Documentário 22 em XXI reflete a influência da Semana de Arte Moderna na cultura brasileira ao longo de 100 anos

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A plataforma SescTV lança no final de março “22 em XXI” que investiga o modernismo brasileiro a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, evento que acaba de completar seu centenário – sendo um dos assuntos mais comentados em exposições, podcasts e filmes no meio cultural este ano. 

Concebido e dirigido por Helio Goldsztejn, 22 em XXI é fruto de 3 anos de pesquisa e produção. Goldsztejn já dirigiu documentários sobre a vida da artista plástica Tomie Ohtake, da escritora Lygia Fagundes Telles e de Inezita Barroso, cantora, atriz e apresentadora. 

“Pois cá estamos cem anos depois da Semana com um documentário que conta essa história com o olhar do nosso século. Minha vontade sempre foi a de poder mergulhar um pouco nesses dias, repletos de criação, dilemas e contradições. Arte, muita arte sim, e um projeto político por trás. Bem-vindo ao sonho, ao Cadillac verde de Oswald rumo à antropofagia, Bossa Nova, Concretismo e Tropicália!” declara Goldsztejn sobre essa realização.

Cena do depoimento de Aracy Amaral. Making of por Thais Taverna. 

O filme está em consonância com o esforço de diversos setores em ampliar as leituras sobre a Semana de 1922, para além de sua celebração. Discute-se, através de uma série de depoimentos, as origens do modernismo no Brasil, as motivações dos artistas, músicos, poetas e intelectuais na Semana e seus impactos posteriormente. Um dos questionamentos centrais no documentário é se o evento ocorrido há um século de fato promoveu transformações imediatas na cultura brasileira ou se tornou um mito depois de ser contado tantas vezes. 

Para trazer uma gama de pontos de vista, foram convidados pesquisadores especialistas, como Maria Eugênia Boaventura, professora da Unicamp que já publicou um livro intitulado 22 por 22, e Frederico Coelho, professor de Literatura Brasileira e Artes Cênicas na PUC Rio. Contribuem também as pesquisadoras e curadoras Aracy Amaral e Regina Teixeira de Barros, que estiveram à frente de Moderno onde? Moderno quando? A semana de 22 como motivação, uma exposição do MAM SP que buscou ampliar a visão do modernismo nas artes plásticas no Brasil, nos sentidos cronológico e espacial. 

Cena do depoimento de Maria Eugênia Boaventura. Making of por Thais Taverna. 

Outras contribuições para essa costura são as falas dos jornalistas Ruy Castro, Marcos Augusto Gonçalves e Pedro Duarte, da dramaturga Maria Adelaide Amaral, do antropólogo Antônio Risério e da artista Maria Bonomi. Depoimentos de familiares dos protagonistas da Semana também trazem um lado mais pessoal da história. Estes atuam como defensores de legados deixados por seus pais e tios. 

Cena do filme “22 em XXI” (reprodução). 

Intercalada às entrevistas está a encenação de Erika Puga, Maria Manoella, Marcelo Diaz e Anderson Negreiro que interpretam Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Mário de Andrade, respectivamente. As cenas buscam estabelecer uma visão de bastidores das quatro figuras centrais dessa história, dialogando sobre os preparativos da Semana, ponderando sobre os impactos na cultura e em suas relações pessoais. 

Impactos culturais

O modernismo é considerado um fator fundamental para o surgimento de movimentos em áreas além das artes plásticas e a literatura, tais como a música, o cinema, o teatro, entre outras. Músicos e compositores como José Miguel Wisnik, Caetano Veloso e Emicida, refletem as contribuições de Heitor Villa-Lobos e outros compositores modernistas, que culminaram na tropicália, por exemplo. O cinema de Glauber Rocha – expoente do Cinema Novo -, também é citado como grande influência para o diretor e ator José Celso Martinez Corrêa, líder do Teatro Oficina, reconhecida como uma das mais importantes companhias do mundo. 

Os modernismos que não cabiam na Semana de 1922

Uma das partes mais interessantes no documentário é a discussão em torno de produções artísticas de vanguarda que não fizeram parte da Semana de Arte Moderna ocorrida em São Paulo. Na época marginalizadas, tais produções floresceram em lugares fora da centralidade da elite paulistana. Esse questionamento é central em um momento como o que vivemos, no qual se indaga onde estavam os corpos não-brancos nos movimentos exaltados ao longo da história da arte. 

A arte de Heitor dos Prazeres, por exemplo, é mencionada pelo curador Hélio Menezes, a exemplo de como artistas negros não eram vistos pela perspectiva de vanguarda, mesmo décadas depois da arte moderna ter sido sistematizada no país. O compositor e pintor retratou a vida da população negra no século passado, o que se caracteriza por um universo rico de representação da cultura popular. Ainda que essa representação do popular – e de uma identidade nacional -, fosse uma busca dos modernistas, o artista não possui a mesma reverência pela história oficial da arte brasileira. 

Cena do depoimento de Jerá Guarani. Making of por Thais Taverna. 

Jerá Guarani, pedagoga e ​​liderança Guarani Mbya da Terra Indígena Tenondé Porã, do extremo sul de São Paulo, foi convidada para trazer a perspectiva indígena no documentário, enfatizando sobre o modo como os povos originários foram retratados de modo preconceituoso na arte branca, incluindo a modernista. 

Todos estes depoimentos se complementam e se confrontam na finalidade de trazer uma visão mais complexa da Semana de Arte Moderna de 1922 e dos modernismos que se relacionam ou não com ela. O filme pode ser um bom complemento para o não esgotamento do assunto, junto às exposições e livros que são lançados este ano dentro da mesma temática.  

O documentário integra a iniciativa Diversos 22 – Projetos, Memórias, Conexões do SESC, que celebra o centenário da Semana de 22 através de diversas linguagens em formato digital e presencial. 22 em XXI poderá ser assistido pela população do estado de São Paulo na plataforma Sesc Digital a partir do dia 29 de março, e no canal SescTV para o restante do Brasil. 


Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP. 

Ficha Técnica

Direção Geral: Helio Goldsztejn
Produção: SescTV
Dramaturgia: Alexandre Reinecke
Roteiro: Fabio Brandi Torres
Consultoria:  Marcos Augusto Gonçalves, autor do livro “1922 a Semana que não Terminou” 
Pesquisa: Renata Junqueira
Direção de Fotografia: Thais Taverna
Montagem: Pichi Martirani
Trilha Sonora: José Paes de Lira (Lirinha)
Duração: 1h25
Depoentes: Aracy Amaral, Caetano Veloso, Emicida, Jerá Guarani, José Miguel Wisnik, Fred Coelho, José Celso Martinez Corrêa, Maria Eugênia Boaventura, Ruy Castro, Regina Teixeira de Barros, Hélio Menezes, Maria Bonomi, Maria Adelaide Amaral, Antonio Risério, Pedro Duarte e Marcos Augusto Gonçalves.  
Elenco de dramaturgia: Anderson Negreiro, Erika Puga, Marcelo Diaz e Maria Manoella

Serviço

Estreia do documentário 22 EM XXI
Sob demanda no Sesc TV em 22/03 e disponível na plataforma do Sesc Digital em 29/3
Para sintonizar o SescTV: 
Canal 128, da Oi TV ou consulte a operadora
Também disponível online 

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