Barroco além do chiaroscuro

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Conheça o movimento Barroco, sua história e principais artistas e obras

O Barroco é um dos movimentos artísticos mais importantes da História da Arte. Seus representantes, entre pintores, escultores e arquitetos, encontram-se, ainda hoje, entre os cânones absolutos das artes. Seu legado é, nada menos do que algumas das mais aclamadas e visitadas obras primas do mundo. 

Quem foram estes artistas? Qual a importância de suas contribuições? Qual o contexto histórico e cultural que permitiu o surgimento desta expressão artística tão grandiosa? A seguir, faremos um passeio pelo Barroco, onde algumas dessas questões serão respondidas.

Origem do movimento Barroco
Características da pintura barroca
Barroco x Renascimento
Contexto histórico do surgimento do Barroco
Rembrandt
Peter Hubens
Diego Velázquez

Origem do movimento Barroco

Muitos dos movimentos ainda hoje tidos como sendo de grande importância na História da Arte surgiram como iniciativas bastante conscientes de um ou mais artistas em propor um tipo de tratado ou projeto de incursão na arte. Esses movimentos, como o Surrealismo ou o Dadaísmo, eram inaugurados a partir da publicação de manifestos escritos por seus idealizadores. Tais documentos apresentavam as teorias e premissas próprias do movimento, como uma espécie de regimento a ser seguido. Portanto, quem desejasse fazer parte do movimento deveria seguir suas regras ou não seria aceito. 

O Barroco é muito mais complexo, pois trata-se da manifestação da sensibilidade de uma época, uma linguagem que se espalhou pelo mundo, interagindo e se transformando a cada encontro com uma nova cultura.

Para entendermos o movimento Barroco, precisamos nos debruçar sobre o contexto histórico no qual teve origem e se desenvolveu. O Barroco surgiu na Itália entre o final do século XVI e início do século XVII. Num primeiro momento, recebeu esse nome através de críticos ao movimento como uma espécie de troça. O termo Baroco tem origem na língua portuguesa e era utilizado inicialmente para referir-se a pérolas de formato imperfeito. Eram pérolas dotadas de beleza e exuberância, porém suas formas irregulares tornavam-as difíceis de se trabalhar, rebeldes e brutas que eram.

Este, também se tratava de um estilo rebelde, difícil e, acima de tudo, exuberante. O Barroco era essa pérola imperfeita em oposição aos ideais de perfeição do Renascimento, o período antecessor. É importante falarmos sobre algumas ideias chaves do Renascimento, pois o Barroco é positivamente antagonista a ele. Portanto, para compreendermos o segundo, precisamos conhecer o primeiro.

Caravaggio. Crucificação de São Pedro, 1600. Imagem: Fine Art America

Características da pintura barroca

Observemos, por exemplo, a pintura A Crucificação de São Pedro, de Caravaggio, um dos mais importantes cânones da História da Arte e considerado por muitos como o principal artista do movimento Barroco. Na pintura em questão, o observador é confrontado com uma cena de emoções intensas e muito próximas. Na cena, São Pedro é crucificado de cabeça para baixo. Seus pés pregados na cruz estão tão próximos do observador que sente-se que é quase possível tocá-lo. A imagem invade o espaço através do recurso do escorço, muito utilizado durante o período. Percebe-se também uma grande instabilidade na imagem, em parte provocada pelas linhas diagonais da cruz e dos carrascos que tentam levantá-la e padecem com o peso, não apenas do corpo de São Pedro, mas de seu próprio pecado.

Tudo na imagem evoca a noção de movimento, como uma fotografia tirada no meio de uma ação dramática. Nesta pintura de Caravaggio, temos um ótimo exemplo do uso do Chiaroscuro, recurso pelo qual o Barroco ficou mais conhecido. O chiaroscuro trata-se do forte contraste entre luz e sombra, provocando uma luz quase teatral na cena e ampliando a dramaticidade do momento ali retratado. Essa é uma das principais quebras com as noções de composição do Renascimento. Na pintura renascentista, os artistas criavam paisagens e espaços arquitetônicos utilizando regras rígidas de composição espacial. Retratavam espaços amplos e abundantemente iluminados, dotados de uma luz sutil e uniforme, pensados de maneira a expressar equilíbrio e estabilidade.

O Barroco introduz esse espaço dramático e instável, com suas linhas diagonais e seus contrastes de luz intensa que aproximam e envolvem o espectador. Na pintura de Caravaggio, vemos um rosto verdadeiramente humano, que não esconde as rugas ou a calvície da idade avançada, tampouco a dor que aflige a carne. Presenciamos a violência, a sujeira, as roupas rasgadas, o sangue. Tudo é pensado de maneira a fazer com que o espectador se sinta emocionalmente envolvido, pois há um interesse em quebrar as barreiras que separam a obra de arte do mundo.

Falaremos mais sobre essa questão a seguir quando adentrarmos no contexto político e cultural que originou o movimento Barroco. Antes, vejamos mais um exemplo de uma obra barroca em oposição a uma obra renascentista.

Barroco x Renascimento

  • Gian Lorenzo Bernini. Davi, 1623–1624. Imagem: Totally History

A estátua de Davi, feita por Bernini, é um excelente exemplo da escultura barroca em oposição à escultura renascentista, pois temos a contraparte renascentista do mesmo tema representado na estátua de Davi criada por Michelangelo. Bernini é considerado o principal escultor do movimento Barroco. O italiano transgrediu os limites entre escultura e arquitetura e suas criações são algumas das mais visitadas por turistas na Europa. Ambas estátuas retratam a passagem bíblica em que Davi enfrenta o gigante Golias. Na obra de Bernini, o espectador vê-se diante de um homem que está despendendo na tarefa cada gota de energia que tem em si. Percebe-se sua comoção pelas sobrancelhas franzidas e a maneira como ele morde os lábios.

O artista demonstra compreender profundamente o corpo humano e as noções de naturalismo aprendidas durante a renascença, mas emprega na obra uma intensa emoção. A posição em que o Davi de Bernini se encontra só poderia ser conservada pelo corpo humano por uma fração de segundos. Sua dinamicidade quebra a noção de estabilidade característica da renascença, o corpo do Davi de Bernini está retorcido em um movimento que está a ponto de liberar essa energia acumulada.

A estátua apresenta diversas linhas diagonais que se interconectam evocando a sensação de intensa energia do movimento. Assim, a figura envolve o espectador pois se relaciona com o espaço de uma forma íntima e pessoal. Ao passo que o Davi de Michelangelo, sua contraparte renascentista, mantém uma postura estática de educado distanciamento, preservando a noção renascentista da beleza clássica que está ali para ser contemplada. O Davi barroco de Bernini, por sua vez, não apela para a mente, mas para o corpo e as emoções dos espectadores.

Na obra de Bernini podemos perceber a presença de um grande contraste entre luz e sombra. O chiaroscuro se faz presente nos recortes e sombras projetadas pelos membros ativos da figura. Enquanto que o Davi renascentista de Michelangelo apresenta a luminosidade uniforme produzida pela retidão das linhas de sua postura estática.

Contexto histórico do movimento

Emoção, ação, drama, contraste, intensidade, movimento, grandeza, exuberância. Por que estes conceitos estão tão presentes no Barroco? Esta questão fica mais compreensível quando entendemos que no final do século XVI, quando o movimento Barroco surge, a Europa vivia um período turbulento

Por um lado, estava em curso a contrarreforma da Igreja Católica, que pretendia recuperar seu prestígio, em parte perdido com o avanço do protestantismo após a reforma iniciada por Martinho Lutero. Parte dos esforços da igreja Católica se concentrava em trazer as pessoas de volta para seu seio através da representação dos clássicos temas bíblicos de forma mais viva e próxima da realidade dos fiéis. Já que os poucos privilegiados e instruídos não demonstravam interesse em fortalecer o cristianismo, as massas foram visadas. Uma vez que a maioria da população não poderia ser tocada pela palavra escrita, a igreja buscou outra linguagem que pudesse inspirar os fiéis a permanecerem leais, uma linguagem que não exigisse alfabetização. Assim, a Igreja Católica se lança numa campanha sistemática de publicidade utilizando a arte

Neste contexto, no século XVII, o Barroco se torna o estilo prevalente entre artistas não só em Roma, como por toda a Itália e obras barrocas repletas de grandiosidade religiosa se espalham para outras partes da Europa. 

Por outro lado, acontecia a ascensão de regimes monárquicos absolutistas, com seus reis desejando projetar toda sua grandeza e ostentar sua abundante riqueza através de obras arquitetônicas e de arte majestosas. Assim, comissionavam obras cada vez mais imponentes, palácios cada vez mais exuberantes.

Os artistas agora eram encorajados a expressar temas religiosos e mitológicos através de luxuriantes obras. As imagens que os artistas barrocos criavam eram realistas, intensas e extravagantes. O uso de cores vibrantes se tornava uma característica marcante e os diferentes objetos de uma composição poderiam ser sobrepostos, ao invés de isolados no centro do trabalho como era feito durante o Renascimento.

As pinturas barrocas apresentam uma variada gama de estilos e influências artísticas, são dramáticas e ricas em detalhes e dotadas de realismo honesto. Os artistas barrocos tipicamente retratavam momentos de grande comoção acontecendo em tempo real, como que instantes de dramaticidade fotografados, como vimos anteriormente na pintura de Caravaggio.

Rembrandt

Muitos artistas estabeleceram sua reputação durante o período. Artistas como Rembrandt, um verdadeiro mestre em técnicas barrocas. Pode-se perceber, por exemplo, seu excepcional uso de luzes e sombras em obras como A lição de anatomia.

Rembrandt. A lição de anatomia, 1632. Imagem: Revista Bula

Peter Hubens

Peter Paul Rubens foi outro grande mestre forjado pelo movimento Barroco. O pintor belga notoriamente fundiu a excelência do realismo de seu país de origem com as tradições italianas para produzir um estilo potente e exuberante. A característica mais marcante de Rubens era sua maneira de retratar nus femininos, a qual originou o termo “Rubenesco”, utilizado ainda hoje para tratar de nus voluptuosos.

Peter Paul Rubens. O rapto das filhas de Leucipo, 1617. Imagem: Saatchiart

Diego Velázquez

Não se pode concluir este assunto sem se falar de Diego Velázquez, grande mestre do barroco espanhol. Velázquez foi o pintor oficial da corte espanhola, tendo pintado inúmeros retratos da família real. Um desses retratos é sua obra mais famosa. Na obra As meninas, o pintor retrata a família real de uma forma absolutamente inovadora. Ele convida o observador a fazer parte da cena através de jogos de olhares e espelhos no que seria aparentemente um retrato da infanta Margarida Teresa.

Diego Velázquez. As meninas, 1656. Imagem: BBC

O Barroco foi um movimento riquíssimo que se desenvolveu por quase dois séculos, se espalhando por todo o mundo e influenciando artistas das mais variadas linguagens, começando na pintura, passando pela arquitetura e mesmo pela música. Sua importância não pode ser mensurada, tampouco seria possível em apenas um texto dar conta de apresentar todos os mestres representantes desse movimento.

O que fica aqui é um convite para que a força, a emoção e a exuberância do Barroco instiguem o leitor a conhecê-lo mais de perto. Afinal, uma coisa é certa ao observarmos as obras dos mestres barrocos: seu objetivo era criar imagens que fossem maiores do que a vida mundana, que fossem espirituais e capazes de criar um senso de deslumbramento, encorajando o espectador a conectar-se intimamente com a cena retratada.


Luísa Prestes, formada em artes visuais pela UFRGS, é artista, pesquisadora e arte-educadora. Participou de residências, ações, performances e exposições no Brasil e no exterior.

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