Isabela Simões da Galeria Zagut fala sobre interdisciplinaridade e diálogo entre gerações nas artes plásticas

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À frente da Galeria Zagut, a galerista Isabela Simões conversa com a Artsoul e demonstra como valoriza o diálogo entre gerações e as diferentes influências que a produção artística recebe de outros campos de pesquisa, como a ecologia, a política e o erotismo. Por fim, dá diversas dicas para quem busca conhecer a história da arte através de livros, filmes e programas culturais.

Artsoul: O que inspirou o projeto de criação da sua galeria?

Isabela Simões: Augusto é artista e museólogo e Isabela é geriatra e historiadora de arte. A interdisciplinaridade entre arte e outras áreas, em especial a da saúde, foi a grande inspiração para a criação do espaço. Por causa da geriatria, a convivência de diversas gerações nesse espaço era um dos pilares.

Isabela Simões, à frente da Galeria Zagut – Imagem: arquivo pessoal

Artsoul: Quais os critérios para seleção dos artistas representados?

Isabela Simões: Inicialmente foram artistas da Geração 80 e influenciados pela efervescência do Parque Lage nessa época. Esses artistas foram convidando outros e outros, fazendo com que o sonho da interação intergeracional ocorresse. O critério mais importante é que o artista esteja trabalhando duro em suas pesquisas.

Artsoul: Quais trabalhos e quais artistas da galeria você considera de mais destaque no momento?

Isabela Simões: Embora haja muitas pesquisas de grande interesse, há artistas com trajetória muito sólida no campo das artes e por isso serão selecionados – ganhadores de prêmio nacional, presença em coleções museais e privadas de grande importância: Anna Braga com sua obra aprofundada no feminino; Augusto Herkenhoff, em especial suas séries relacionadas à ecologia e à política; Deneir e suas obras de materiais reciclados; Jorge Duarte com toda a irreverência de sua obra; a dedicação de décadas dos mestres gravuristas Roberto Tavares e Zé Igino; entre outros.

Galeria Zagut – Imagem: Isabela Simões

Artsoul: Nos últimos anos tivemos um boom de viewing rooms, plataformas de exposição e marketplaces de arte atuando no mercado. Quais as suas impressões sobre esses formatos? Como a galeria tem marcado presença neste contexto?

Isabela Simões: A fruição virtual das obras de arte já tinha começado de forma ainda tímida antes da pandemia, mas foi consolidada ao longo desta, de forma que não iremos mais dispensá-la. Todos os instrumentos que facilitem essa interação do espectador com a obra são bem-vindos. A Galeria Zagut desde o início da pandemia transformou todas as exposições programadas para o formato virtual, sem descontinuidade de seu trabalho. Isso incluiu o catálogo virtual, que já ocorria nas exposições presenciais, assim como sua publicação no site editorial. Mas foram criadas as galerias virtuais, realizados vídeos dos artistas participantes, vernissages online e eventos online. Além disso, o incremento da atuação em plataformas virtuais de marketplace tanto nacional quanto internacional. Também o site foi totalmente repensado.

Artsoul: Quais as contribuições mais significativas da sua galeria para o mercado de arte brasileiro?

Isabela Simões: A grande contribuição da Galeria Zagut para o mercado de arte é dar voz a artistas muito interessantes que se comunicam entre si, aprendendo juntos, criando juntos, interagindo inclusive com o público. As gerações mais novas contribuem com o uso da tecnologia, os mais idosos trazem suas vivências e depoimentos sobre personagens que vêm sendo homenageados, há intensa troca sobre uso de técnicas e ideias. Facilitar a interação do público com essa convergência de artistas muito talentosos tem sido muito inspirador.

Pelo pensamento orgânico da galeria graças à intensa interação com os artistas, tendo um proprietário artista, a possibilidade de inovação é uma grande força, e isso foi transformador para agir rapidamente no advento da pandemia e aprender a se reinventar.

Outro ponto importante é a preocupação em diminuir a distância entre espectador e obras de arte, de forma a ampliar o público fruidor, focando em formas de desmistificar a extrema elitização das artes, dando também voz a artistas sem tantos atributos comumente valorizados nessa indústria, como reconhecimentos prévios, possibilitando criar um modelo de ganho para o artista menos conhecido e novos públicos. Esses artistas, convivendo com os artistas mais experientes da galeria, têm um crescimento bem mais rápido e suas obras tendem a se valorizar em um futuro próximo. A intenção é que todo indivíduo possa ter obras de arte em sua casa e fruí-las.

Artsoul: Gostaríamos de saber algumas das suas indicações de filmes, séries, livros e/ou podcasts para o público acessar e se informar sobre arte.

Isabela Simões: Todos os nossos catálogos têm textos curatoriais sobre o tema das exposições, estão disponíveis no site e recomendo a leitura. Há convidados que escrevem de forma interdisciplinar com a arte, como biólogos sobre ecologia, sexólogos sobre erotismo, além de textos sobre a obra e vida dos diversos homenageados com Goeldi, Cildo Meireles, Katie van Scherpenberg, Zeka Araújo, Clarice Lispector.

As biografias de artistas famosos em filmes são muito interessantes e são inúmeras, podendo ser escolhidas de acordo com o gosto em relação às suas obras: Basquiat, Modigliani, Van Gogh, Frida, Rivera, Klimt, Artemisia, Cezanne, Georgia O’Keefe, Polock, Dali, Picasso, Bacon, Toulouse-Lautrec, El Greco, Goya, Camille Claudel, Rodin, Vermeer, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Munch, Caravaggio, Rembrant, Andy Warhol, Gauguin, Escher, Turner…há informações sobre vários no site https://www.imdb.com/list/ls063161091/

A dama dourada é um filme que toca em um tema particularmente importante para a humanidade: a justiça de devolver o que foi roubado pelo sistema nazista para os descendentes dos judeus mortos na Segunda Guerra Mundial. Caçadores de obras primas também é sobre o tema.

Mi obra maestra é um filme argentino engraçadíssimo, que trata da decadência de um artista e como foi colocado em evidência de novo.

Meia noite em Paris, o personagem principal retorna aos anos 20 e convive com diversos artistas.

Há entrevistas com artistas muito interessantes em diversos sites institucionais, como o da Tate Modern. Os vídeos do Instituto Moreira Salles são também muito inspiradores.

Quanto a livros sobre arte, qualquer um do Frederico Morais, do Fernando Cocchiarale e do Paulo Herkenhoff vai certamente ampliar seus horizontes sobre a arte brasileira. E os de Giulio Carlo Argan sobre os movimentos de arte.

As biografias também são inúmeras, para todos os gostos.

Uma forma muito agradável de aprender sobre arte é frequentar um curso online. A Galeria Zagut tem cursos sobre história da arte com uma visão bem contemporânea com Carlos Taveira. O Parque Lage tem cursos maravilhosos. Não perco nenhum de Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale. O MASP tem opções das mais variadas, o MAC-SP tem cursos sensacionais. Muitas instituições se abriram para essa possibilidade.


Entrevista concedida em fevereiro/2022

Victoria Louise é jornalista e produtora cultural, formada em Crítica e Curadoria e Gestão Cultural pela PUC-SP

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