
Fragmenti, Daniele Papuli, Dilmos Gallery, Milano Design Week 2026, Milão, Itália. Foto: Margherita Bon.
Milão sedia, há décadas, o mais importante calendário do design mundial. Uma vez por ano, a cidade recebe o Salone del Mobile, a maior feira internacional do setor, realizada na Fiera Milano Rho. Em 2026, o evento chegou à sua 64ª edição com mais de 1.900 expositores de 32 países e 169 mil metros quadrados de área expositiva. Em paralelo, o Fuorisalone expandiu a programação para além dos pavilhões da feira, com exposições e instalações nos bairros históricos de Brera, Tortona, Isola e Porta Venezia, entre outros, transformando a semana em um circuito criativo que ocupou a cidade inteira.
O tema central da edição foi “A Matter of Salone”, uma proposta de retorno à essência dos materiais como origem de todo projeto. Na prática, isso se traduziu em uma programação marcada pela presença de pedra, madeira, cerâmica, vidro e fibras naturais não apenas como escolhas estéticas, mas como argumentos de projeto. O Fuorisalone, por sua vez, adotou o tema “Be the Project”, propondo uma reflexão sobre o design não como produto acabado, mas como processo contínuo, marcado pela responsabilidade de quem projeta.

A edição de 2026 confirmou uma tendência que vinha se consolidando nas últimas edições: o interesse crescente pelo passado como matéria-prima do presente. Arquitetura histórica, técnicas artesanais ancestrais e legados de designers do século XX foram convocados a operar como argumentos criativos. É nesse espírito que os projetos mais comentados da semana merecem ser lidos.
Na Triennale Milano, uma das exposições mais comentadas da semana foi Continuous Present, dedicada ao designer e teórico italiano Andrea Branzi com curadoria do arquiteto japonês Toyo Ito. A mostra reuniu mais de 400 trabalhos entre desenhos, modelos, instalações ambientais e vídeos, distribuídos em onze núcleos temáticos. A proposta de Ito não buscou traduzir Branzi para o presente. Buscou deixar a distância entre os dois universos aparecer. O resultado foi menos uma retrospectiva do que uma pergunta aberta sobre o que ainda estamos dispostos a reconhecer como design hoje. Coproduzida com a Fondation Cartier, a exposição seguirá em cartaz até outubro.

Também no Fuorisalone, no Palazzo Serbelloni, a Louis Vuitton apresentou a edição de 2026 dos Objets Nomades, sua linha de objetos de casa e mobiliário. O eixo curatorial foi Pierre Legrain, decorador e encadernador parisiense que assinou, em 1921, a primeira peça de mobiliário da história da marca. A partir desse ponto de partida histórico, a edição reeditou a Coiffeuse Céleste e a poltrona Riviera e lançou uma nova coleção em lacas, couro e madrepérola inspirada em Legrain. O pátio do palazzo recebeu ainda uma instalação monumental derivada dos padrões de encadernação do designer, pintada ao vivo por estudantes da Accademia di Belle Arti di Brera ao longo de toda a semana.
O projeto mais ousado da edição foi o do designer Tom Dixon em parceria com a Vispring. No Mulino Estate, complexo de 1929 projetado por Cesare Chiodi e Gio Ponti, Dixon construiu um micro-hotel de 12 quartos que funcionou durante toda a semana como hospedagem efetiva para visitantes. A Domus descreveu a iniciativa como o exemplo mais radical da tendência dominante da edição: o design saiu dos estandes para ser vivido e habitado como experiência completa. O Mua Mua Hotel permanece em operação após o evento.

No Palazzo Olivazzi, em Via Bigli, a iniciativa Interni Venosta abriu ao público, pela primeira vez, um apartamento projetado por Osvaldo Borsani entre 1947 e 1948. Foi um dos exemplos mais refinados do design doméstico milanês do pós-guerra. O espaço recebeu a coleção Interno Italiano, concebida por Britt Moran e Emiliano Salci do Dimorestudio. Móveis, acessórios e estofados em madeira laqueada, com acabamentos metálicos e em tons neutros, foram desenvolvidos em diálogo direto com as proporções e os detalhes originais do apartamento. Já no Palazzo Donizetti, a Artemest apresentou a quarta edição de L’Appartamento sob o tema Italian Grandeur. Cinco estúdios internacionais de interiores transformaram ambientes distintos do palazzo em diálogo com artesãos italianos. A edição também estreou a Artemest Collection by GACHOT, a primeira linha de mobiliário própria da plataforma.

Dentro dos pavilhões da Fiera Milano Rho, dois projetos concentraram a atenção da imprensa especializada. O primeiro foi a estreia do Salone Raritas, no Pavilhão 9, primeira plataforma dedicada a peças únicas, edições limitadas e manufatura criativa de alto padrão dentro da própria feira. Com curadoria de Annalisa Rosso e projeto expositivo do estúdio Formafantasma, o espaço reuniu cerca de 25 galerias internacionais em torno de um programa que colocou autoria, narrativa e especificidade material no centro do debate.

O segundo destaque foi Aurea, An Architectural Fiction, instalação concebida pelo estúdio parisiense Maison Numéro 20 e seu fundador Oscar Lucien Ono nos Pavilhões 13 e 15, dentro do percurso A Luxury Way. O projeto imaginou um hotel que não existe, mas que parecia completamente habitável. Uma sequência de atmosferas transitou entre jardim de inverno, salão de jantar e bar da meia-noite, com referências ao Art Déco, ao surrealismo e à cenografia de cinema de autor. Nas palavras de Ono, foi uma oportunidade de expressar uma visão pessoal de hospitalidade em que arquitetura e design deram forma a cenários íntimos por meio de composição narrativa e diálogo entre luz e matéria.
Gostou desta matéria? Leia também:
Art Basel Report 2026: o que ele revela sobre o mercado de arte