MINISSÉRIE CONTA SOBRE O MAIOR ROUBO DE ARTE DA HISTÓRIA

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Dezoito de março de 1990. 1h24 da manhã. Dois homens com uniformes da polícia entram no Isabella Stewart Gardner Museum em Boston e anunciam: “Isso é um roubo”.

Assim, 13 obras de arte e artefatos históricos do acervo foram roubados em 81 minutos. O crime só foi descoberto na manhã seguinte quando funcionários chegaram para a troca de turno. Esse é o caso contado no documentário de 4 episódios This Is a Robbery: The World’s Greatest Art Heist (O Maior Roubo de Arte de Todos os Tempos, em tradução ao português) lançado em 2021 na plataforma de streaming Netflix. É um relato detalhado do roubo que tirou o fôlego da imprensa na década de 90 e perturba as autoridades há mais de 30 anos, ainda sem solução.

O documentário tem um típico tom de filmes investigativos, nos quais o suspense impera na trilha sonora, na tonalidade da fotografia e na combinação estratégica entre simulação e vídeos documentais.

Trailer oficial de This Is a Robbery: The World’s Greatest Art Heist, documentário da Netflix. Reprodução: Youtube

As pinturas foram cortadas e retiradas da moldura. O material, porém, não pode ser enrolado com facilidade, as telas são feitas de material resistente a ponto de ser mais trabalhoso cortá-las do que retirá-las pela parte traseira. O ato de enrolar uma tela com séculos de idade danifica as camadas de tinta, uma vez que com o movimento, o craquelamento da superfície é inevitável. Entre as obras roubadas estavam pinturas valiosas, como Cristo na Tempestade no Mar da Galileia (1633) e Dama e Cavalheiro de Preto, ambas de Rembrandt, e O Concerto (1663-1666), de Vermeer.

The Storm on the Sea of Galilee - Wikipedia
Cristo na Tempestade no Mar da Galileia (1633) do pintor holandês Rembrandt, era uma das obras envolvidas no maior roubo de arte da história. Reprodução: Google Arts & Culture

O museu foi encontrado com as molduras vazias no chão, portas arrombadas, o vigia amarrado no porão e as câmeras de segurança alteradas. Uma das pinturas da Dutch Room, um autorretrato do pintor holandês Rembrandt feito em 1629 foi encontrada no chão. Os responsáveis pelo roubo retiraram da parede mas não levaram. Especula-se que não conseguiram remover a pintura a tempo.

Várias outras especulações foram levantadas. A unanimidade está em se tratar de um crime planejado. Tudo foi meticulosamente pensado pelos criminosos: o disfarce, o tratamento das câmeras que foram levadas junto com as obras e a interrupção dos alarmes de segurança.

A minissérie analisa todos os sintomas que fizeram com que o crime acontecesse, como a formação das máfias de origem italiana e irlandesa na cidade, a tensão entre FBI e o crime organizado, a violência, a ascensão das drogas e a forma como as obras de arte representavam grandes fortunas.

O ACERVO DO ISABELLA STEWART GARDNER MUSEUM

O acervo do museu é constituído pela valiosa coleção de Isabella Stewart Gardner. Muito interessada pela vida intelectual de Boston e Cambridge, Isabella Gardner se aproximou de intelectuais como Charles Eliot Norton que a incentivou a colecionar livros e manuscritos raros, começando com as primeiras edições das obras de Dante Alighieri. Com o passar dos anos, ampliou sua coleção para pinturas e artefatos históricos e adquiriu exemplares notáveis como o autorretrato de Rembrandt e telas de Vermeer e Ticiano.

Esquerda: Fotografia de Isabella Stewart Gardner em 1888 / Direita: Anders Zorn – Isabella Stewart Gardner em Veneza, 1894. Óleo sobre tela. Reprodução: Widewalls Magazine

Em 1899, Gardner começou a construir um museu com seu nome para abrigar suas obras e 4 anos depois inaugurou a instituição com uma programação diversa que incluía exposições de pinturas, esculturas, tapeçarias, móveis, manuscritos, livros raros e artes performáticas como concertos e peças de teatro.

Essa iniciativa a fez ser uma das melhores coleções de arte privada do continente e chamou a atenção de grupos de crime organizado que nas décadas seguintes se consolidaram em Boston. 

Courtyard
Vista interna do Isabella Stewart Gardner Museum. Foto de Siena Scarff

POR QUE ROUBAR UMA OBRA DE ARTE?

Uma pergunta inevitável é: por que roubar uma obra de arte? Geralmente as peças roubadas são conhecidas mundialmente, catalogadas por instituições e noticiadas em veículos de imprensa. Uma vez roubadas, é provável que o público fique atento à aparição dessas obras em qualquer lugar do mundo, diminuindo a possibilidade de lucro com a venda das peças. Nesse sentido, a vantagem de roubar uma obra de arte parece ser nula.

Uma outra perspectiva explorada no documentário é a relação entre a valorização das obras de arte na década de 80 e seu consequente aumento de preço e a ampliação do mercado ilegal de drogas, como a cocaína.

A responsabilidade por esse mercado ilegal era atribuída à máfia e as obras de arte, nesse caso, serviam como moeda de troca, seja para receber a recompensa, o seguro, ou ainda, para fazer acordos com o FBI e conseguir retirar alguém da cadeia em troca da devolução da obra de arte. Outro motivo já visto em outros casos anteriores de roubo de arte era a troca de obras por armamento.

Muitos nomes foram levantados durante as investigações mas nenhuma acusação chegou a ser efetivamente levada a cabo por ausência de provas e, quando se chegava perto de alguma resolução, o investigado já havia morrido de causas naturais ou sido assassinado.

Para contar essa história, o documentário apresenta imagens reais das dependências do museu e dos profissionais que investigavam o caso com cenas simuladas a partir dos depoimentos dos envolvidos, desde testemunhas oculares até os membros da gestão como a diretora Anne Hawley que estava, na época, apenas há 6 meses ocupando o cargo.

A recompensa para a devolução das obras passou de 1 milhão de euros nos primeiros anos das investigações, foi atualizada para 5 milhões em 1997 e hoje se apresenta em 10 milhões para qualquer informação que leve ao resgate dessas peças.

Coletiva de imprensa realizada durante primeira etapa de investigações do roubo de arte em 1990. Imagem: Netflix

O que resta ao museu é a esperança de que, mais de 30 anos depois e com a recompensa de 10 milhões de dólares, algum amigo ou familiar encontre essas peças como “herança” e decida devolvê-las.

As molduras deixadas no museu no dia 18 de março de 1990 foram colocadas novamente na parede em seu local original e permanecem vazias. Segundo Anne Hawley, é como se estivessem esperando que as obras de arte voltassem.

Victoria Louise é crítica e produtora cultural, formada em Crítica e Curadoria e Gestão Cultural pela PUC-SP.

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