O mercado de arte se recupera com recorde de venda global, segundo relatório da ArtPrice

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O relatório da ArtPrice, um portal francês de informações sobre mercado de arte contemporânea, foi lançado neste mês e aponta de forma detalhada os maiores destaques do último ano. Com categorias como venda, lotes, recordes e segmentos de arte, o relatório é construído com base nos leilões de Belas Artes organizados durante o período de julho de 2020 a junho de 2021.

Vários pontos foram levantados demonstrando as mudanças e tendências de comportamentos dos compradores em relação à 2020, o período de queda brusca da atuação dos leilões devido à pandemia de covid-19 mas também mencionam 2019, o período anterior à crise sanitária, no qual o mercado estava aquecido em diversas frentes e os leilões tiveram grandes números de vendas. 

O saldo de 2021 alarmou a todos por registrar números recordes de faturamento no valor total de $ 2,7 bilhões e incluir mercados asiáticos, como o de Hong Kong, na segunda posição do ranking mundial de cidades da arte contemporânea logo após Nova York que permanece em primeiro lugar. Outros fatores como os artistas de maior faturamento, o boom de NFT, a “Black Renaissance” e os artistas jovens também tomaram proporções notáveis.

OS 5 ARTISTAS DE MAIOR FATURAMENTO EM LEILÕES

Não é surpresa que Basquiat e Banksy estejam na primeira e segunda posição, respectivamente, no ranking de faturamento. Notícias foram publicadas com frequência durante 2021 anunciando o sucesso nos leilões da Christie ‘s, Sotheby’ s e Phillips, as principais casas de leilão do mundo. 

Basquiat sozinho foi responsável por 14% do faturamento global, seguido por Banksy com 7%. O artista japonês Yoshitomo Nara e o norte-americano George Condo vieram logo após na terceira e quarta posição representando 5% e 3%, respectivamente. 

Encontrar no quinto lugar um artista digital foi a novidade. Beeple (Mike Winkelmann) se tornou famoso depois da venda de seu trabalho “Everydays: The First 5.000 days por US$ 69 milhões no leilão da Christie’s no começo deste ano. Após a venda, a busca por obras digitais aumentou exponencialmente, colocando o NFT como um dos temas mais acessados e debatidos dos últimos meses.


Obra de Yoshitomo Nara no leilão da Sotheby’s Hong Kong em 2019 – Imagem: Gin Huang Gallery

O BOOM DE NFT: O DIGITAL vs O FÍSICO


Fragmento do vídeo da transmissão da cerimônia de queima da obra de Banksy pelo grupo Burnt Banksy em março de 2021 – Imagem: tecnoblog

Diversas foram as iniciativas para incluir NFT dentro dos leilões. A Christie’s registrou 22 milhões de pessoas, 60% delas com menos de 40 anos, interessadas na obra de Beeple no leilão de março. Dois movimentos foram então observados a partir disso: incentivo à produção de obras digitais com certificado de autenticidade (NFT) e obras físicas já famosas sendo transformadas em digitais. Foi o caso da obra “Morons” de Banksy que foi queimada em cerimônia com transmissão ao vivo pelo grupo Burnt Banksy. A obra já tinha o seu equivalente digital e para que esta tivesse o selo de autenticidade como obra única, a versão física precisava ser destruída, segundo o grupo. 

Obras de Andy Warhol também foram transformadas em NFT e vendidas pela Christie’s em maio deste ano, gerando US $ 3,4 milhões no total.

Damien Hirst, um artista que também não perde a oportunidade de surpreender o mercado, também elaborou um projeto que envolve NFTs. A série The Currency é composta por 10 mil desenhos com uma versão equivalente em NFT. O comprador deve escolher entre a obra digital e a física, o que implica a permanência de um e a destruição do outro.

“BLACK RENAISSANCE”

O relatório também registra uma interessante mudança na postura de compradores e casas de leilões: a ascensão na venda e visibilidade de artistas não brancos. A ascensão já vem sendo notada em outros relatórios, mas nos últimos tempos, principalmente com a manifestação do Black Lives Matter, a questão se tornou mais urgente. Museus e instituições culturais têm feito uma revisão histórica em seus acervos e organizado exposições e projetos que aumentem o escopo de obras e a representação dessas narrativas. Com isso, se viu natural que o reconhecimento se desdobrasse no aumento da demanda e dos preços das obras.

O termo “black renaissance” (renascença negra, em tradução livre) foi usado pela pesquisadora Tina Campt ao se referir ao trabalho de Kerry James Marshall. O termo se refere a um movimento social, político e artístico que está moldando as novas atitudes do mercado. O artista afro-americano teve em 2016 o primeiro resultado de 7 dígitos em leilão para uma obra de um artista afro-americano.

ARTISTAS JOVENS

Os artistas na casa dos 30 anos também tiveram seu destaque e refletem uma tendência do nosso tempo de valorizar artistas jovens. No ranking dos 3 mais vendidos estão Mr. Doodle, Jadé Fadojutimi e Fewocious.

Mr Doodle está em ascensão no Japão, Hong Kong e Taiwan ao dialogar com a arte urbana, ou street art. Seus desenhos em grande escala já atingiram grande número de vendas em leilões e já estamparam tênis exclusivos da marca alemã PUMA.

Jadé Fadojutimi é a única mulher nesta seleção e aos 27 anos foi a artista mais jovem a entrar na coleção da Tate. Nenhuma de suas obras, todas construídas no campo da arte abstrata, deixou de ser vendida nos leilões registrados no relatório. 

Por último, Victor Langlois, o FEWOCIOUS é artista plástico e digital que criou seus primeiros NFTs aos 17 anos e foi o mais jovem a ser vendido pela Christie’s. O artista defende a bandeira LGBTQIA+ e questiona identidades de gênero através de seus discursos e obras surrealistas, ampliando a discussão das representatividades no mercado de arte.


FEWOCIOUS em seu ateliê. Imagem: Esquire

As informações trazidas pelo relatório demonstram que a arte contemporânea continua a ser o segmento de mais destaque, com 50% de crescimento em relação ao relatório anterior, em detrimento dos segmentos Moderno (em queda de 8%) e Pós-Guerra (em queda de 4%). Em suma, o estado do mercado de arte enquanto um dos setores que sofreu oscilação durante a crise sanitária é diagnosticado pelo relatório com fortes sinais de recuperação.


Victoria Louise é crítica e produtora cultural, formada em Crítica e Curadoria e Gestão Cultural pela PUC-SP


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