Arte rupestre: os primórdios da arte

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A arte é um testemunho da vida do povo que a produziu. Se as disciplinas científicas dão conta de narrar a história a partir de uma perspectiva factual baseada em dados acumulados, a arte expressa aquilo que transborda a razão. Através da arte, vislumbramos um pouco do que pautava a sensibilidade compartilhada por determinada cultura em determinado tempo: quais eram os ideais de beleza e de aspiração, quais eram os anseios e os medos, quais eram os sonhos. As produções estéticas humanas mais antigas de que temos registro foram concebidas por nossos antepassados remotos e são chamadas de arte rupestre. O termo vem do latim ars rupes  e se traduz como “arte sobre rocha”. Esses registros são encontrados em cavernas, grutas ou ao ar livre. A arte rupestre, porém, se refere à técnicas, estilos, períodos e localizações tão variadas que é quase impossível defini-la em um conceito fechado. 

Grafismos abstratos. Sítio: Serra das Paridas, Bahia. Imagem: Luísa Prestes

Em termos de dispersão geográfica, os registros rupestres podem ser encontrados em todos os continentes, com exceção da Antártida, sendo as cavernas de Lascaux e Chauvet, na França, e Altamira, na Espanha, algumas das mais importantes já encontradas na Europa. Já o Parque Drakensberg, na África do Sul, é um dos mais relevantes sítios do continente africano. No Brasil, alguns dos principais sítios rupestres se encontram em São Raimundo Nonato, na Serra da Capivara, Piauí e na Serra das Paridas, na Bahia. Porém, existem registros em todos os estados da federação, como as Itacoatiaras do Rio Ingá, na Paraíba e da Ilha do Campeche em Santa Catarina. 

Gravura Rupestre. Sítio: Itacoatiaras do Rio Ingá, Paraíba. Imagem: Ensinar História

Alguns dos registros mais antigos de que se tem conhecimento datam de cerca de 40 mil anos atrás, no período que os arqueólogos denominam como Paleolítico superior. Este abismo cronológico que nos separa de tal concepção pictográfica, afasta ainda mais as possibilidades de definição ou compreensão do que essas figuras e grafismos misteriosos significaram para os povos que os produziram. 

Ainda assim, tentamos nos aproximar de nossos antepassados através dos estudos de disciplinas como a arqueologia, a antropologia, as ciências exatas com seus métodos de datação. Exploramos, mapeamos, escavamos sítios onde a arte rupestre é encontrada, indicando a presença humana. Com tais registros visuais e materiais se constroem narrativas sobre essas culturas do passado, assegurando que essas composições pré-históricas eram portadoras de significados complexos para as sociedades que as conceberam. Tais análises possibilitam a identificação de similaridades e diferenças nas técnicas e temáticas, agrupando conjuntos de imagens semelhantes e denominando-os “tradição”.

No Brasil temos a tradição Nordeste, a tradição Agreste e a tradição São Francisco de pinturas rupestres, somam-se as tradições de gravuras na rocha, conhecidas como Itacoatiaras. Além das tradições “Geométrica”, “Astronômica”, “Simbolista”, entre outras. Não obstante, na arte rupestre como em outros períodos da História da Arte, além das tradições e estilos gerais, estuda-se cada artista e cada obra em separado. Em diferentes painéis, cavernas e paredões se identificam estilos diversos podendo indicar, para além da transformação cronológica e cultural, a expressão subjetiva e única da mão que produziu aquele traço.

Convenciona-se dividir essa rica produção em duas categorias: o gravado, que se refere a técnicas diversas de remoção de matéria ou incisões na superfície rochosa; e o pintado, onde se notam técnicas de adição de pigmentos através do uso dos dedos e outros utensílios desenvolvidos ou adaptados para esse fim. Esses pigmentos eram produzidos através da trituração de minerais ricos em óxido de ferro e outros materiais orgânicos como carvão e ossos carbonizados e sua subsequente diluição em substâncias líquidas como água, clara de ovo e sangue. Em alguns sítios arqueológicos, inclusive, foram encontrados próximos às pinturas, os locais onde estes materiais eram moídos. 

Naquilo que se refere ao repertório de imagens retratadas em diferentes tradições, algumas são recorrentes e consideradas universais. Elementos circulares, por exemplo, sejam eles dotados ou não de outros traços na composição, geralmente são associados a formas de controle do tempo, como calendários solares ou lunares. Representações mais elaboradas e naturalistas de animais, como as encontradas na caverna de Lascaux (cerca de 35 mil anos de idade), ao contrário do que se pode imaginar, são mais antigas do que as representações simplificadas encontradas em sítios como os da Serra das Paridas (cerca de 8 mil anos de idade). Estas, normalmente se encontram associadas a grafismos geometrizados e abstratos de difícil interpretação, sendo ainda hoje os registros mais enigmáticos.

Sobreposição de figurações de animais e grafismos abstratos. Sítio: Serra das Paridas, Bahia. Imagem: Luísa Prestes

As figurações de animais também estão muito presentes em composições interagindo com figuras humanas, que por sua vez, podem ser vistas em cenas cotidianas domésticas e de trabalho, dança, diversão e sexo; em caçadas ou em cenas fantásticas e associadas a rituais xamânicos. Estas últimas são as mais fáceis de se interpretar e dão as melhores pistas acerca desses modos de vida perdidos no tempo. O fato é que não é possível ter certezas absolutas em nenhum dos casos e isso abre portas para interpretações menos embasadas histórica e cientificamente, como é o caso da figura encontrada na Serra das Paridas (Bahia), a qual os locais dizem se tratar de um extraterrestre.

Figuração humanizada. Sítio: Serra das Paridas, Bahia. Imagem: Luísa Prestes

Ao longo da história, muitas teorias tentaram explicar o que essas produções significaram para os povos que as conceberam. Dentre elas, a que gozou de maior prestígio durante muito tempo foi a teoria dos rituais de caça, na qual defendia-se que as pinturas possuíam um caráter mágico na preparação do sujeito pré-histórico para as caçadas. Ao representar o animal nas paredes, uma ligação mágica se faria, tornando-o uma presa mais fácil. Por essa perspectiva, as pinturas e gravuras apresentariam, de forma materializada, as relações entre o homem e o sobrenatural contido na natureza. 

Pintura Rupestre. Sítio: Caverna de Lascaux, França. Imagem: The Guardian

Atualmente, uma teoria que tem ganhado bastante espaço entre arqueólogos e outros estudiosos do tema é a da relação das pinturas com rituais xamânicos. A ideia está fundamentada na observação antropológica de grupos que ainda hoje praticam estes rituais, além do conhecimento que se tem hoje acerca do sistema nervoso humano. Essa teoria justificaria alguns dos grafismos não figurativos mais indecifráveis, pois o próprio cérebro humano é capaz de gerar tais padrões geométricos e linhas abstratas quando em estados de consciência alterados provocados por substâncias alucinógenas ou outras práticas xamânicas. 

Seja como for, essas pinturas e gravuras permanecem misteriosas e fascinantes, pois não nos permitem certezas, apenas nos seduzem com o vislumbre do que foi vivido na aurora da consciência humana.


Luísa Prestes, formada em artes visuais pela UFRGS, é artista, pesquisadora e arte-educadora. Participou de residências, ações, performances e exposições no Brasil e no exterior.

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