5 obras para entender o Cubismo

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Se hoje a arte abstrata já faz parte de nossa linguagem visual e liberdade e subversão podem ser considerados sinônimos da arte contemporânea, isso só foi possível graças às vanguardas do início do século XX. Dentre os movimentos de vanguarda, um deles é considerado a principal influência que transformou para sempre o mundo da arte: trata-se do cubismo.

O movimento cubista surgiu na França na primeira década do século XX, tendo sua criação atribuída a Pablo Picasso (Málaga, Espanha, 1881 – 1973) e Georges Braque (Argenteuil, França, 1882 – 1963). O movimento cubista rompeu com as técnicas tradicionais academicistas e seus esquemas de representação pautados por regras rígidas de composição e perspectiva e ideais de belo clássico. O cubismo empregava a noção de geometrização dos planos e temas, representando um mesmo objeto como se fosse visto a partir de diversas perspectivas simultaneamente.

Acredita-se que o nome foi dado ao movimento após um artigo publicado por Louis Vauxcelles no jornal Gil Blas, em que citava a reação do pintor Matisse ao ver as pinturas de Braque no Salão de Outono de 1908, dizendo: “Ele despreza as formas, reduz tudo, sítios, figuras e casas a esquemas geométricos, a cubos”. É difícil precisar a data exata em que movimentos artísticos nascem, uma vez que se tratam de processos complexos em que influências culturais, sociais e mesmo políticas convergem até tomarem forma, normalmente sendo definidos e até nomeados em retrospecto.

No caso do cubismo, existe um consenso entre críticos e historiadores da arte acerca de dois principais fatores determinantes em seu surgimento. O primeiro foi a influência de Paul Cézanne e suas ideias acerca da arte em Georges Braque. Cézanne defendia que a pintura deveria tratar as formas da natureza como se fossem cones, esferas e cilindros. A pintura, para Cézanne, não podia desvincular-se da natureza, tampouco copiá-la; ela transformava a natureza.

O segundo fator determinante foi o impacto que o contato com a arte ancestral, como as esculturas ibéricas encontradas no sul da Espanha e as máscaras ritualísticas africanas teve em Picasso. Estas influências forneceram aos jovens artistas as ferramentas necessárias para inventarem uma nova linguagem que estivesse em sintonia com as novas visões de um mundo em transformação por invenções tecnológicas como a lâmpada elétrica e o avião; e novos paradigmas científicos, como as teorias de Einstein e Freud. Para entendermos melhor o cubismo, veremos a seguir cinco das obras mais emblemáticas do movimento:

Les demoiselles d’Avignon

A pintura Les demoiselles d’Avignon (As senhoritas de Avignon), é um óleo sobre tela produzido em 1907 por Pablo Picasso, considerada a obra inaugural do movimento cubista. Foi um marco na obra do artista e representou o rompimento com a estética clássica, abrindo caminho para a revolução da arte no início do século XX. Nesta obra, fica nítida a influência da arte ancestral na produção de Picasso. É possível notar nas figuras na lateral da tela máscaras ritualísticas africanas, além de traços nos rostos das figuras centrais que remetem à estrutura das cabeças das esculturas ibéricas com as quais Picasso teve contato no Museu do Louvre no ano anterior.

Pablo Picasso. Les demoiselles d’Avignon, 1907. Imagem: MoMa

Maisons à l’Estaque

A pintura Maisons à l’Estaque (Casas de L’Estaque) produzida por Georges Braque em 1908 faz parte do conjunto de óleos sobre tela que o artista enviou para o Salão de Outono e que inspirou o nome do movimento. A obra é um excelente exemplo da primeira fase cubista, chamada de Cubismo Analítico, na qual as noções de fragmentação e geometrização são levadas ao extremo, até quase perder-se a referência do objeto que está sendo abordado na tela. Além disso, nota-se o uso de poucas cores, em tons sóbrios e terrosos, que vieram a se tornar uma marca do estilo de Braque. Os artistas faziam uso deste artifício cromático nas obras da fase analítica para que o foco da tela permanecesse na forma ali representada.

Georges Braque. Maisons à l’Estaque, 1908. Imagem: GeorgesBraque.Net

Les maisons sous les arbres

O artista Fernand Léger (Argentan, França, 1881 – 1955) foi um pintor cubista que, apesar de aderir ao movimento, manteve um estilo próprio carregado de influências pessoais. Antes de ingressar na Escola de Artes Decorativas e na Academia Julien, Léger trabalhou como assistente e desenhista em escritórios de arquitetura. Léger definia sua pintura como o equivalente artístico das várias impressões sensoriais simultâneas características da era industrial. Tais noções se fazem notar em obras suas como Les maisons sous les arbres (As casas sob as árvores), pintura a óleo sobre tela produzida pelo artista em 1913.

Fernand Léger. Les maisons sous les arbres, 1913. Imagem: Artnet

Nature morte avec bouteille et cigares

Juan Gris (Madrid, Espanha, 1887 – 1927) foi outro importante expoente do movimento cubista no início do século XX. Na obra Nature morte avec bouteille et cigares (Natureza morta com garrafa e cigarros) de 1912, temos um ótimo exemplo da segunda fase do movimento, chamada de Cubismo Sintético, onde os artistas passaram a empregar outros materiais nas composições. Na obra em questão, Gris utilizou além da tradicional tinta guache, papéis colados, giz pastel, carvão e nanquim. Além destes, outros materiais passaram a ser integrados nas obras pelos artistas cubistas, como pedaços de jornais, papéis de embalagens de cigarros e toda a sorte de materiais estrangeiros à pintura, no que veio a inaugurar a técnica da colagem.

Juan Gris. Nature morte avec bouteille et cigares, 1912. Imagem: Artnet

Nature morte à la chaise cannée

Finalmente, uma das mais influentes peças do movimento cubista, a obra Nature morte à la chaise cannée (Natureza morta com cadeira de palha), produzida por Pablo Picasso em 1912, trata-se de uma técnica mista na qual o artista empregou como base para a obra o assento de uma cadeira de palha tramada. Nesta obra, Picasso leva as colagens da fase sintética do movimento cubista aos extremos, subvertendo o que era considerado até então como um material artístico, introduzindo objetos de uso cotidiano nas composições.

Picasso. Nature morte à la chaise cannée, 1912. Imagem: Les Arts Plastiques

O que não podemos perder de vista é que, por mais que hoje o uso de tais recursos como a geometrização e fragmentação e a inclusão de objetos industrializado e cotidianos nas composições esteja banalizado, no momento em que concebiam o movimento, Picasso, Braque e seus companheiros cubistas estavam agindo de forma absolutamente radical para o seu tempo. Foi a rebeldia de suas criações que possibilitou a revolução da arte ocorrida no século XX, deflagrando movimentos como o construtivismo e o suprematismo na Rússia, o futurismo na Itália, e até mesmo o modernismo no Brasil.

É inegável a influência do cubismo na obra de artistas brasileiros como Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral. Estes e outros importantes artistas brasileiros estudaram no exterior, se interessaram pelas vanguardas europeias, retornando ao Brasil impactados por essa nova forma de se entender a arte e com a intenção de produzir também uma nova arte brasileira, dando origem ao movimento modernista no Brasil, um dos mais importantes acontecimentos da história da arte brasileira.


Luísa Prestes, formada em artes visuais pela UFRGS, é artista, pesquisadora e arte-educadora. Participou de residências, ações, performances e exposições no Brasil e no exterior.


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