
Segunda Série: OBNM:01, de Guto Neves. Disponível no site da Artsoul.
Há um clichê persistente que reveste a criação artística de uma aura romântica, isolando o criador em cenários bucólicos, distantes do ruído do mundo. Guto Neves recusa esse caminho. Diante de convites que sugerem o isolamento como combustível criativo, sua resposta é pragmática: “Meu processo não opera dessa maneira.” A engrenagem de seu trabalho se move na fricção do cotidiano urbano.
O verdadeiro estopim de sua produção está na vivência diária: na subversão da forma e da função, inspirada pelo conceito japonês mitate, ligado à arte de enxergar um objeto como outra coisa, quando o artista se depara com materiais e situações do cotidiano; e no diálogo com a paisagem concreta de São Paulo, robusta e vertical. O estalo criativo surge no intervalo do dia a dia urbano, não na vastidão da paisagem natural. Neves opera imerso na pulsação da metrópole, e é nessa tensão que suas obras tomam forma.

Não é necessário rastrear os primeiros anos de formação de Guto Neves para compreender suas esculturas atuais. Ainda assim, reconhecer essa linha de continuidade ajuda a ampliar a compreensão de sua produção.
Sua vinda para São Paulo, aos dezoito anos, teve como ponto de partida os estudos em Desenho Industrial. Embora a rigidez técnica e as demandas utilitárias do curso tenham provocado o desejo de trancar a faculdade e buscar linguagens mais livres, o interesse pela construção do objeto e pela tridimensionalidade permaneceu central. Dessa formação permaneceu um fio ainda presente em sua poética: a investigação em torno do manuseio, do peso e da proporção da matéria em relação ao corpo.
Esse raciocínio estrutural encontrou vazão na alta joalheria. Na microescala dos metais preciosos, Neves desenvolveu uma pesquisa fundamentada no encaixe e no contraste de materiais. Sua primeira coleção, À Margem (2010), já explicitava essa busca ao colocar pregos de ferro em diálogo direto com diamantes.
A transição da escala milimétrica da joia para a escala monumental do bloco de mármore não representou uma ruptura conceitual, mas uma mudança de escala. O norte de sua produção continua o mesmo: criar objetos que solicitam manipulação, que dialogam com a escala do corpo e que exigem uma compreensão exata dos limites físicos da matéria. O raciocínio tridimensional que organizava a composição de uma joia é o mesmo que hoje articula uma rocha de grandes proporções no espaço, preservando o rigor técnico como ferramenta de expressão estética.


No desenvolvimento das esculturas de Neves, o fazer artesanal tradicional do ateliê se alia à tecnologia industrial. A produção de suas obras envolve o uso de maquinário de alta precisão em marmorarias, especialmente o corte por jato d’água de altíssima pressão. Esse recurso técnico permite uma exatidão inalcançável com o cinzel tradicional. A máquina executa cortes que transformam a rocha bruta em planos geométricos puros.


Essa precisão cirúrgica fundamenta duas metáforas que podem ser encontradas em seu trabalho: o origami e a herança neoconcreta. A primeira diz respeito à subversão visual do material. Quando blocos maciços de mármore são cortados e acoplados com tamanha exatidão, eles criam a ilusão de dobras finas e consecutivas, como se o espectador estivesse diante de uma folha de papel sulfite articulada pelas mãos de um dobrador. Há uma tensão no fato de uma matéria historicamente associada à rigidez e à monumentalidade transmitir a sensação de leveza e de maleabilidade do papel.
A segunda conecta o trabalho de Neves à tradição construtivista e neoconcreta brasileira. Suas linhas marcadas, cortes retos e intervalos precisos encontram eco nas investigações geométricas que marcaram a arte nacional em meados do século XX. O corte e o encaixe não funcionam aqui como meros ornamentos ou acabamentos superficiais, mas como a própria estrutura da obra. Ao recortar o bloco, o artista não busca apenas a forma preenchida, mas a ativação do vazio, organizando o espaço circundante e conduzindo o olhar do espectador por um ritmo de presenças e ausências. Como sintetiza o artista: “A precisão é o que une os dois pontos.”
O valor estético do mármore é comumente associado à singularidade de seus desenhos naturais: os veios coloridos e os padrões irregulares criados pela sedimentação geológica ao longo de milênios. A pesquisa atual de Guto Neves caminha em outra direção. Hoje, seu olhar recai sobre superfícies homogêneas e puras, como o mármore de Carrara sem veios ou a profundidade uniforme do negro absoluto. A escolha não se baseia no desejo de neutralizar a pedra, mas na intenção de priorizar a volumetria e o desenho espacial.
Sem a distração visual causada pelos veios orgânicos, o plano geométrico se impõe. Recuperando a imagem da folha de papel branco, a escultura limpa permite que o verdadeiro acabamento da peça ocorra na transição entre o dia e a noite, por meio do jogo de luz e sombra. A intenção é fazer desse jogo de luz o elemento que esculpe os volumes aos olhos do observador, acentuando as fendas e suavizando as superfícies retas de acordo com o deslocamento do espectador no espaço.
Neves também direciona agora sua pesquisa para tensionar o mármore por meio de sua junção com o bronze. Esse movimento traz à tona um diálogo com seu repertório da joalheria. Nesse processo, o artista aplica o conhecimento técnico sobre fundição e comportamento dos metais à escala da escultura monumental. O encontro entre a opacidade densa e mineral do mármore e a superfície reflexiva do bronze fundido, passível de oxidação e desgaste, promete expandir o campo tátil de suas obras. A introdução do metal não visa ao adorno, mas ao estabelecimento de um novo diálogo de pesos, temperaturas e resistências mecânicas em um mesmo corpo escultórico.
As esculturas de Guto Neves não ignoram a geografia do lugar em que são produzidas. Pelo contrário, propõem, a partir dela, uma leitura crítica e morfológica. O artista propõe uma distinção entre as paisagens urbanas brasileiras que contribui para a compreensão de suas obras. “Enquanto o Rio de Janeiro, por exemplo, se apresenta como uma linha horizontal, orgânica e fluida, São Paulo se configura como uma estrutura vertical, geometricamente dura e predominantemente construída em linhas retas, na qual o concreto assume o protagonismo espacial.” Suas esculturas são fruto direto dessa rigidez paulistana.

As peças de Neves incorporam a sensação de adensamento da metrópole. Como afirma o artista: “Eu gosto dessa densidade da matéria do mármore, que é uma coisa tensa.” O artista descreve a experiência de viver na cidade como um “sufocar que faz entrar em ebulição”, estado que impulsiona a criação. Ao chegarem a coleções e espaços expositivos, essas obras pesadas e densas encontram seu repouso e sua própria gravidade. A solidez do mármore organiza o entorno não pelo excesso, mas pelo equilíbrio de suas tensões internas.
O trabalho de Guto Neves se consolida como uma prática que utiliza o peso e o rigor da matéria para delimitar, acolher e estruturar o vazio no espaço habitado.
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