“CORES DO MUNDO” TRAZ COR AO ESPAÇO URBANO E INCLUI ARTISTAS REFUGIADOS NO MERCADO DE TRABALHO

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A INICIATIVA

Cores do Mundo foi idealizado pela ONG Estou Refugiado, criada em 2015. A iniciativa prevê a realização de pinturas em tapumes e muros pela cidade de São Paulo, numa intenção de trazer cor e movimento ao cinza do espaço urbano. Uma das principais motivações é valorizar a arte e a cultura que os refugiados desenvolvem em seus trabalhos, o que reforça a diversidade e o diálogo intercultural. 

A ONG Estou Refugiado atua desde 2015 e nasceu da convicção de que a questão do refúgio estava envolta em uma densa nuvem de desinformação e preconceito

Pensando então nas barreiras pelas quais passa um cidadão de outro país que não tem domínio do idioma, não tem bases financeiras sólidas e menos ainda, a vivência profissional no novo país, a ONG elabora ações que auxiliam os refugiados – ou  solicitantes da condição de refúgio – , na inserção no mercado de trabalho.

A ONG se guia a partir de três pilares: urbana, humanista e econômica. A primeira parte do princípio de transformar as cidades com narrativas culturais que influenciem os frequentadores do espaço a conhecer as culturas africanas, como aponta um dos artistas, Paulo Chavonga, De certa forma, estou divulgando a África e o meu país. As pessoas que andarilham pelas ruas precisam ter acesso a um novo olhar sobre o continente africano.

Artistas estrangeiros refugiados no Brasil, com apoio da ONG Estou Refugiado, estão pintando quadros e painéis coloridos em muros e tapumes da Avenida Rebouças e outras ruas do bairro Pinheiros, em São Paulo. Na foto, da esq. para dir., os artistas Shambuyi Wetu, Paulo Chavonga e Lavi Kasongo Foto: FELIPE RAU/ESTADAO

O pilar humanitário se refere ao caráter de diversidade e inclusão, estimulando o diálogo entre culturas e narrativas, uma vez que o olhar destes artistas estimula uma nova visão que quebra com o estereótipo e o preconceito comum acerca de culturas vizinhas.

O último pilar, o econômico, diz respeito às ações de inserção no mercado de trabalho, dado que os projetos do Cores do Mundo incluem cachê para os artistas, além de entender a própria divulgação das obras como um estímulo à produtividade e reconhecimento do trabalho.


Cores do Mundo realiza ação na Rebouças com a artista brasileira Soberana Ziza e o artista angolano Paulo Chavonga – Imagem: Página oficial da ONG Estou Refugiado no Instagram 

PARCERIAS 

As parcerias acontecem quando construtoras, arquitetos, engenheiros, empresários etc. cedem os tapumes e paredes para os artistas da ONG utilizarem como espaço de arte. São elaborados projetos para o espaço e então, começam a pintar.

Até agora, “Cores do Mundo” contou com parcerias como a empresa Pedra Forte e seus 450 metros de tapumes na Avenida Rebouças, em São Paulo. Lavi Israel e Shambuya Wetu, ambos nascidos na República Democrática do Congo, foram os artistas responsáveis por este projeto. Lavi Israel também foi o responsável por colorir os corredores externos da Dengo, fábrica de chocolates, em maio deste ano. Segundo Emilie, a gerente de pesquisas e desenvolvimento da Dengo, “o corredor estava muito triste, a arte deu vida ao espaço e parece que todos os dias vamos descobrindo novos detalhes da pintura”. 

Outro painel já finalizado foi o da esquina da Rua Artur de Azevedo com a Rua Antônio Bicudo. Nele, foi feita a obra “Mães Africanas” do artista angolano Paulo Chavonga. O artista está há 4 anos no Brasil e participa da exposição em cartaz “Rostos Invisíveis da Imigração no Brasil” do programa de Residência Artística 2021 do Museu da Imigração. 

O mais recente projeto contou com a participação de Paulo Chavonga e da artista brasileira Soberana Ziza. Esta foi uma ação pensada não só na troca entre os artistas refugiados, mas também na troca com artistas brasileiros. Juntos, ocuparam a Rua Lisboa com a Rebouças, em uma parceria com a construtora Pedra Forte. “Em uma simetria perfeita, [os artistas] transformaram nosso canteiro de obras em galeria de arte. Que essa parceria traga ainda mais união entre brasileiros e estrangeiros, homens e mulheres, e que, através da cultura, a igualdade possa se tornar, ainda mais, uma constante”, publicou a construtora.


Projeto realizado na Rebouças com Soberana Ziza e Paulo Chavonga – Imagem: Página oficial da ONG Estou Refugiado no Instagram 

Acervos em locais públicos e NFTs

O projeto prevê a expansão para outras cidades, como é o caso da ação educativa em comemoração do Dia das Crianças realizada no último mês de outubro em Taboão da Serra (SP) com alunos de uma creche no Jardim Saint Moritz, sob orientação dos artistas Paulo Chavonga e Lavi Israel. 

A expansão das pinturas em tapumes em outras cidades é um objetivo da ONG para ampliar seu campo de influência educativa e encontrar mais refugiados que possam se interessar em integrar os projetos.

Sendo os tapumes objetos móveis, retirados quando as construções são finalizadas, a organização da ONG pensou na itinerância dessas obras em parques e espaços públicos para dar continuidade a este acervo. 

Uma outra ação que a gente vai fazer é digitalizar as fotos desses painéis e transformá-los em NFT, fazer de repente um e-commerce e uma galeria virtual de artistas refugiados que vão comercializar essas obras em bitcoin, na moeda virtual”, conta Luciana Capobianco, fundadora da ONG Estou Refugiado, em setembro.
Agora neste mês de novembro, as peças digitalizadas já estão disponíveis na OpenSea, marketplace dedicado a projetos em NFT para serem ofertadas por compradores em moedas digitais.


Uma das obras de Paulo Chavonga na Avenida Rebouças em São Paulo pelo projeto Cores do Mundo – Imagem: Página oficial do artista no Instagram

Outras ações da ONG Estou Refugiado

A ONG, atuante desde 2015, está em constante atividade e já realizou alguns objetivos importantes para os refugiados que assistem, como divulgar seus currículos e conseguir a contratação em empresas como a Fundação Bienal de São Paulo, a Dengo Chocolates e o Hotel Ibis Budget. Um Crowdfunding para bilhetes de ônibus foi criado para auxiliar estes trabalhadores no deslocamento ao trabalho e um teste social no Tinder foi feito para medir o preconceito social com os refugiados. Esta última ação, em especial, demonstrou como a palavra “refugiado” pode trazer uma concepção negativa ao ponto de impedir que conexões sociais e afetivas sejam feitas com outras pessoas. Quando colocada na descrição do perfil a palavra “estrangeiro”, o participante Alphonse conseguiu 30 matches, ao contrário de quando seu perfil usava o termo “refugiado”, quando conseguiu apenas 3 matches no mesmo intervalo de tempo. 

São iniciativas como essas apresentadas aqui que demonstram a importância social de ações afirmativas que maximizem as experiências sociais e profissionais dos grupos marginalizados. Foi nesse sentido que a ONG Estou Refugiado recebeu o Selo de Direitos Humanos e Diversidade da Prefeitura Municipal de São Paulo em 2020.


Victoria Louise é crítica e produtora cultural, formada em Crítica e Curadoria e Gestão Cultural pela PUC-SP.


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