Abstracionismo e a herança para arte contemporânea

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Ignoramos as transições entre movimentos artísticos tanto quanto ignoramos as raízes das suas propostas. Se considerarmos que os artistas são profissionais sempre atentos e sensíveis sobre tudo o que se produziu e está em produção, fica claro entender a intensidade das emergências de mudança. Uma vez que se lança uma proposta nova, as reações são diversas. Seja para um caminho em comum, seja para um lado completamente oposto.

Todos sabemos que as obras de arte visuais, durante toda sua gênese e ascensão foram compostas por elementos plásticos, que pudessem ser moldados e transformados em narrativas.  

O que se colocava em pauta neste interim era a forma de representar a cena que se propunha. Seja um retrato de um integrante da nobreza na Idade Média, seja uma cena de conflitos históricos ou, até uma bela paisagem com iluminação fugaz.

É certo que novos temas e estilos surgiram a partir de habilidades desenvolvidas pelos artistas de cada geração, mas o impulso de representar os aspectos do mundo visível permaneceu imutável até o início do século XX.

Somente a partir de intenso desenvolvimento da fotografia e da produção industrial é que culminou o abalo das estruturas plásticas consolidadas até então.

Se sentindo livres para produzir a partir dos motivos que os inspiravam, que não necessariamente objetos reais, os artistas passaram a borbulhar em desafiantes invenções. É o caso da ascensão de todos os movimentos modernos da arte visual.

Aqui, nos debruçamos sobre o chamado movimento abstracionista. O desejo da abstração é o abandono completo do figurativo ao que se entendeu, na época, por abstrato. Um termo mais direcionado e mais bem aplicado neste caso seria o de “não figurativo”. Entende-se, portanto, que o figurativo era o lugar do qual alguns artistas desse momento buscavam escapar.

Impression III (Concert), 1911 – Wassily Kandinsky – imagem: Google Arts & Culture


Estes referidos artistas tornaram a pintura uma entidade independente sem relação com objetos do mundo visível, agora compostas por formas abstratas originárias da mente. Se referindo ao universal mais do que aos pontos específicos do que se observa.

Os abstracionistas são herdeiros do impressionismo, expressionismo e cubismo, pensando que estes foram os responsáveis pelo início dos novos significados para as cores e formas enquanto elementos autônomos. Nestas pesquisas, o verde já não é associado a uma árvore e o azul ao céu ensolarado da manhã. Embora estes tenham sido avanços estruturais nos conceitos de arte da época, o abstracionismo mostrou, sem hesitar, que é possível criar um universo novo a partir de elementos puros sem a inserção de figuras conhecidas.

Improvisation 26 (rowing), 1912 – Wassily Kandinsky – imagem: Google Arts & Culture

Não cabe mais à pintura a responsabilidade de nos mostrar como são as formas reais de uma árvore ou uma casa. Não nos recorremos à arte para descobrir sobre o formato dos objetos. O mundo real já é passível de observação.

O problema que os artistas nesse momento tentavam resolver era demonstrar o não-visível, o não explicável, em sensações visuais. Ir além do que se conhece.

Não se pode, porém, pensar no abstracionismo como um só movimento isolado e local como foi a arte póvera na Itália, por exemplo. A realidade é que os impulsos abstracionistas se estenderam por anos e locais diferentes. Cada qual com uma interpretação diferente, mas complementar, do que seria esse novo formato de pintura.

É impossível usar o termo abstracionismo sem falar de Wassily Kandinsky. Há, no trabalho do artista russo, a vontade de criar um mundo paralelo ao real, que seja regido por outras leis que não as objetivas e busca se orientar pelas sensações que lhe inspiram a música. Em seus escritos, Kandinsky demonstra como uma cor forte pode despertar sentimentos da mesma forma que as notas de um instrumento. O artista é considerado como um dos primeiros a expor um trabalho sem nenhum tipo de objeto reconhecível.

Escreveu sobre a importância das formas essenciais para a construção da narrativa pictórica e diz:

“ninguém nunca vai encontrar a possibilidade de pintar sem cores e linhas, mas pintar sem objetos é uma prática que existe no nosso tempo por mais de 25 anos. Os objetos podem ser introduzidos na pintura, ou não.”

 É praticamente inquestionável o argumento de independência das cores e das formas. O artista gosta de comparar também as sensações das cores com as sensações das notas musicais. Compara que cada nota e cada crescente da combinação de acordes remete a percepções muito vibrantes como tristeza, calor ou frio. As cores têm a mesma potência. Enquanto o amarelo tem a capacidade de traduzir ascensão como notas agudas de um instrumento de sopro, o azul remete à gravidade dos instrumentos baixos. E defende ainda que ninguém percebe a pintura apenas pelo olhar, mas com os cinco sentidos. Assim, todos recebemos informações através das cores que remetem a impulsos em cada um dos nossos sentidos.

Indo por um caminho muito semelhante, o artista francês Robert Delauney, percebeu a associação romântica atribuída às cores pelas técnicas de chiaroscuro construídas pelos movimentos anteriores. Escreve carta à Kandinsky em 1912 e endossa que a pesquisa do momento é a pureza da pintura. Analisa os cubistas como pintores que evoluíram ao desconstruir leis já tão consolidadas, embora tenham dado à cor um lugar secundário, em detrimento da forma que foi o elemento constitutivo do projeto cubista.

Circular forms, sun and moon, 1912-1931 – Robert Delaunay – imagem: Google Arts and Culture

Em 1913, entra em cena outra proposta do pintor russo Kasimir Malevich. Uma forma de arte chamada Suprematismo que lançou, desta forma, uma das pinturas mais radicais de todos os tempos: composta por um quadro preto num fundo branco. O público, é de se imaginar, teve grande dificuldade para assimilar este novo conteúdo. A sua atitude, porém, se justifica como um ato desesperado de libertar a arte do “lastro” que seria o mundo representacional, diz então, em uma de suas cartas:

“eu procurei refúgio na forma de um quadrado”.

Black Square, 1920 – Kasimir Malevich – Imagem: Google Arts & Culture

Os artistas foram reduzindo todos os conflitos e objetos das pinturas até que restassem os elementos constitutivos: linhas, espaço e cor. Por isso, também pode se falar em “pureza” quando falamos de abstracionismo.

Dessa vez, em grupo, os artistas Bart Van der Leck, Theo Van Doesburg e Piet Mondrian fundaram a revista De Stijl em 1917. As publicações se propunham a desenvolver exatamente essa nova arquitetura artística e relacioná-la ao caráter transformador daquele tempo.

Uma das primeiras publicações, inclusive, manifestava que “o quadrado é o símbolo da nova humanidade. O quadrado é para nós o que a cruz era para os primeiros cristãos”.

Composition I (still life), 1916 – Theo van Doesburg – Imagem: Google Arts & Culture

O grupo seguia na linha de uma “estética purificada” com a representação não de figuras palpáveis, mas de impulsos da mente humana a partir de elementos estruturais.

A arte abstrata, foi então, uma reação que, neste caso, seguiu pelo caminho oposto ao que se fez durante séculos e séculos sequentes. E pode-se considerar, que o bruto afastamento do figurativo proposto e defendido por estes artistas foi o catalisador que contribuiu para o pleno desenvolvimento da arte contemporânea e seus suportes variáveis e complexos dos quais dificilmente compreendemos de imediato.

A dificuldade que o público encontrou ao se deparar com os abstratos e que hoje, já foi superada, é o exemplo de que as propostas artísticas estão no seu curso natural ao estarem sempre a frente de novas ideias mesmo que revisitem tudo o que já foi construído.

Victoria Louise é crítica e produtora cultural, formada em Crítica e Curadoria e Gestão Cultural pela PUC-SP.

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