
Beatriz Milhazes. Foto: Leandro Tumenas/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Divulgação)
Estar diante de uma obra de Beatriz Milhazes é sempre uma experiência singular. É como assistir a uma aula silenciosa sobre composição, ritmo e construção visual. Mesmo o olhar menos treinado percebe imediatamente a potência visual de suas pinturas. No entanto, ao dedicar mais tempo à contemplação, o que inicialmente pode parecer um excesso ou um caos de cores começa a revelar uma estrutura rigorosamente equilibrada, como engrenagens que operam com precisão dentro de um mecanismo complexo.

Imagine, então, esse efeito ampliado: uma grande sala de museu, ocupada por dezenas de obras que dialogam entre si, justapostas, tensionadas, em contraponto. É nesse conjunto que o padrão sofisticado se manifesta plenamente. O aparente caos inicial transforma-se em linguagem organizada, em sistema visual coeso, fruto de décadas de elaboração e refinamento.
É essa experiência ampliada que a artista oferece ao público em Salvador na exposição 100 Sóis, em cartaz no Museu de Arte da Bahia. Em diálogo com o curador Tiago Mesquita, Milhazes concebeu uma mostra que reúne marcos de sua produção ao longo de três décadas. A exposição é a evidência de uma carreira dedicada à arte, que não perde o frescor nem a intensidade.
Ao lado de pinturas e colagens emblemáticas, 100 Sóis apresenta uma instalação concebida especialmente para o espaço do museu — um edifício neocolonial da década de 1920. Nessa intervenção, a artista ocupa a arquitetura com luz e cor por meio de formas translúcidas aplicadas às janelas.

Beatriz Milhazes (Rio de Janeiro, 1960) é uma das artistas brasileiras de maior projeção internacional nas últimas décadas. Formada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, integrou a chamada “Geração 80”, movimento que marcou o renovado interesse pela pintura no Brasil.
No Parque Lage, foi aluna de Charles Watson, influência que a própria artista reconhece como determinante em sua formação. Inserida em um ambiente de intensa experimentação e debate, Milhazes consolidou ali as bases de uma linguagem própria e consistente, articulando referências do modernismo brasileiro a elementos da cultura popular.
A partir dos anos 1990, Beatriz Milhazes desenvolveu e refinou a técnica do monotransfer, procedimento que se tornaria uma marca distintiva de sua produção. Em vez de aplicar a tinta diretamente sobre a tela, a artista pinta formas e padrões com tinta acrílica sobre uma superfície plástica lisa. Após a secagem, essas formas são cuidadosamente destacadas e transferidas para a tela.

O processo combina pintura, colagem e monotipia, permitindo que cada elemento preserve contornos definidos e cores saturadas. Ao mesmo tempo, a sobreposição dessas camadas constrói uma composição de grande complexidade estrutural.
A obra de Beatriz Milhazes integra importantes coleções institucionais, como o Museum of Modern Art (MoMA) e a Tate Modern, além de ter sido apresentada em exposições de relevância global, como a Bienal de Veneza. No Brasil, a artista realizou mostras de grande repercussão em instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, reforçando sua posição de destaque tanto no cenário nacional quanto internacional.
Salvador vive um momento muito legal para as artes plásticas e para a cultura de uma forma geral.
Tiago Mesquita, curador
Em entrevista à Artsoul, o curador Tiago Mesquita destacou que a realização da mostra em Salvador não foi circunstancial, mas sim resultado de uma convergência simbólica e cultural:
“A Beatriz nunca tinha feito uma individual em Salvador e ela gostaria muito. Ela tem uma relação familiar com Salvador do lado do pai: O nome Milhazes vem da cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. E Salvador vive um momento muito legal para as artes plásticas e para a cultura de uma forma geral. A gente queria participar desse debate também, desse momento interessante e trazer o melhor do trabalho, com pinturas importantes e históricas da trajetória da Beatriz, além de outras linguagens que contribuem para essa circulação de ideias.”
A escolha pelo Museu de Arte da Bahia reforça esse gesto. Em diálogo com a arquitetura neocolonial do edifício e com a luz própria da cidade, a intervenção nas janelas do espaço expositivo estabelece uma relação direta com o entorno. Como afirma Tiago Mesquita, trata-se de “uma relação mais direta e evidente com a cidade, uma relação tanto de dentro pra fora — quando o sol e a atmosfera colorem o ambiente — quanto de fora pra dentro, quando as cores da exposição chegam na cidade.”

Beatriz Milhazes: 100 Sóis
Museu de Arte da Bahia – MAB | Av. Sete de Setembro, 2340 – Salvador
Horário de visitação: terça a domingo, das 10h às 18h
Período expositivo: 29 de janeiro a 26 de abril de 2026
Entrada gratuita
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