
Em um momento em que a casa se consolida como território de expressão pessoal, o morar contemporâneo assume novas narrativas visuais e afetivas. Humor, fantasia e objetos inusitados aparecem como recursos para romper com a previsibilidade dos interiores neutros e assépticos. Longe de se resumir a um repertório infantilizado, essa busca responde ao desejo de aproximar a casa da memória e da experiência cotidiana.
A partir desse repertório visual mais livre, referências inesperadas passam a ganhar espaço na composição da casa: listras marcantes, volumes esculturais e objetos intencionalmente surpreendentes que deslocam o olhar e introduzem presença. O objeto lúdico atua, assim, como ponto de afeto, criando vínculos mais pessoais entre o indivíduo e o espaço habitado.
Dentro dessa abertura para o inusitado, a Luminária Barco de Papel encontra seu lugar. Ao tomar como base a icônica dobradura da infância, a peça desloca essa memória para o campo do design pela escala e pela luz.

Esse deslocamento do objeto cotidiano também aparece no Quadro Óculos/Bike, ainda que em menor escala. Ao reorganizar a armação, o artista transforma um acessório comum em uma imagem que lembra uma bicicleta, criando um jogo visual simples e familiar.
Por sua vez, a luminária em formato de máquina de escrever entra nessa conversa de forma mais direta. Ainda reconhecemos a silhueta do objeto, mas a luz desloca seu sentido, e o que antes registrava palavras agora ocupa o espaço de outra forma, criando presença no ambiente e sugerindo novas leituras para um objeto marcado pelo uso e pela memória.
A valorização de interiores mais expressivos também pode ser observada de perto na CASACOR 2026. Na mostra, o maximalismo aparece em diversas formas, materiais e ambientes, como uma linguagem capaz de deslocar o olhar comum, valendo-se de paletas vibrantes, humor visual e referências fantásticas para transformar a experiência do espaço.
Na Casa Brastemp, assinada por Marcelo Salum, o cotidiano de uma cozinha funcional ganhou contornos de sonho por meio de uma atmosfera pop marcada pela cor. Aparecem no ambiente os pudins e bolos em vidro soprado colorido da designer Patrícia Faragone, espalhados pelo espaço, provando como o objeto inusitado consegue transformar o ambiente em narrativa afetiva.


Para além do vidro, o metal opera de forma semelhante. Em peças como a Bisnaga de Tinta, a Cápsula de Remédio e o Conjunto de Xícaras com Colher, a superfície polida cria um jogo visual que altera a percepção desses objetos, aproximando o design da experimentação estética.



Apesar de não serem infantis, os objetos lúdicos têm o poder de aproximar o lar da memória de momentos da infância. No Ratinho amarelo Bardot, a figura reconhecível, o amarelo intenso e o acabamento brilhante evocam o repertório dos brinquedos, despertando lembranças ligadas ao brincar e ao humor.
Trazer essa mesma atmosfera para o dia a dia exige também investir em peças utilitárias que subvertem as formas tradicionais, provocando pequenos sobressaltos estéticos na rotina. A Xícara Dedos leva essa quebra de expectativa ao ritual do café: ao reinventar a forma de segurá-la, altera a relação tátil com o usuário e introduz humor ao uso cotidiano.


Madeira maciça não é material de humor, mas uma forma no lugar certo muda tudo. Em peças trabalhadas, o humor aparece no modo como uma curva, um corte ou um volume reinterpreta objetos familiares. A matéria mantém seu peso natural, mas passa a sugerir outra função, criando surpresa sem perder a presença dos veios e da superfície.
Sob essa ótica, os Cogumelos em madeira de demolição brasileira ilustram com precisão a relação entre imaginação e matéria. Produzidas a partir de peças de reuso, as esculturas preservam variações de tom e espécies aparentes, levando para o ambiente pequenos focos de fantasia construídos pela história do material.
Na Xiloteca aromática, cada frasco tem corpo próprio, com desenhos ligados à árvore de origem, e guarda o perfume que vem das resinas e fibras naturais. Abre-se para sentir o cheiro antes mesmo de ler o nome.
A matéria também encontra nos animais outra forma de existir no espaço. Na Escultura do Cachorro Baleia, a referência nasce do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e da cadela que atravessa a literatura brasileira. Esculpida no mesmo material, a personagem carrega a mesma economia de formas da sua origem literária.
No Cabideiro Passarinho, a imagem do passarinho surge a partir da funcionalidade. Pensado para ser um cabideiro diferente e alegre, o objeto incorpora a forma do animal e é construído a partir de listras de diferentes espécies nobres.
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