Amilcar de Castro: na dobra do mundo

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Exposição no MuBE apresenta um conjunto de experimentações de um dos maiores escultores da arte brasileira, e parte pode ser vista da rua do museu

Visitar a exposição Amilcar de Castro: na dobra do mundo, no Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE) em São Paulo, é uma oportunidade de conhecer outros desdobramentos do trabalho do artista brasileiro, muito conhecido por suas esculturas feitas de aço cor-ten, de tons terrosos. 

O primeiro contato com a exposição ocorre logo na rua do museu. A área externa do MuBE está tomada de chapas de aço cortadas e dobradas, que vão da média escala à monumental. Dessa forma, quem passa pela Avenida Europa, seja caminhando, de carro ou de transporte público, tem uma visão – mesmo que momentânea – da inserção da geometria de aço do artista no museu de concreto projetado por Paulo Mendes da Rocha. 

Sem título, 1999. Foto: Diogo Barros. 

Ao adentrar o museu pela Rua Alemanha a recepção é feita pela maior escultura presente na exposição. Sua extensão percorre todos os níveis a partir da cota da rua e, seu topo, ao ultrapassar a marquise, pode ser visto pelas proximidades da instituição. 

Ainda no pátio de concreto da parte externa, as obras estão espalhadas de forma a cercar nosso campo de visão com esculturas postas em todos os sentidos. Nesta parte, trilhamos de forma livre entre exemplares da técnica que consagrou o artista mineiro como um dos maiores escultores brasileiros: o corte e a dobra das chapas de aço cor-ten. 

Nessas obras, o artista explorou a sustentação e o equilíbrio de uma unidade. As chapas se erguem e se impõem através da torção realizada no material bruto. Cortar e torcer, ações que em suas palavras podem parecer simples, configuram o ponto central da experimentação do artista. 

Concreto adentro 

A parte interna da exposição é dedicada, em grande parte, a outras linguagens exploradas pelo artista, como a pintura e o desenho, assim como outras materialidades na escultura. 

A extensa parede do ambiente expositivo do museu recebe pinturas em grandes formatos, em sua maioria tinta acrílica sobre tela. O percurso pelas pinturas é um caminho gradual, acompanhando uma profundidade pictórica que nasce e se transforma do gestual ao geométrico. 

Nas primeiras obras os rastros das cerdas equilibram geometria e organicidade em telas altamente contrastadas em preto e branco, até chegar nas composições mais racionais de linhas finas e precisas que cortam grandes planos opacos. 

Vista da exposição. Diogo Barros. 

Em contraposição às pinturas mais geométricas, a exposição abre um espaço com esculturas de madeira, aço, mármore e inox, além de desenhos e uma impressão do Manifesto Neoconcreto, do qual Amilcar de Castro faz parte. 

Nesses materiais o artista trabalha através da composição de pelo menos duas partes, diferente do usual corte único realizado em suas esculturas mais emblemáticas. Todavia, em alguns momentos essas composições ainda remetem a ideia de uma unidade remodelada. É possível notar, através de todas essas variações, como o artista encontrou a síntese de sua poética, reverberando-a em todo seu trabalho. 

Conforme a exposição prossegue, as pinturas vão se massificando e o preto denso da acrílica vai tomando conta das telas brancas. O peso, sem dúvidas, é uma questão para o artista. Percebe-se então, a partir do caminho, como suas obras exibem o próprio processo. Mesmo a obra mais refinada conta seu processo, é feita do rastro, da manipulação da matéria. 

Acrílica sobre tela. Foto: Carla Loureiro. 

No final da sala expositiva interna estão alguns desenhos de projetos de escultura, que apresentam um pouco mais sobre as primeiras etapas de planejamento do artista ainda no bidimensional. Como característica do MuBE de mostrar seus processos de concepção e montagens de suas exposições, um vídeo é apresentado na saída, no qual é possível ver o complexo processo de montagem da grandiosa escultura encontrada na entrada do museu

Tanto dentro como fora do museu, os diversos subníveis projetados por Paulo Mendes da Rocha ambientaram de forma excepcional as obras de Amilcar de Castro, que se manifestam de diferentes formas a cada ângulo, cada ponto de vista.

A reunião de tantas obras de Amilcar permite o reconhecimento da relação do artista com seu processo único de pensar a forma e o espaço. Um multifacetado que testou e reconheceu os limites da matéria trabalhada, criando uma relação incrível com a materialidade e sua durabilidade. 

Estar em contato com suas obras permite ao visitante a lembrança do quão frágil e vulnerável é o corpo humano, ao mesmo tempo que é capaz de dobrar e transformar os materiais mais resistentes.

Foto: Diogo Barros.

Programa educativo e curatorial 

O MuBE apresenta em seu site uma aba com textos curatoriais e uma série de vídeos mostrando o processo de desenvolvimento da exposição com falas dos curadores, além de vídeos dos bastidores com profissionais envolvidos na montagem. 

O educativo do museu realizou uma série de ações educativas a partir da exposição e os vídeos podem ser conferidos no site também. 

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Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.

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Visitação

O MuBE atualmente recebe o público somente com visita agendada e retirada de ingressos online, de quinta à domingo, das 11h às 17h. 

Serviço

MuBE Museu Brasileiro da Escultura
Exposição Amilcar de Castro: na dobra do mundo
Rua Alemanha 221, Jardim Europa – São Paulo
Visitação agendada

Reservas feitas com antecedência por aqui

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