Perfil Artsoul: Bruna Bailune

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Galerista nos conta sobre atuação no mercado de arte virtual e físico, do desenvolvimento de plataformas digitais à transformação de sua casa em galeria.

Bruna Bailune é galerista de arte contemporânea, idealizadora e co-fundadora de três plataformas de arte online: Aura (2015), Prisma (2014) e Cooosmo (2012). Antes de iniciar no mercado da arte, trabalhou na gestão e produção de projetos culturais na Fundação Bienal do Mercosul, RS (2013/2014) e na Fundação Roberto Marinho, RJ (2011/2012).

É formada em arquitetura e urbanismo pela UniRitter (2009) e pós-graduada em “O Espaço Expositivo na Arte Contemporânea” da Universidade Politécnica da Catalunha, realizado no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (2010). Entre 2004 e 2009, trabalhou em escritórios de arquitetura e agências de branding e design, desenvolvendo projetos para redes de varejo e de sinalização. 

Bruna Bailune em sua casa-galeri.
Bruna Bailune na Galeria Aura

Artsoul: Como se deu sua relação com as artes visuais ao longo da sua vida?

Bruna Bailune: Durante a infância tive pouco contato com as artes visuais, o colégio que estudei a vida inteira em Petrópolis/RJ oferecia muito pouca educação nessa área, mas lembro de visitar duas grandes exposições no Museu de Belas Artes no Rio com meus pais, que me marcaram muito: Rodin, em 1995, e Monet, em 1997.

Quando prestei vestibular, escolhi o curso de arquitetura porque gostava muito de ver revistas de decoração, visitar a Casa Cor e etc, e na faculdade comecei a ter contato com áreas como história da arte e educação visual. A partir daí comecei a me interessar mais pelas artes visuais.

Artsoul: Sua formação acadêmica é em arquitetura e urbanismo, área que exerceu antes de trabalhar diretamente com artes visuais. Como foi esse processo de transição entre áreas? 

Bruna Bailune: Durante a graduação trabalhei em escritórios de arquitetura e em agências de branding e design, mas não me identificava com o dia-a-dia profissional de nenhuma das duas áreas. Troquei bastante de emprego nessa época tentando encontrar algo que fizesse algum sentido pra mim. Em uma dessas agências que trabalhei tive um pouco mais de contato com projetos de exposições de arte e ali encontrei algo que me despertava real interesse. Então, quando finalizei a faculdade em 2009, resolvi usar um dinheiro que tinha guardado, oriundo da herança do meu falecido pai, para cursar uma pós-graduação em Barcelona chamada “O espaço expositivo na arte contemporânea”, curso da Universidade Politécnica da Catalunha, realizado no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona.

Neste período em que morei em Barcelona passei a frequentar assiduamente exposições de arte contemporânea e trabalhei por um tempo na recém inaugurada galeria de dois grandes amigos, Ricardo e Carla Zielinsky. Foi assim que começou a surgir meu interesse, ainda que um pouco distante da minha realidade, pelo mercado de arte.

Em 2011, de volta ao Brasil, trabalhei por um ano na Fundação Roberto Marinho na área de Patrimônio e Cultura, acompanhando o desenvolvimento dos projetos do MAR, MIS/RJ, Museu do Amanhã e do Paço do Frevo, em Recife. Em 2013 me mudei para Porto Alegre e fui trabalhar na produção da 9a Bienal do Mercosul, foi quando meu contato com os artistas contemporâneos se intensificou.

Exposição Corpo Dado, Galeria Aura. Foto: Charlene Cabral.

Artsoul: Quanto da sua formação em arquitetura influencia seu trabalho como galerista?

Bruna Bailune: Muito. Meu olhar é primordialmente voltado para o espaço. Tenho inclusive muita dificuldade em desvincular os objetos dele.

Artsoul: Antes de falarmos do seu projeto atual, a Galeria Aura, poderia nos contar sobre a Prisma e a Cooosmo? O que são essas plataformas e de que maneira elas te levaram até a Aura?

Bruna Bailune: O Cooosmo foi onde tudo começou. Na época em que trabalhava na Fundação Roberto Marinho, dividia com a Camilla Bloisa, uma grande amiga que trabalhava comigo, o mesmo fascínio pelo mercado de arte contemporânea. Começamos a pensar juntas em projetos para adentrar nessa área. O ano era 2012 e havia muito pouco sobre o mercado da arte na internet, por isso resolvemos criar um site que à princípio seria um hub de conteúdo com um e-commerce que venderia obras de jovens artistas com quem tínhamos alguma relação. O nome do projeto surgiu numa viagem que fizemos à Inhotim e era uma homenagem à Cosmococa de Hélio Oiticica (risos).

Colocamos o site no ar nesse ano e produzimos algumas exposições, mas era tudo muito amador ainda. Em 2013, já trabalhando na Bienal do Mercosul, surgiu o interesse de levar minhas pesquisas sobre o mercado para a instituição e tentei entrar para o mestrado em História, Teoria e Crítica da Arte na UFRGS. Meu tema de pesquisa era o mercado de arte online e o Cooosmo seria meu objeto de estudo. Acabei não sendo aprovada no processo seletivo e uns meses depois, casualmente uma amiga de infância me propôs entrar como sócia-investidora do projeto para que ele pudesse decolar, mas a Camilla neste momento estava com outras prioridades pessoais e profissionais e não quis seguir adiante com a sociedade, portanto acabei criando uma nova marca e junto com os novos sócios investidores fomos aprimorando o projeto. Assim nasceu o Prisma, que tinha como objetivo realizar um mapeamento de jovens artistas no território brasileiro, a partir de pesquisas realizadas por curadores locais.

Essa sociedade acabou se desfazendo rapidamente e, como consequência, o Prisma saiu do ar. Então eu o Edoardo Biancheri, que havia entrado também como sócio do Prisma, resolvemos recomeçar tudo do zero e criamos a Aura em 2015.

Abertura da exposição Corpo Dado, Galeria Aura. Foto: Charlene Cabral.

Artsoul: A Galeria Aura foi fundada em 2015 como plataforma digital e em 2017 passou a ter um espaço físico. Pode-se dizer que você estava mais preparada para o fenômeno de virtualização do mercado de arte na pandemia? Como a Aura respondeu a esse período específico desde 2020?

Bruna Bailune: Acho que o fato da minha pesquisa inicial ter sido focada no mercado de arte online, e a Aura ter começado como uma plataforma, contribuiu sim para que nos saíssemos um pouco melhor do que muitas galerias quando a pandemia começou. Mas por outro lado, como migramos para galeria física em 2017, estávamos também um tanto defasados quando tivemos que retomar para a atuação 100% digital. Tivemos que refazer nosso site por exemplo, pois o antigo já estava desatualizado e não funcionava mais como e-commerce.

Outros fatores também facilitaram nossa vida nesse período: tínhamos entregado o imóvel da Vila Madalena no início de fevereiro pois programávamos uma mudança para os Jardins. Suspendemos o processo por causa da pandemia e, portanto, não tínhamos que lidar com as questões de um espaço físico que teria que ficar fechado. Também tínhamos declinado nossa participação na SP-Arte e não precisamos perdemos tempo com as tratativas em relação ao cancelamento da feira. Acabou sobrando energia para focar em relacionamento com as pessoas (artistas, colecionadores, parceiros e etc) num período em que todos estavam se sentindo amedrontados e sozinhos. Começamos a promover encontros via Zoom todas as sextas-feiras – os Happy Auras – e desenvolvemos os primeiros cursos online sobre mercado e história da arte. Essas iniciativas nos ajudaram a ampliar nossa base de contatos, que até então estava muito restrita a participação em feiras físicas.

Artsoul: Conte-nos um pouco sobre a experiência de transformar sua casa em sede da Galeria Aura?

Bruna Bailune: Ainda como consequência da pandemia, logo no início do isolamento ficou muito claro pra mim que o tal “novo normal” ia longe. As previsões diziam que passaríamos uns dois anos nessa e seria muito complicado ficarmos trabalhando durante esse período nas condições em que nos encontrávamos: com as obras de arte em um depósito na Lapa e sem local para mostrá-las aos colecionadores. Isso veio ao encontro do fato de eu estar extremamente insatisfeita com o apartamento escuro e mau ventilado em que morava na Vila Madalena. Então resolvi dois problemas com uma solução só, me mudei em junho pra um apartamento grande e trouxe todo o acervo da galeria comigo.

Tem sido uma experiência ótima, é outra coisa receber os colecionadores em casa, em um ambiente mais acolhedor. Isso ajuda também no processo de compra, pois as pessoas conseguem ter uma noção melhor de escala vendo as obras em um ambiente doméstico. Este ano, começamos a montar exposições e o resultado está sendo super positivo, os projetos são um pouco mais experimentais e acabam acontecendo de forma espontânea, algo que eu sentia falta na galeria, quando o calendário às vezes fazia tudo ficar um pouco rígido.

Galeria Aura, exposição Invenção da natureza. Foto: Charlene Cabral.

Artsoul: Quando começou a pensar em oferecer cursos na galeria? Qual a importância de se ter uma programação ampla em uma galeria de arte, para além de exposições?

Bruna Bailune: Desde o início da Aura como plataforma, em 2015, promovemos cursos. Nessa época, o processo de seleção dos artistas se dava através de convocatórias abertas para envio de portfólio, e como recebíamos muitos, passamos a oferecer leituras dos mesmos para ajudar os artistas na construção da trajetória e no material de apresentação dos seus trabalhos.  Nos primeiros anos da galeria na Vila Madalena também promovemos alguns cursos presenciais sob a coordenação da Paola Fabres, mas lá enfrentávamos a dificuldade do deslocamento.

No início da pandemia resolvemos retomar os cursos de história da arte com a Paola e as primeiras edições foram um sucesso, o que nos motivou a procurar outros parceiros, como a Ana Letícia Fialho, o Nei Vargas e o Marcio Harum, para ministrarem cursos sobre mercado da arte, colecionismo e arte-educação. Ao longo do ano, esse calendário foi ganhando corpo e a grade aumentando.

A programação ampla numa galeria de arte é essencial para formação de público. A Aura é uma galeria jovem que sempre teve como objetivo contribuir para a ampliação do mercado de arte no Brasil, mas não podemos esperar que esse novo público surja do nada, temos que ser ativos nesse sentido.

Artsoul: Ainda em um período de restrições motivadas pela pandemia, e sem perspectiva certa de melhora, como você imagina as dinâmicas do mercado de arte neste ano?

Bruna Bailune: Apesar de ser uma pessoa bastante otimista, esse ano sinto que as coisas estão um pouco mais difíceis que ano passado. Estamos mais cansadas e ansiosas para que a vida volte pelo menos um pouquinho ao normal. Acho que as dinâmicas que se criaram ano passado vão se manter até que as galerias e as feiras possam voltar a receber o público com segurança. Sem dúvida, a presença online das galerias continuará como protagonista das ações este ano. 

Na Aura pretendemos nos manter, até o fim do ano, na mesma dinâmica em que nos encontramos: todos trabalhando remotamente e os projetos sendo desenvolvidos na casa-galeria com produção de conteúdo que possa circular online.

Estamos também aproveitando esse período para estruturar um projeto que estamos concebendo há um tempo: uma nova galeria com um programa curatorial específico, que funcionará como prima da Aura (risos). Para essa galeria nova estamos estudando novas possibilidades, como a entrada no mercado de criptoarte, que é uma das grandes novidades do momento.


Galeria Aura, exposição Invenção da natureza. Foto: Charlene Cabral.

Artsoul: Por último, poderia nos recomendar projetos que dialogam com as propostas que você trabalha? (Pode incluir plataformas, galerias, revistas, entretenimento, profissionais da arte, etc).

Bruna Bailune: Não necessariamente dialogam, mas são pessoas, projetos, plataformas e galerias que consulto com frequência e que me inspiram bastante:

Plataformas:

Artsy – ótima para ver o que rola nas galerias e feiras pelo mundo;

Artsoul – a plataforma vem inovando e prestando um ótimo serviço para todos os agentes do mercado;

Blombô – curto acompanhar os leilões;

1 curadxr, 1 hora – projeto do curador Raphael Fonseca, as entrevistas com os curadores são verdadeiras aulas de história da arte e da curadoria no Brasil;

South South – projeto focado em promover a arte contemporânea do Sul Global através da colaboração e intercâmbio entre artistas, galerias, curadores e colecionadores.

Galerias:

– da querida amiga e mentora Maria Montero;

Jaqueline Martins – o programa de galeria que mais curto acompanhar aqui no Brasil;

Diáspora – galeria super jovem comandada pelo Alex Tso, esse projeto ganhou meu coração.

Profissionais:

Ana Letícia Fialho – estou sempre atenta às pesquisas que publica em relação ao mercado de arte;

Alain Servais (colecionador), sigo no twitter e me intero sobre o sistema da arte muito pelas postagens dele;

Nei Vargas (pesquisador): amigo muito próximo com quem troco as melhores ideias sobre projetos para o sistema da arte;

Thomaz Pacheco (galerista, OMA) – super inovador e parceiro da p.art.ilha (grupo de galerias que se formou no whatsapp no início da pandemia, do qual faço parte), sempre cheio de energia para trabalhar em prol do grupo e da expansão do mercado.

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Entrevista concedida por Bruna Bailune em Abril de 2021. Todas as imagens foram cedidas pela entrevistada.

Por Diogo Barros

Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.

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