Adriana Varejão: as fissuras da colonização

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Uma das artistas contemporâneas brasileiras mais reconhecidas no cenário internacional, Adriana Varejão (Rio de Janeiro, RJ – 1964) tem obras em acervos de instituições do calibre da Tate Modern de Londres, do Guggenheim e do MOMA, em Nova York, entre outras.

Em 2011, em leilão da respeitada Christie’s, a artista bateu o recorde de maior valor já pago pela obra de um artista brasileiro ainda vivo. Participou de exposições e Bienais em importantes instituições ao redor do mundo e inaugura, em março deste ano, a individual “Adriana Varejão: Suturas, fissuras, ruínas” na Pinacoteca de São Paulo. Feitos como estes, fazem de Varejão uma das principais artistas latino americanas da atualidade. Mas o que justifica esse status? Como a sua obra conquistou o reconhecimento de que goza hoje? 

Adriana Varejão. Detalhe da obra Celacanto provoca maremoto, 2004-2008 em sua galeria no Inhotim. Imagem: Inhotim

Para entendermos a posição que a artista ocupa hoje no circuito da arte, precisamos entender sua trajetória e o contexto no qual sua obra é produzida. Varejão teve sua formação em pintura na tradicional Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde ingressou no início dos anos 1980. A artista é parte de uma importante geração de artistas brasileiros que trouxe nova vida à pintura após os anos de herança pós-modernista e suas práticas carregadas de conceitualismo.

Essa geração de artistas atuantes nos anos 1980 se valia de uma estética muito mais gestual, se aproximava do neo-expressionismo e fazia uso de materiais industriais estrangeiros ao universo das artes. Varejão também fez uso, desde o início de sua carreira, de materiais industriais como o poliuretano com o qual cria os volumes em suas obras. A pintura de Varejão, porém, apesar de se relacionar em diversos aspectos com a de seus contemporâneos, estava fora da curva traçada por eles, pois apresentava tendências figurativas e realistas. 

No que se refere aos interesses conceituais, a poética de Varejão busca inverter a narrativa histórica e olhar para o Brasil a partir de dentro. Não por acaso sua pintura tem essa dimensão ambígua entre o dentro e o fora. Em suas grandes telas que reproduzem azulejarias, irrompem rasgos, cortes, fissuras que dão a ver seu interior sanguíneo. A pele e a carne da pintura estão expostas como um testemunho da ferida aberta da colonização. Representações que emulam a azulejaria barroca portuguesa tão presente na arquitetura brasileira, são uma das características mais marcantes da obra de Varejão.

Ao se apropriar dessa estética tão particular e inserir nela cenas marcantes da violência histórica dos processos de colonização, a artista extrapola a superficialidade do decorativo para atingir a profundidade dessa chaga ainda hoje sem cura. A prática de Adriana Varejão, juntamente com outros artistas de sua geração, foi uma das inaugurais do discurso decolonial no circuito da arte brasileira, antes disso, tal debate se restringia aos meios acadêmicos da antropologia e da sociologia. 

Adriana Varejão. Proposta para uma Catequese – Parte I Díptico: Morte e Esquartejamento, 1993. Imagem: Enciclopédia Itaú Cultural

Em diversas entrevistas, Varejão afirma que grande parte de sua formação visual se deu a partir do contato com livros como as clássicas enciclopédias dos chamados mestres da pintura – todos eles europeus. Essa versão da história está constituída a partir do olhar eurocêntrico enraizado em nosso imaginário.

A imagética que se constrói na história da arte desde os primeiros artistas europeus a visitarem as américas recém “descobertas” é a de um povo selvagem habitando terras repletas de animais que são quase bestas fantásticas. Esse imaginário se refina e consolida com a Missão Artística Francesa no início século XIX, projeto da corte portuguesa que trouxe artistas franceses para estabelecerem no Rio de Janeiro uma escola de pintura acadêmica neoclássica.

Adriana Varejão tem consciência das violências que sustentam esses movimentos colonizatórios que entendem a cultura européia como a única capaz de salvar os nativos da bestialidade e explora tais idiossincrasias em suas obras. Um bom exemplo é a obra Carne à la Taunay (1964), na qual faz uma paródia de uma pintura de paisagem de um dos principais artistas da Missão Francesa, Nicolas-Antoine Taunay, fragmentando a paisagem em pedaços ensanguentados, concebe uma imagem desse esquartejamento tupiniquim.

Adriana Varejão. Carne à la Taunay, 1997. Imagem: ArtNet

Em trabalhos mais recentes como Ruína Brasilis, exibida em 2021 em mostra na Galeria Gagosian, em Nova York, a artista avança ainda mais no espaço tridimensional, ela afirma: “minha pintura sempre teve a tendência a dominar o espaço, a sair da tela”. Ainda assim, entende que suas obras são constituídas por um pensamento que habita muito mais o campo da pintura do que da escultura. 

Adriana Varejão. Ruína Brasilis, 2021. Imagem: Artsy

Vemos na estrutura como que partida, o interior carnal revelado na fissura dos azulejos característicos de sua obra. Dessa vez os azulejos são escancaradamente verde e amarelo e estão em uma base que remete a azulejaria árabe. Essa, por sua vez, foi levada pelos mouros a Portugal, onde influenciou a azulejaria barroca trazida posteriormente ao Brasil.

A obra da artista também sofreu grande influência do contato que teve com a cerâmica chinesa da dinastia Song, do século 11, e suas superfícies craqueladas. Nessa tradição de cerâmica, o craquelado, que seria a princípio um defeito técnico, não apenas é apreciado, como desenvolveram-se técnicas para intencionalmente produzi-lo. Varejão encontra uma maneira de explorar uma textura similar em seus trabalhos ao utilizar camadas espessas de gesso, que ao secar produzem rachaduras proeminentes. 

Adriana Varejão. Azulejão, 2016. Imagem: Touch of Class

Varejão esteve na China e viu lá reminiscências da colonização Portuguesa como as que encontramos em solo brasileiro. Ao visitar saunas e casas de banho do país, a artista percebe semelhanças arquitetônicas com espaços azulejados no Brasil, como os mercados de carne do Rio de Janeiro. A partir desse encontro produz a série Saunas e Banhos, na qual cria espaços arquitetônicos azulejados carregados de uma aura de silêncio e mistério. 

Adriana Varejão. Série Saunas e Banhos: The Dreamer, 2006. Imagem: Fortes D’Aloia & Gabriel

Ao observarmos a obra da artista a partir de um plano ampliado, com suas nuances e influências, compreendemos que todos os caminhos levam ao mesmo lugar: o debate sobre a colonização. Essa contaminação entre culturas é um dos motores do trabalho da artista. Nos seus quase 40 anos de carreira, Adriana Varejão desenvolveu uma semântica própria, tratando com profundidade questões históricas complexas que permeiam o debate contemporâneo em diversos campos sócio-políticos. O corpo de sua obra tem uma força inegável e garante que a artista ocupe o espaço no qual se encontra hoje. 

Entrevista com Adriana Varejão sobre sua participação na exposição CAMPO, na EAV Parque Lage. Disponível no Youtube.

Luísa Prestes, formada em artes visuais pela UFRGS, é artista, pesquisadora e arte-educadora. Participou de residências, ações, performances e exposições no Brasil e no exterior.

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