
Da esquerda para a direita: Rosana Paulino, Diane Lima e Adriana Varejão. Foto: Igor Furtado / Fundação Bienal de São Paulo
Desde sua inauguração, em 1895, a Bienal de Veneza se consolidou como uma das principais exposições de arte do mundo. O evento funciona como uma espécie de termômetro do que é produzido globalmente, evidenciando discussões, tendências e pesquisas artísticas. Em 2026, ela chega à sua 61ª edição sob o título “In Minor Keys” (“Em tons menores”), curada pela camaronesa-suíça Koyo Kouoh, que faleceu em maio de 2025. Seu projeto foi continuado por uma equipe de profissionais selecionada previamente.
A mostra internacional reúne cerca de 110 participantes, dentre os quais estão coletivos e organizações, para refletir sobre os encontros que temos ao longo da vida, o que Kouoh chamava de “geografia relacional”. Já nos pavilhões nacionais, cada país participante define, de forma autônoma, os artistas, o projeto e a curadoria de sua representação.
A participação do Brasil na Bienal de Veneza em 2026 traz a mostra “Comigo Ninguém Pode”, com curadoria de Diane Lima e expografia assinada por Daniela Thomas. O título faz alusão ao nome popular da Dieffenbachia, planta cuja seiva paralisa as cordas vocais, conhecida por ser, ao mesmo tempo, símbolo de proteção e toxicidade. Presente em muitas casas, janelas e terreiros, a espécie vegetal protege os ambientes e carrega o risco de seu veneno. Essa ambiguidade é trabalhada por meio da produção de Rosana Paulino e Adriana Varejão, artistas que partem de trajetórias distintas, mas coincidem na revisão crítica da história oficial.

Rosana Paulino construiu sua pesquisa a partir de discussões sobre o corpo e a memória, investigando como a mulher negra foi representada ao longo dos anos. Em seus trabalhos, imagens de arquivos coloniais e científicos são costuradas, fragmentadas e reorganizadas. Adriana Varejão, por sua vez, se utiliza da materialidade dos azulejos portugueses para refletir sobre a violência e a brutalidade da colonização. Em suas obras, as peças de azulejaria são “rasgadas”, revelando camadas internas que remetem à carne. São estruturas em que a beleza e o horror não se separam.
Firmadas como duas das principais artistas plásticas do país, a projeção internacional de Rosana Paulino e Adriana Varejão também se reflete na presença de suas obras em acervos de referência. Paulino integra coleções como as do MoMA, da Tate Modern e do Centre Pompidou. Varejão, por sua vez, tem obras em instituições como Tate Modern, Metropolitan Museum of Art, Guggenheim, Museo Reina Sofía e MASP. Em Veneza, seus trabalhos já consagrados serão exibidos junto a outros inéditos.
No imaginário popular, a planta comigo-ninguém-pode afasta energias negativas. Cientificamente, suas toxinas funcionam como mecanismo de defesa contra predadores e pragas. Na exposição, inaugurada em 9 de maio de 2026, essa folhagem é usada figurativamente para explorar como os traumas coloniais podem ser processados por meio da fé e de vivências pessoais.
Em uma edição marcada por simbolismos, o pavilhão brasileiro será composto inteiramente por figuras femininas, com Diane Lima sendo a primeira mulher negra a assumir a curadoria do espaço em Veneza — escolha que atravessa o próprio projeto conceitual. A mostra é definida por Lima como um “estado de espírito”, ou seja, o intuito não é apenas representar o Brasil, mas afirmar uma posição diante de seu atual momento político e cultural.

Para isso, o espaço expográfico passou por um processo de recuperação arquitetônica. Projetado em 1964 por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral, o edifício modernista recebeu desde reparos estruturais até a restituição de elementos originais da planta. O processo de recuperação do prédio foi conduzido pela Fundação Bienal de São Paulo em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores.
Agora, o pavilhão abriga novas laterais de vidro, que possibilitam a passagem entre o espaço fechado e o jardim. Essa conexão entre as áreas internas e externas permitiu a instalação de duas grandes esculturas inéditas de Paulino e Varejão, feitas, respectivamente, em bronze e cerâmica. Assim, a ocupação se estende para além das salas expositivas e incorpora o entorno.
Na fachada, Varejão expõe uma estrutura escura atravessada por recortes brancos em formato de flores e um portal revestido de azulejos azuis e brancos em espiral. Mais uma vez, o elemento português aparece como ponto de partida para discutir as marcas da colonização portuguesa no Brasil. Nos corredores de entrada, placas em diferentes tonalidades alternam entre azuis mais claros e vermelhos intensos, enquanto figuras barrocas parecem pressionar e distorcer a superfície.
No interior do pavilhão, a instalação de Rosana Paulino ocupa o espaço com estruturas metálicas enferrujadas distribuídas sobre areia e cascalho, além de retratos suspensos de mulheres negras impressos em tecido translúcido. Esculturas em cerâmica e porcelana dividem o ambiente com formas orgânicas que crescem pelo chão, ampliando a presença de temas ligados à memória, ao corpo e à ancestralidade.




A presença do Brasil na Bienal de Veneza se estende à mostra principal, onde o país é representado por três artistas: Ayrson Heráclito, Eustáquio Neves e Dan Lie. Heráclito, que já integrou a exposição internacional da Bienal em 2017, desenvolve instalações em diálogo com referências culturais afro-atlânticas e práticas ligadas à memória, uma investigação sobre identidade que também aparece no trabalho de Eustáquio Neves. Formado inicialmente como químico, o artista constrói imagens por meio de intervenções e experimentações com negativos, expandindo as possibilidades das imagens analógicas.


Dan Lie, por outro lado, apresenta uma pesquisa voltada às transformações orgânicas, acompanhando processos naturais que envolvem crescimento, decomposição e renovação de diferentes materiais.

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