
Vista da exposição “FAAP na coleção do MAM: a formação do artista”. Foto: Estúdio Em Obra/MAM São Paulo.

O que nomes como Carmela Gross, Leda Catunda, Mauro Restiffe, Lucas Bambozzi e Vik Muniz têm em comum? Alguns podem responder que estes são artistas provocadores, que marcam diferentes gerações da arte brasileira. Ou até dizer que cada um deles desenvolve uma linguagem artística a partir de materiais e mídias específicas. Ambas as respostas estão corretas. Mas há, ainda, uma semelhança mais particular: todos eles passaram pela Fundação Armando Álvares Penteado, a FAAP. E mais: todos têm obras no acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
É desse cruzamento institucional que surge a exposição “FAAP na coleção do MAM: a formação do artista”, em cartaz no tradicional edifício da Rua Alagoas, n° 903. Curada por Cauê Alves e Marcos Moraes, a mostra reúne cerca de 160 trabalhos de 85 artistas e tem como ponto de partida o papel e a presença do ensino de artes visuais na universidade. Com foco no aspecto experimental e transgressor característico dos alunos durante o período da faculdade, mas também na postura acolhedora dos artistas-professores, a seleção é organizada em três núcleos e percorre seis décadas dos cursos de bacharelado e licenciatura da FAAP, além dos quase 30 anos da abertura de seu programa de residência artística em parceria com a Cité des Arts, em Paris.

No primeiro núcleo, dedicado aos estudantes, são apresentadas obras desenvolvidas originalmente no ambiente pedagógico, depois afirmadas no circuito institucional. Neste eixo, há trabalhos como “Todos os rios” (1989) e “Cheio, Vazio” (1993), de José Leonilson (1957-1993), artista que expressou suas emoções intensamente ao tratar de temas como o amor, a perda, a solidão e a aids, doença que o acometeu no início da década de 90.
Nesse mesmo conjunto de obras, a presença de Mônica Nador traz um contraponto interessante aos demais trabalhos. Sua trajetória é marcada por uma ruptura: após se formar na FAAP e na Universidade de São Paulo e adentrar o mercado profissional, a artista percebeu o quão elitista e excludente o sistema das artes poderia ser, frequentemente concentrado em galerias, colecionadores e públicos restritos. Desconfortável, ela decidiu partir para trabalhar com inclusão social, aproximando a comunidade local do fazer artístico. No início dos anos 2000, instalou-se no bairro do Jardim Miriam, na zona sul de São Paulo, e criou o JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube), um espaço voltado à produção coletiva, à formação artística e à convivência.
Na exposição, seu trabalho lembra que o percurso artístico não precisa culminar nos espaços mais tradicionais da cultura. A formação pode servir, também, para questionar os modos de produzir e viver a cultura.

O segundo núcleo, dedicado aos professores, chama a atenção para o papel dos artistas-docentes no desenvolvimento de novas gerações. Em escolas de arte, muitos deles chegam à sala de aula com questões provocadoras, que instigam novas práticas e trocas de experiências. É o caso de Regina Silveira, cuja produção, marcada pelo uso de sombras distorcidas, ilusões ópticas e jogos de perspectiva, redefiniu a relação entre imagem e espaço.
Também aparecem nomes como Nelson Leirner, Sandra Cinto, Claudio Mubarac, Paulo Pasta, Lucia Koch e José Spaniol, reforçando que um curso não se organiza em torno de um único modelo estético, mas da convivência entre perspectivas e saberes diversos. Parte do aprendizado acontece pela observação dos modos de pesquisa e do olhar crítico que cada artista-professor desenvolve diante do próprio trabalho. Em muitos casos, o convívio com um professor marcante repercute por décadas na produção de um artista.
Já o terceiro núcleo, voltado aos residentes, amplia a ideia de uma formação para além do diploma. Desde 1997, a FAAP mantém um estúdio na Cité Internationale des Arts, em Paris, iniciativa que permite desenvolver pesquisas passando pelas experiências de deslocamento, imersão e troca em um contexto internacional. Além disso, a instituição consolidou programas de residência em São Paulo, conectando a produção local e o intercâmbio internacional.
Uma das obras exibidas neste espaço é “Mapa-múndi político – escala 1:1”, de Marcius Galan, em que o quadro é tomado por um retângulo vermelho, abaixo do qual está escrito seu título. Para criar representações geográficas em escalas reduzidas, a cartografia precisa utilizar-se de generalizações. Mas no caso de Galan, com a escala em tamanho real (1:1), o mapa é sua própria divisa. Suas bordas marcam as fronteiras, não vemos nada fora delas. Trata-se de um mapa-limite.

Junto a outros trabalhos, esse eixo evidencia como o processo de formação é contínuo, ao manter contato, ao longo dos anos, com outras cidades, contextos e modos de vida. A partir daí, é possível pensar o papel de outras instituições de ensino. Ao longo do século 20 e início do século 21, diferentes escolas e centros de formação ajudaram a estruturar gerações inteiras.
No Rio de Janeiro, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage talvez seja o exemplo mais emblemático. Nos anos 1970 e 1980, o espaço se consolidou como ambiente de liberdade experimental e renovação estética em meio ao processo de abertura política do país. Por ali passaram nomes como Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Daniel Senise, Luiz Zerbini e a própria Leda Catunda, formada também pela FAAP. Além disso, o espaço funcionou como catalisador de toda uma cena, tendo sediado a histórica exposição Como Vai Você, Geração 80?, em 1984.
De volta a São Paulo, instituições como a Belas Artes também tiveram papel importante em trajetórias contemporâneas. Jaime Lauriano, Raphael Escobar e a curadora Isabella Rjeille, entre outros, passaram pelo centro universitário, no qual o repertório histórico, o debate e o acesso técnico dialogam com as urgências do presente. Neste caso, são artistas cujas obras enfrentam questões formais e estéticas, mas também temas como colonialismo, violência de Estado, desigualdade urbana e disputas de memória.
A PUC-SP, por sua vez, embora não seja uma escola de artes visuais nos moldes tradicionais, teve relevância decisiva na formação intelectual de artistas e trabalhadores da cultura. A instituição foi pioneira no Brasil ao oferecer um curso de bacharelado em história, crítica e curadoria, entendendo que a formação nem sempre acontece apenas em ateliês ou cursos práticos. Muitas vezes, ela se dá no encontro com o pensamento interdisciplinar.
No fim, a trajetória de um artista se forma, entre outras coisas, na relação que estabelece com as instituições. Às vezes para permanecer nelas, às vezes para transformá-las, às vezes para criar outras.
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