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Trabalho de Carnaval: Por trás da maior festa brasileira

Publicado por Artsoul em 02/02/2026
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Abetura da exposição Trabalho de Carnaval no Pina Contemporânea para Pinacoteca de São Paulo

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Uma das maiores exposições já realizadas no Brasil sobre sua festa mais popular não celebra apenas o espetáculo, mas revela quem o constrói. “Trabalho de Carnaval”, em cartaz na Pina Contemporânea até o dia 12 de abril de 2026, reúne mais de 200 obras de 70 artistas para iluminar o trabalho dos profissionais que sustentam a celebração: costureiras, aderecistas, ferreiros e carpinteiros cujos ofícios viabilizam uma das maiores expressões da identidade cultural brasileira.

Com curadoria de Ana Maria Maia e Renato Menezes, a mostra articula quatro núcleos — Fantasia, Trabalho, Poder e Cidade — para apresentar o carnaval como uma produção laboral complexa e contínua. Dessa forma, o gesto curatorial traz para dentro de uma das principais instituições de arte do país um universo que tradicionalmente permanece nos bastidores.

Vista da exposição “Trabalho de Carnaval”, em cartaz na Pinacoteca de São Paulo. Foto: Divulgação Pinacoteca de São Paulo.

Trabalho De Carnaval e seus núcleos temáticos

A exposição se divide em quatro eixos conceituais. Fantasia ocupa a parte central da Grande Galeria, reunindo projetos e croquis como os estudos de J. Cunha para o Carnaval de Salvador e os trabalhos de Joana Lira para as decorações de rua do Recife. Neste núcleo, a palavra Fantasia explora dois significados: Tanto o traje usado no carnaval quanto como imaginação, isto é, a capacidade de criar. Assim, a curadoria aproxima essas duas ideias para mostrar que toda fantasia de carnaval começa com um desenho no papel.

Abertura da exposição “Trabalho de Carnaval”, na Pinacoteca de São Paulo. Foto: Divulgação Amarello.

No segundo núcleo, Trabalho, a exposição aborda diretamente as condições laborais nos barracões, espaços de produção das escolas de samba onde esses profissionais historicamente invisibilizados sustentam toda a cadeia produtiva do carnaval. Essa reflexão se sustenta na pesquisa do antropólogo Mauro Cordeiro, professor da UFRJ, que contribuiu com um ensaio para o catálogo. Segundo ele, existe um trabalho que acontece nos bastidores, realizado majoritariamente por profissionais negros, que permanece à margem do reconhecimento público e institucional.

Urso do Bairro Novo (2025), de Hugo Muniz (Marlon Ruan/Divulgação)

Por sua vez, em Cidade, o terceiro núcleo, a mostra apresenta a relação entre o carnaval e o espaço urbano. Imagens fotográficas de blocos, cortejos e agremiações documentam como a celebração toma as ruas, constituindo um ato de ocupação que também representa pertencimento. Entre as obras, destacam-se as fotografias de Diego Nigro no Galo da Madrugada de 2025, que capturam a dimensão coletiva e pública da festa.

Por fim, o núcleo Poder reúne imagens de trabalhadores dos canaviais pernambucanos, transformados em reis e rainhas do maracatu, além de mulheres negras que ocupam posições centrais como Deusas de Ébano e Rainhas do carnaval. As obras evidenciam como a festa cria momentos em que hierarquias cotidianas são temporariamente reconfiguradas, permitindo que diferentes pessoas assumam papéis de destaque na festa.

Artistas entre gerações e geografias

Para construir essa narrativa sobre o carnaval, a curadoria reúne artistas de diferentes gerações e regiões do Brasil. Entre os históricos, se destaca Heitor dos Prazeres, um dos fundadores das escolas de samba cariocas Vizinha Faladeira e Portela, que participou da 1ª Bienal de São Paulo em 1951. Suas pinturas buscavam retratar o cotidiano do subúrbio, como festas populares, pescadores e rodas de samba. 

Carnaval nos Arcos da Lapa, c. 1960, Heitor dos Prazeres

Também integra a exposição Rosa Magalhães, a maior campeã do carnaval carioca com sete títulos, formada em cenografia pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Além de ter participado da 49ª Bienal de Veneza, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da UERJ. 

Entre os contemporâneos, Bárbara Wagner, vencedora do Prêmio PIPA 2017 e representante brasileira na 58ª Bienal de Veneza, traz sua pesquisa sobre corpo popular e comunidades LGBTQIA+ no Recife. A mostra conta também com Rafa Bqueer, artista visual e ativista paraense, que apresenta a videoinstalação “O Peso do Esplendor”. Na obra, a artista caminha no local demolido carregando um esplendor metálico de 40 quilos nas costas, materializando o peso simbólico da luta por espaço e reconhecimento.

A exposição reúne ainda Alberto Pitta, diretor artístico do bloco afro Ilê Aiyê desde 1993, que traz décadas de criação de brinquedos de tecido, alegorias e adereços que contam histórias africanas. Também está presente Juarez Paraíso, escultor baiano da segunda geração modernista que foi mentor de artistas como J. Cunha e Ray Vianna, além de ter realizado as decorações do carnaval de Salvador e projetado as duas Bienais da Bahia de 1966 e 1968. Completa esse panorama Lita Cerqueira, uma das primeiras fotógrafas negras da Bahia, que registra a cultura negra brasileira e festas populares desde 1969. Suas fotografias integram acervos da Biblioteca Nacional da França, da Pinacoteca e do Museu Afro Brasil.

Na mesma linha, aparecem trabalhos de Bajado, pintor autodidata de Olinda e principal retratista do carnaval pernambucano, que foi homenageado pela UNESCO em Paris em 1994, e coroado no carnaval de Olinda de 1980 com o tema “Bajado: Rei dos Pintores”. Representando São Paulo, Maria Apparecida Urbano, primeira mulher carnavalesca da cidade e autora de sete livros sobre o carnaval paulistano, traz sua perspectiva única e, aos 90 anos, continua lutando para preservar a memória das escolas de samba.

Bajado, viva o homem da meia noite, óleo sobre madeira. Foto: João Liberato©

Projetos inéditos em Trabalho de Carnaval

A exposição comissiona ainda três projetos inéditos, criados especialmente para a mostra: obras de Adonai, Ana Lira e Ray Vianna. Este último, soteropolitano com quase 60 anos de carreira, iniciou nas artes aos 15 anos trabalhando com Juarez Paraíso em decorações de carnaval. Como criador da identidade visual da Timbalada — incluindo as icônicas pinturas corporais tribais — também é autor de esculturas públicas que definem a paisagem de Salvador: “Odoyá” (2008) no Largo de Santana, “Caramuru-Guaçu” em Piatã, com 14 metros de comprimento, e a série “Flores Urbanas” na Praça Garibaldi.

Por sua vez, Ana Lira, natural de Caruaru, trabalha com fotografia e livro de artista, focalizando vivências políticas e ações coletivas. Especialista em teoria e crítica de cultura, desenvolve pesquisas sobre questões de acesso e potencialidades das produções negras. Entre suas participações recentes, destacam-se o 36º Panorama da Arte Brasileira no MAM-SP (2019) e a exposição “Encruzilhadas da arte afro-brasileira” no CCBB (2023-2024). Além da obra comissionada para “Trabalho de Carnaval”, a artista ministrou o curso “Práticas de escuta para afluências” como parte da programação educativa da mostra.

“Voto!”, Série “IV”, santinhos medindo 7 x 10,5, Fotografia em papel offset. Reprodução Prêmio Pipa
Luisa Lotto é publicitária formada em Comunicação Social pela ESPM e redatora de conteúdo nas áreas de arte e design, com passagem por produção cultural no programa Café Filosófico.

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