Exposições que revisitam a Semana de Arte Moderna de 1922

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Cem anos após o evento considerado inaugural da arte moderna brasileira – com as contradições que essa afirmação carrega – os múltiplos circuitos da arte brasileira celebram e revisitam a Semana de Arte Moderna ocorrida em 1922 em São Paulo. O evento foi realizado por artistas e intelectuais como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Graça Aranha, Heitor Villa-Lobos, entre outros. Esse grupo buscava estratégias de ruptura com as tradições clássicas em diversas linguagens como a música, as artes plásticas e a literatura, promovendo uma série de apresentações e uma exposição no Theatro Municipal de São Paulo, que escandalizou a sociedade da época – uma conquista para o grupo. 

O tempo passou e as pautas na arte e na sociedade – inseparáveis – se atualizaram. De modo a ser compreensível que a celebração centenária da Semana de 22 não poderia ocorrer sem uma série de questionamentos e revisões críticas. Dentro de um século ocorreram avanços incontornáveis em lutas sociais como o movimento negro, indígena, os múltiplos feminismos e a luta da comunidade LGBTIA+. 

Mini doc da exposição “Moderno onde? Moderno quando? A Semana de 22 como motivação”, do Museu de Arte de São Paulo.

Os efeitos desses movimentos sobre o mundo da arte incidem na pergunta: onde estavam esses corpos na história da arte? Pergunta válida tanto para a posição de artista e agente, como a posição de quem é retratado – e como é retratado. Essa e tantas outras perguntas permeiam os projetos que hoje partem da Semana de 22 para revisitar as concepções de arte moderna no Brasil. 

Instituições como a Pinacoteca de São Paulo, o Instituto Moreira Salles e o Museu de Arte Contemporânea da USP se anteciparam para promover o debate em torno do centenário através de encontros virtuais. Ao longo de 2021 pesquisadores de todas as regiões do Brasil foram convidados para mesas de conversa que buscavam ampliar as discussões sobre o tema de forma crítica e plural. Todos os encontros do ciclo 1922: modernismos em debate estão disponíveis nos sites das instituições. 

Novos olhares sobre o modernismo

As exposições são a principal forma em que cada instituição compartilha com o público as novas conceitualizações sobre seus acervos e propostas museais. Dentro das já mencionadas revisões em torno da Semana de 22, cada instituição buscou uma forma de olhar para a questão da arte moderna partindo de identificações próprias. A seguir, estão algumas das principais exposições em cartaz em São Paulo – e algumas já passadas – que se enquadram nessa discussão. 

Do cânone à expansão

Alguns projetos centralizaram suas pesquisas nos protagonistas da semana de 22 para depois expandir as compreensões de modernidade no Brasil. A exposição Moderno onde? Moderno quando? A semana de 22 como motivação, por exemplo, inaugurada em 2021 no Museu de Arte Moderna de São Paulo fazia parte do esforço da instituição em se posicionar dentro de um cenário mais amplo de revisões históricas. Com curadoria de Aracy Amaral e Regina Teixeira Barros, a exposição contou com obras de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, exemplos canônicos da arte moderna no país, mas também trazia obras de outros artistas de fora do circuito paulista, como o pernambucano Cícero Dias. Assim, a curadoria ampliou os recortes espaciais e temporais, com obras produzidas entre 1900 e 1937 em diversas regiões do país. 

Registro da exposição Era uma vez o moderno na Fiesp. Foto: Karim Kahn. 

Com mais de 300 obras e documentos, a exposição Era uma vez o moderno, em cartaz na Fiesp, é considerada a maior já feita sobre o modernismo no Brasil. Em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), que possui o maior acervo sobre o tema no país, a exposição talvez seja a que mais se aproxima da intimidade dos modernistas ao trazer cartas, diários, fotografias, além das obras de arte. Aberta desde dezembro do ano passado, a exposição seguirá até o fim de maio deste ano, com visitação gratuita no prédio localizado na Avenida Paulista. 

Já a exposição 100 anos modernos do Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS SP), prevista para ser inaugurada na segunda metade de abril de 2022, pretende investigar o impacto dos modernistas paulistas na cultura brasileira ao longo de um século, incluindo a literatura, a música, o cinema, as artes plásticas. A curadoria é de Marcello Dantas e possuirá uma expografia ousada, na qual o visitante poderá traçar caminhos imprevisíveis em um labirinto cheio de ligações entre os protagonistas da Semana de 22 com diversos expoentes da cultura brasileira contemporânea. Em um dos caminhos, por exemplo, o visitante encontrará as diversas visões sobre Macunaíma ao longo da história, de Mário de Andrade a Carybé, assim como o Makunaimã de Jaider Esbell

Reinvenções do moderno

A ideia de identidade nacional era central nas discussões no final do século XIX, tanto na arte acadêmica – considerada até então a oficial – como nos círculos intelectuais que se afirmavam de vanguarda, incluindo aquele que organizou a famigerada semana. Sem dúvidas, a arte moderna trouxe novos olhares sobre o Brasil e os brasileiros, e a exposição Brasilidade Pós Modernismo do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) pensa justamente nas brasilidades que se constituíram enquanto representação e produção de conhecimento após o advento do modernismo. 

Partindo de produções desde a década de 1960, a exposição do CCBB apresenta obras de artistas da arte contemporânea de diferentes origens e pesquisas como Adriana Varejão, Anna Bella Geiger, Tunga, Beatriz Milhazes, Cildo Meireles, Ernesto Neto, Lenora de Barros, Luiz Hermano, Nelson Leirner e Rosana Paulino, entre tantos outros. Compõem a exposição também artistas que exploraram o universo da literatura e da poesia concreta como Arnaldo Antunes e Augusto de Campos, artistas indígenas como Daiara Tukano e Jaider Esbell, assim como os arquitetos Oscar Niemeyer e Lina Bo Bardi. 

“A brasilidade se mostra diversificada e miscigenada, regional e cosmopolita, popular e erudita, folclórica e urbana”. Trecho do catálogo de Brasilidade Pós Modernismo

A exposição já passou pelo Rio de Janeiro e São Paulo, e ao longo de 2022 será apresentada em Brasília e Belo Horizonte. 

Um dos maiores esforços atuais é compreender que o pensamento modernista, na concepção daquilo que rompe com a tradição acadêmica, não se espalhou no Brasil através da Semana de Arte Moderna. Enquanto o grupo paulistano olhava para a identidade nacional e a cultura popular através de uma perspectiva própria, em todos os cantos do Brasil produções artísticas desvinculadas da academia se desenvolviam de forma autônoma. É através do entendimento e reconhecimento do caráter de vanguarda dessas produções descentralizadas que a exposição Raio que o parta investiga as veias do modernismo em todos os cantos do Brasil. 

Vista da exposição Raio que o parta no Sesc 24 de Maio. Foto: Evelson de Freitas. 

Em cartaz no Sesc 24 de Maio, a curadoria da exposição conta com os nomes de Aldrin Figueiredo, Clarissa Diniz, Divino Sobral, Marcelo Campos, Paula Ramos, tendo Raphael Fonseca como o curador-chefe e responsável pela concepção do projeto, e assistência de Breno de Faria, Ludimilla Fonseca e Renato Menezes. O título da exposição é inspirado em um estilo arquitetônico popular em Belém do Pará, no qual as fachadas das casas são feitas com azulejos quebrados que criam composições geométricas. Esse é um bom exemplo para compreendermos que uma aspiração modernista, de ruptura,  já corria pelo Brasil por outras vias além dos artistas que traziam inspirações nas vanguardas europeias. A exposição seguirá em cartaz até o início de agosto deste ano. 

A exposição MODERNOS do Museu de Arte Brasileira da FAAP se diferencia por se dividir em dois momentos: Antes de 1922 tem curadoria de Felipe Chaimovich, e Depois de 1922 tem curadoria de Laura Rodríguez. O primeiro momento mostra a contribuição do mecenas Paulo Prado no financiamento das propostas modernistas no Brasil, tendo sido ele uma figura chave para a Semana de 22 ocorrer. Depois, a exposição traz trabalhos do acervo da FAAP feitos a partir da década de 1930 e, assim como os outros projetos já mencionados ao longo do texto, reflete os impactos modernistas após a semana. 

Mundano, Desigual. Foto: divulgação.

O artivista Mundano, referência no grafite nacional e comprometido com as causas ambientais, também fez sua leitura sobre a Semana de 22 em sua exposição individual na Galeria Kogan Amaro. Com uma expografia especial, transformando a galeria em um curral, Mundano apresentou uma série de trabalhos que inclui releituras de obras dos artistas presentes na famosa semana, como Anita Malfatti, assim como outros nomes da história da arte, como Claude Monet, Van Gogh e Candido Portinari. É importante ressaltar que grande parte dos trabalhos foram produzidos com resíduos de desastres e crimes ambientais, como a lama tóxica de Brumadinho e o óleo que poluiu as praias do nordeste brasileiro. 

Aberta ao público desde 2 de abril, a exposição Modernismo desde aqui do Paço das Artes, com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, remonta a pergunta trazida no início do texto, e reflete a presença negra e dissidente na arte moderna ao longo de décadas. Artistas icônicos do século passado como Tarsila do Amaral e Lasar Segall dialogam no espaço com artistas contemporâneos em atividade, como o pintor André Ricardo de São Paulo e o escultor Maurino de Araújo de Minas Gerais. 

Vista da exposição Modernismo desde aqui no Paço das Artes. Foto: Diogo Barros. 

Todas essas exposições representam um movimento maior do mundo das artes visuais de trazer novas perspectivas sobre a formação de um imaginário coletivo em torno da nossa identidade cultural nacional. Agora, com a presença e a visibilidade destes, é possível olhar para as produções de grupos marginalizados como os negros e indígenas, que tiveram suas histórias exploradas por tantos séculos. A pluralidade de projetos e olhares atestam que não é possível discutir o modernismo no Brasil através de uma única via. É interessante que se olhe para o evento da Semana de 22 como uma força que acelerou a discussão modernista nos centros ditos oficiais da arte, e que ela possa ser sempre revisitada de maneira crítica, sem tirar o seu devido crédito na história. 

Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.


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