Fotografia abstrata

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Jaques Faing. GiraCorpoGira, 2015. Art Hall.

A abstração na fotografia possui diversas manifestações e processos particulares, assim como ocorre em outras linguagens artísticas, como a pintura, por exemplo.

Refletir sobre a fotografia abstrata implica identificar variados tipos de construção de imagens não figurativas.

A fotografia foi por muito tempo reconhecida como uma técnica estritamente documental, não artística. Para ampliar as possibilidades da técnica, experimentações começaram a ser realizadas no início do século XX, acompanhando o auge das transformações modernistas. Inspirados por movimentos de vanguarda, como o cubismo, fotógrafos passaram a explorar as formas em trabalhos com estudos de luz. Em muitos casos os elementos comuns do cotidiano eram o ponto de partida, como vemos no trabalho de Paul Strand, importante fotógrafo estadunidense do século passado.

Paul Strand. Porch Shadows, 1916. Fonte: The Art Story.

No Brasil, as experimentações com fotografia abstrata começaram a ganhar força nos foto clubes, em especial o Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), importante organização na história da fotografia moderna brasileira. O clube iniciou suas atividades no final da década de 1930, sendo um espaço de trocas e debates acerca da fotografia artística, se mostrando um ambiente perfeito para o desenvolvimento de diversas correntes, incluindo a abstrata.

A fotografia arquitetônica foi uma vertente intensamente trabalhada por integrantes do clube, como José Yalenti, Gaspar Gasparian e Thomas Farkas. Nesse estilo, edificações e elementos comuns da paisagem urbana se transformam em composições geométricas abstratas, a partir dos contrastes de luz e sombra. 

José Oiticica Filho desenvolveu uma pesquisa no abstracionismo partindo de elementos da natureza, como insetos, por exemplo. Utilizando a técnica de microfotografia, o artista ampliava elementos orgânicos e apresentava uma abstração mais fluída.

José Oiticica Filho. Ouropretense, 1955. Reprodução fotográfica Iara Venanzi/Itaú Cultural.
José Oiticica Filho. Ouropretense, 1955. Reprodução fotográfica Iara Venanzi/Itaú Cultural.

A fotografia abstrata contemporânea se aventura cada vez mais na manipulação do processo de captura de uma imagem, assim como sua edição. Há trabalhos que valorizam o movimento, os rastros, desconfigurando um referencial figurativo no momento do clique. Trabalhos como Inquietudine III de Juliana Sícole nos mostram como a fotografia pode materializar diversos tempos, movimentos e espaços em uma mesma imagem.

Juliana Sícoli. Inquietudine III, s.d. AM Galeria de Arte.
Juliana Sícoli. Inquietudine III, s.d. AM Galeria de Arte.

Uma das possibilidades de abstração na fotografia é a composição visual formada pela ampliação de um objeto. Dessa forma, o figurativo se torna a base para uma nova representação. No trabalho Faca, de Pedro Victor Brandão, por exemplo, encontramos a ampliação da lâmina de uma faca, de modo que o objeto ganha outra leitura quando o enxergamos em uma escala quase impossível ao olho nu. 

Pedro Victor Brandão. Faca, 2020. Portas Vilaseca Galeria.
Pedro Victor Brandão. Faca, 2020. Portas Vilaseca Galeria.

As cores também são elementos de grande relevância para esse estilo de fotografia. Alguns artistas aproximam a linguagem fotográfica à pintura, estruturando composições ricas em cores e formas geométricas, como vemos em Trono, de João Castilho. 

João Castilho. Trono, 2020. Zipper Galeria.
João Castilho. Trono, 2020. Zipper Galeria.

Entendendo que a luz está em constante movimento, a fotografia abstrata ultrapassa os limites de uma técnica vista muitas vezes como permanente, rígida. Essas imagens ampliam nossas perspectivas sobre um mundo inconstante, que pode ser visto em escalas micro e macro, adquirindo novos contornos. 

Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.

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A fotografia encenada na arte contemporânea

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