MAM São Paulo abre duas exposições para traçar um novo rumo institucional de revisões históricas nas artes visuais

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A partir deste sábado (4) o público visitante do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM SP) passa a conferir duas novas exposições com temáticas e propostas diferentes, mas que possuem em comum uma vontade de inserir o museu em um cenário mais consciente na história da arte e na apresentação de produções contemporâneas. São elas: “Moderno onde? Moderno quando? A Semana de 22 como motivação” e “Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea“. 

Homens trabalhando, 1922, Zina Aita | Foto: Jaime Acioli / divulgação

Moderno onde? Moderno quando? A Semana de 22 como motivação

Às vésperas da comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna de 22 – momento decisivo para transformações nas artes brasileiras, tanto as visuais, como a literária e musical – o Museu de Arte Moderna de São Paulo apresenta em “Moderno onde? Moderno quando?” um panorama expandido da produção visual que conhecemos como arte moderna. A curadoria é de Aracy A. Amaral e Regina Teixeira de Barros. 

Ampliando o recorte temporal e geográfico da arte moderna produzida no Brasil, a exposição tem como objetivo rever as produções de vanguarda que antecederam a semana de 22, para além dos artistas já consagrados do sudeste. Assim ocorre também com a apresentação de obras que atestam o legado modernista após a década de 1920 no país. O marco temporal vai de 1900 a 1937, este último demarcando o momento da implementação do Estado Novo por Getúlio Vargas. 

A respeito dos artistas presentes na exposição, assim como o legado da Semana de 22, as curadoras afirmam:

Eram artistas, intelectuais, literatos, todos com vontade de renovação e alteração de rumos. Os paulistas viajavam pelo Brasil e entravam em contato com grupos de diferentes regiões, como Sul, Norte e Nordeste, trocando conhecimento. A Semana faz parte de um processo muito maior do que o evento em São Paulo”.

Carnaval em Madureira, 1924, Tarsila do Amaral | Foto: Isabella Matheus / divulgação

Visitar esta exposição é uma oportunidade única de presenciar obras emblemáticas de artistas como Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, ao mesmo tempo em que se descobre um novo olhar para a arte moderna, termo que já englobou tantas coisas e agora ganha novos significados. 

Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea

Estão cada vez mais recorrentes em instituições brasileiras as discussões em torno dos estudos decoloniais e suas reverberações na sociedade. O assunto é profundo e amplo, mas uma de suas consequências envolve a revisão das narrativas históricas, e a história da arte não fica de fora. 

Na prática, instituições culturais – especialmente os museus – fazem um trabalho de revisão dos seus acervos e repensam suas programações futuras. Artistas até então invisibilizados na história ganham novos espaços e reconhecimento, como agora ocorre com as mulheres, pessoas negras e indígenas, por exemplo. 

Tartaruga, série Yãmiy/homem-espírito, 2009, Sueli Maxakali / divulgação

“Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea” tem curadoria de Jaider Esbell – artista macuxi e um dos mais importantes artistas indígenas no cenário da arte contemporânea nacional – além de assistência curatorial da antropóloga e programadora cultural Paula Berbert e consultoria do professor do departamento de antropologia da FFLCH/USP Pedro Cesarino. 

Trata-se de uma correalização entre o MAM SP e a Bienal de São Paulo, sendo a esta uma das parcerias promovidas pela 34a edição da Bienal, que também abre ao público neste sábado. Um dos pontos mais importantes da exposição é a inserção da arte indígena na história da arte de forma autônoma, e não submissa aos ideais já estabelecidos. 

Queremos reproduzir um estilhaçamento da história da arte e mostrar como esse tipo de relação temporal é cronicamente negado no Brasil, intelectuais indígenas foram rechaçados, seja na arte ou pensamento no Brasil“, afirma Jaider Esbell. 

A exposição é composta por obras de 34 artistas dos povos Baniwa, Guarani Mbya, Huni Kuin, Krenak, Karipuna, Lakota, Makuxi, Marubo, Pataxó, Patamona, Taurepang, Tapirapé, Tikmũ’ũn_Maxakali, Tukano, Wapichana, Xakriabá, Xirixana e Yanomami.

Sem título, da série Anna Senkamanto, anna komanto – nosso trabalho, nossa vida, 2020, Elisclésio Makuxi / divulgação

Para Cauê Alves, curador-chefe do MAM,

a presença dessa exposição na programação do Museu de Arte Moderna de São Paulo indica uma postura institucional que desconstrói pressupostos coloniais. Moquém_Surarî inaugura um diálogo direto com artistas indígenas que permitirá que o MAM repense e amplie sua política de aquisição de acervo, incluindo grupos étnicos sub-representados ou negligenciados ao longo da história.”

Essas duas exposições são um convite ao público a ampliar e rever suas percepções sobre as artes que ocupam os espaços institucionais. Ainda que tenha demorado a chegar, este momento é crucial para que a arte brasileira ganhe um novo fôlego para seus artistas, agentes e público. 

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Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.

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SERVIÇO

Moderno onde? Moderno quando? A Semana de 22 como motivação 
Curadoria: Aracy A. Amaral e Regina Teixeira de Barros 
Período expositivo: 4 de setembro a 12 de dezembro 
Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea 
Curadoria: Jaider Esbell 
Assistência de curadoria: Paula Berbert 
Consultoria: Pedro Cesarino 
Período expositivo: 4 de setembro a 28 de novembro
Local: Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM SP)
Endereço: Parque Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portões 1 e 3) 

Horários: terça a domingo, das 10h às 18h (com a última entrada às 17h30) 

Telefone: (11) 5085-1300 

Entrada gratuita, com contribuição sugerida. 

Agendamento prévio necessário. 
Ingressos disponibilizados online

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