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A Bienal de Arte de Veneza 2026 aposta em uma curadoria que convida à desaceleração. A curadora camaronesa-suíça Koyo Kouoh tomou de empréstimo a tonalidade musical menor, associada à melancolia e à introspecção, como metáfora para orientar a mostra. Assim, In Minor Keys propõe sintonizar com frequências sutis e reconectar a arte à experiência sensorial de quem a vive.

Kouoh foi a segunda pessoa africana a assinar a curadoria da Bienal, depois de Okwui Enwezor em 2015, e a primeira mulher africana no cargo. No dia 8 de abril de 2025, ela enviou ao presidente da Bienal o texto curatorial com o título In Minor Keys. A apresentação pública estava marcada para 20 de maio, em Veneza. Porém, Kouoh morreu dez dias antes, em 10 de maio, num hospital em Basileia, de câncer recém-diagnosticado.
Com o apoio integral da família, a Bienal decidiu honrar a visão de Kouoh sem nomear curador substituto. A mostra acontece exatamente como ela a concebera, conduzida pela equipe que ela mesma havia escolhido. Para o presidente da Fundação Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, a decisão traduz “a alegria da arte autêntica, que tão fielmente se assemelha à vida real”.
A Bienal se organiza em torno de dois eixos históricos: os Giardini della Biennale, jardins com pavilhões nacionais permanentes, incluindo o Pavilhão Central, e o Arsenale di Venezia, antigo complexo naval convertido em espaço expositivo. A esses se somam as exposições e projetos do eventi collaterali, selecionados e reconhecidos oficialmente pela Bienal de Veneza, mas realizados por instituições independentes.
Cada pavilhão nacional, porém, é curado de forma independente pelo país representado. Parte deles fica nos Giardini, outra parte no Arsenale, e os demais se distribuem por igrejas, palácios e fundações pela cidade. Ao todo, esta edição reúne 100 participações nacionais, com sete estreias absolutas: República da Guiné, Guiné Equatorial, Nauru, Catar, Serra Leoa, Somália e Vietnã.
Já a exposição internacional de Koyo Kouoh, distribuída entre os Giardini e o Arsenale, reúne 111 participantes organizados em torno de motivos conceituais chamados de undercurrents. Entre eles estão as Schools: organizações lideradas por artistas que integram a mostra como ecossistemas pedagógicos de troca e produção coletiva.
Entre os eventi collaterali desta edição, Jenny Saville recebe sua primeira grande retrospectiva em Veneza, no Ca’ Pesaro, com mais de 30 obras que percorrem sua trajetória dos anos 1990 ao presente. Ademais, a Pinault Collection ocupa simultaneamente a Punta della Dogana, com a primeira grande retrospectiva europeia de Lorna Simpson, e o Palazzo Grassi, com 150 obras de Michael Armitage. Já nas Gallerie dell’Accademia, Marina Abramović se torna a primeira artista mulher viva a receber uma grande exposição na instituição.

A edição de 2026 é a mais politicamente turbulenta da história recente da Bienal. A decisão de permitir o retorno da Rússia, ausente desde 2022 em razão da invasão à Ucrânia, desencadeou uma série de reações. O ministro da Cultura italiano, Alessandro Giuli, anunciou o boicote à cerimônia de abertura e pediu a renúncia da representante do governo no conselho da Bienal, alegando falta de transparência no processo.

Sob pressão institucional, a Bienal chegou a um acordo em que o pavilhão russo ficaria aberto apenas nos dias de pré-abertura para profissionais e imprensa, permanecendo fechado ao público durante toda a temporada. Em virtude disso, a Comissão Europeia anunciou o corte de €2 milhões em financiamento previsto para 2028. Ainda assim, a Bienal sustentou que agiu “em estrita conformidade com as leis nacionais e internacionais aplicáveis.”
Diante desse cenário, o júri internacional, presidido pela brasileira Solange Farkas, publicou um statement of intention, declaração formal de posicionamento, em que afirmava não considerar para premiação países cujos líderes estivessem sob acusação do Tribunal Penal Internacional. No documento, o grupo escreveu: “Nesta edição da Bienal, queremos estabelecer nossa intenção, expressar nosso compromisso com a defesa dos direitos humanos e com o espírito do projeto curatorial de Koyo Kouoh.” Nove dias antes da abertura, os cinco membros renunciaram. Em resposta, a Bienal de arte de Veneza 2026 substituiu os tradicionais Leões de Ouro por dois Prêmios dos Visitantes, votados pelo público ao longo da temporada.
Com o pavilhão israelense nos Giardini em obras, a Bienal realocou o país para o Arsenale. A decisão motivou duas cartas abertas. A primeira, assinada por cerca de 200 participantes, pedia a exclusão de Israel. A segunda, com mais de 70 artistas da exposição principal, ampliou o pedido para incluir também Rússia e Estados Unidos. Entre os signatários estavam membros da própria equipe curatorial de Kouoh. Contudo, a Bienal não respondeu diretamente às cartas.
Além disso, outros países também ficaram de fora da edição. O Irã havia confirmado interesse em participar em fevereiro, mas comunicou à Bienal que seu pavilhão não poderia ser montado, sem detalhar os motivos. A saída ocorreu em meio às tensões do país com Israel e Estados Unidos. Da mesma forma, a África do Sul cancelou seu pavilhão pela primeira vez em 15 anos, após o veto ministerial à obra selecionada, que será apresentada de forma independente em Veneza.
Em meio a tudo isso, a Bienal abre neste sábado com a tarefa de conciliar a escuta proposta por Kouoh e o ruído que cercou os meses de preparação. Para Buttafuoco, a arte resiste: “Estamos aqui imersos em uma realidade social vibrante, para nos nutrir com a arte, porque a arte tem um poder ainda maior do que qualquer arrogância. A arte nos destina ao futuro e nos dá a capacidade de apagar catástrofes.”
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