Alayde Alves fala dos papéis do colecionador no circuito de arte brasileira

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Alayde Alves é formada em administração de empresas pela FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado e pós-graduada em Arte: Crítica e Curadoria pela PUC-SP. Suas ações múltiplas no sistema das artes visuais ativam e fomentam projetos independentes e de vanguarda. Alayde gosta de atuar criando interlocuções entre artistas, curadores, galeristas e colecionadores. Em 2013, fundou o Art’emRede, grupo de formação de público e de colecionadores que oferece diferentes programas como palestras, cursos livres, visitas a exposições, ateliês de artistas e galerias, sempre com acompanhamento de especialistas.

Alayde Alves. 

Artsoul: Tudo tem um começo. Poderia começar nos contando sua história com a arte? Teve um momento especial de introdução nesse universo? 

Alayde Alves: Antes de mais nada gostaria de agradecer a oportunidade de poder falar para o público do ArtSoul, uma plataforma que acredito e respeito. Quando olho para trás vejo que desde sempre tive um olhar para a estética, seja de uma flor, um gesto, um contraste de cores nos objetos. Por volta dos anos 90, em uma dessas situações inesperadas que a vida nos proporciona, acabei conhecendo o Júlio Louzada, editor de um anuário de obras vendidas em leilões. Perguntei-lhe como poderia me aproximar das artes. Ele recomendou frequentar um leilão específico, só que era de objetos antigos.

Logo depois, em uma viagem, conheci a curadora e pesquisadora Lisette Lagnado – como a conhecia de nome e também pela exposição que tinha acabado de curar: São Tantas as Verdades, Leonilson, fiz a mesma pergunta. Ela sugeriu que eu começasse a frequentar galerias. 

Entre as galerias que fui visitar estava a Fortes [ D’Aloia & Gabriel ], momento em que a artista Beatriz Milhazes estava começando a ter um reconhecimento maior do mercado. Numa das visitas à galeria me ofereceram um trabalho dela. Na época tive que escolher entre um sofá que eu precisava para a casa que tinha acabado de mudar ou a obra. Fiquei com o sofá. Por incrível que pareça não me arrependo, pois ali decidi entrar neste incrível universo das artes pelo conhecimento que é muito mais interessante e rico do que simplesmente o mercado, que também tem sua importância, mas é apenas uma parte do todo.

Shirley Paes Leme e Alayde Alves, 2013. 

Eu visitava as galerias sempre com muita restrição, pois são ambientes pensados para a venda, mas queria mais, conversar e aprender. Logo comecei a frequentar cursos com o curador Agnaldo Farias, na Galeria Nara Roesler, depois no Instituto Tomie Ohtake e também me inscrevi  no “histórico” curso de História da Arte do Rodrigo Naves. Mesmo assim, como ainda não era colecionadora, não tinha um ambiente ao qual pertencia dentro do sistema das artes.

Foi então, que em outra “conspiração do universo”, um dia, perdida, procurando o local de um seminário coordenado pelo professor Luis Renato Martins (ECA) conheci a artista e professora Shirley Paes Leme, por quem tenho imensa gratidão. Ela, por alguns anos me convidou para seminários, aberturas de exposições e outros programas, sempre me explicando sobre o sistema – ensinando, sem qualquer julgamento. Foi com ela que também comecei a colecionar.

Artsoul: Vamos falar do Art’emRede? De onde surge a ideia de criar o grupo? 

AA: Surge da minha vontade de aprender, como colecionadora, que é bem diferente do conteúdo oferecido aos artistas, críticos, curadores e pesquisadores. Não existe um curso de formação para público, tudo se restringe a visitas às exposições, seus textos de apresentação e  o acompanhamento do educativo. Para colecionadores – lembrando que com orçamento para compras – você tem contatos com as galerias sempre com o propósito de venda. 

Com essa vontade de aprender, de pertencer ao sistema, participei de um encontro com a curadora e professora Paula Braga, sobre Inhotim, na Casa Museu Ema Klabin. Ali percebi no seu jeito de se comunicar que poderia ser uma profissional para me ensinar, diferente dos professores só interessados em artistas ou estudiosos. 

Mas como pagar individualmente aulas semanais de duas horas para uma profissional com a formação da Paula? Resolvi montar um grupo com 6 amigas e, por um ano ou um pouco mais, fomos alunas de Paula. Nesses encontros conheci o professor Celso Favaretto e uma outra profissional, na inquietação que me acompanha e me move, vi ali uma possibilidade de criar um modelo múltiplo de aprendizado, organizando programas com diferentes profissionais, estudos, pontos de vista, para assim criarmos nosso próprio repertório. Depois de encerrarmos esse ciclo com a Paula Braga, a primeira profissional que convidei já dentro desse modelo múltiplo, foi a Mônica Tinoco – à época artista, hoje já com título de doutorado – para nos contar sobre a Bienal de Veneza e Kassel 13/2012, cada uma em sua cidade, essas exposições ocorreram simultaneamente.

Esse trabalho que faço de organização de conteúdos e dos grupos além da viabilização financeira é voluntário, o que me dá uma autonomia de criar que me caracteriza. No início de 2013 estávamos entrando no espaço onde seria um de nossos encontros- a essa altura o grupo já contava com umas 12 integrantes – quando uma mulher que esperava o ônibus no ponto ao nos ver passar perguntou se éramos um grupo da Avon, achamos a dúvida muito engraçada, mas foi a “provocação” para escolhermos um nome, ali nasceu Art’emRede.

1º Prêmio Vozes Agudas – uma parceria de trabalhos e apoios, entre o Art’emRede e o Ateliê 397 / 2020. 

Artsoul: Quais são os objetivos e missões do Art’emRede? 

AA: Sou uma pessoa subjetiva, múltipla e curiosa, definir uma missão é algo que não funciona comigo. Meu trabalho requer liberdade e uma permanente transformação, vou construindo conforme meus aprendizados e as experiências que vão acontecendo. Mas o objetivo é a formação de público e colecionadores, nessa formação ofereço conteúdos para todos os gostos e interesses, com acompanhamento dos melhores profissionais especialistas, sempre procurando desenvolver nos participantes um espírito crítico e um conhecimento com autonomia. 

Artsoul: Qual o público participante do grupo e qual papel eles desempenham no mercado de arte? 

AA: É um público diversificado, que tem em comum o interesse por artes visuais. São artistas, galeristas, consultores de galerias, professores, curadores, gestores, colecionadores, decoradores, jornalistas, além de outros profissionais. Hoje, depois de mais de 10 anos, passamos de 160 integrantes. O grupo é basicamente constituído por mulheres, são apenas 4 homens e a grande maioria tem mais de 40 anos.

Thaís Rivitti, Amir Haddad, Alayde e Cadu Ricciopo, ativação da exposição Ratos e Urubus, no CCSP. 1o encontro expositivo em que a arte contemporânea e a arte do carnaval foram apresentadas lado a lado. Exposição idealizada e financiada por Alayde, em sua comemoração de aniversário de 60 anos. 2019-2020. 

Artsoul: Em uma conversa por telefone, você me disse que colecionar não é só comprar. Poderia dizer um pouco sobre? 

AA: Comprar é um ato de consumo, se refere a produtos. Arte não é produto.

Colecionar arte é estudar, visitar, conversar com artistas, se envolver com as discussões e pesquisas, observar, fazer escolhas, ter experiências e também comprar, é um permanente aprendizado que vai se construindo, para sempre…

O que define, ao meu modo de entender um colecionador, não é ter uma grande quantidade de obras e ou de alto valor, mas estar envolvido com os pensamentos que as produções escolhidas se propõem, entender a pesquisa e, usufruir. Como tudo, quanto mais tempo e envolvimento, mais se usufrui. Considero que o colecionador de fato, tem a responsabilidade de fazer apoios, não porque o artista ou o pesquisador precisam de dinheiro, mas porque colecionar requer envolvimento.

Primeiro encontro presencial do grupo de colecionadores Brasil, Coleções em Conexão, fundado em agosto de 2020 a partir de uma conversa do  Art’emRede.

Queria complementar dizendo que um artista, um pesquisador de artes visuais, um curador, são profissionais trabalhadores como médicos, economistas, engenheiros, advogados. E, para fazerem um bom trabalho, se dedicam muito – se nós, público e colecionadores não reconhecermos o valor desse trabalho, pagando-os a altura de sua competência, não teremos profissionais bons ou corremos o risco de emigrarem.

Como podemos construir um país com educação e cultura se não valorizamos os profissionais dessas áreas? E valorizar é remunerar.

Um outro pensamento que defendo é empresas, bancos, indústrias terem artistas contratados, o trabalho de arte transforma e humaniza qualquer ambiente, introduz uma prática necessária ao cidadão, o criar.


Essa entrevista foi concedida por Alayde Alves para a Artsoul entre outubro e novembro de 2021. Todas as imagens foram cedidas pela entrevistada. 

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Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.


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