A INTERAÇÃO COM O ESPAÇO URBANO NA OBRA DE CHRISTO

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O trabalho de Christo desperta uma reação de encantamento no público. Não por seu significado conceitual ou por sua técnica pictórica, mas por convocar nossos olhos a observar de forma alternativa espaços urbanos cotidianos.

O artista nasceu na Bulgária, trabalhou em diferentes países, e mais tarde naturalizou-se nos Estados Unidos. Conheceu a artista Jeanne-Claude quando trabalhava na França em 1958 e, a partir daí, passaram a elaborar todos os projetos artísticos juntos. Parceiros na vida pessoal e profissional, a dupla ficou conhecida por seus grandes monumentos urbanos de diversas naturezas embrulhados com grandes tecidos.

Seus projetos entram na categoria de site-specific, um termo da teoria da arte contemporânea que se refere a instalações pensadas para serem construídas em um local específico.

A efemeridade do trabalho é uma característica presente em todas as montagens. São construídos e desmontados em curtos períodos, o que cria uma certa aura de espetacularização no momento de lançamento a uma parcela do público, como em The Gates (2005), ao mesmo tempo que surpreende os passantes desprevenidos. Segundo Christo, em uma entrevista para o programa estadunidense 60 Minutes, seus trabalhos são “once in a lifetime projects” (projetos que acontecem apenas uma vez na vida, em tradução livre).

Inauguração de The Gates: um grande público aguarda ansioso a finalização da montagem.
Imagem retirada da reportagem do programa 60 Minutes, disponível na íntegra no canal oficial do Youtube.

Em setembro de 1985, depois de 10 anos de elaboração, a Pont Neuf que cruza o Rio Sena em Paris foi o lugar que recebeu uma das mais famosas intervenções da dupla. Aqui, a estrutura da ponte é envolvida com mais de 41 mil metros quadrados de tecido.

CHRISTO
The Pont Neuf Wrapped, Paris, 1975-85 – Imagem: Wolfgang Volz © 1985 Christo

Todos os projetos contavam com uma alta complexidade logística e grande período de planejamento estratégico.

Todo o recurso necessário para a concretização de suas instalações vem dos próprios artistas através da venda de desenhos e fotografias de seus projetos, sem financiamento de nenhuma instituição. Esse é um posicionamento muito firme de Christo e Jeanne-Claude: não monetizar seus trabalhos.

A única e, possivelmente, a mais difícil etapa para a realização das estruturas era a autorização das instituições públicas na esfera municipal ou federal. Muito tempo e energia foram gastos pelos artistas para enfrentar toda a burocracia que envolvia o aval político.

Entre 1970 e 1972, a instalação de Valley Curtain foi feita entre duas encostas de montanhas em Colorado. São tecidos pendurados no vale, que se movimentam de acordo com o vento. O mais surpreendente desse trabalho é que, apesar de ser construído a partir de um tecido laranja que destoa da paisagem naturalmente verde, a iluminação vinda do sol faz as nuances do tecido mudarem entre tons claros e escuros a ponto de parecer uma grande enxurrada de fogo ou lava quando vista a uma certa distância.

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Valley Curtain, Rifle, Colorado, 1970-72 – Imagem: Wolfgang Volz © 1972 Christo

The Floating Piers é a instalação mais recente e mais simbólica. Primeiro projeto sem a presença de Jeanne-Claude, que faleceu em 2009, a instalação foi construída em 2016 a partir da concepção elaborado pelos dois em 1970. São como decks flutuantes num sistema modular e coberto por tecido sob a superfície do Rio Iseo na Itália.

Em texto publicado no site oficial, Christo diz: “Como todos os nossos projetos, Os Decks Flutuantes são absolutamente gratuitos e abertos ao público. Não há bilhetes de entrada, não há evento de abertura, não há reserva e não há dono. Os decks são uma extensão da rua e pertencem a todos.”

Uma enorme quantidade de visitantes aproveitou essas instalações para transitar entre as comunas italianas de Monte Isola, Sulzano e Ilha de San Paolo sob uma perspectiva jamais vista, a de quem caminha sob as águas do rio.

O trabalho desses artistas desafia as noções tradicionais de arte. Não são criações passíveis de exposição em galerias ou museus, mas tem como potência principal a externalização da arte e sua conexão com a vida cotidiana. Mostra que a arte tem o poder de nos conquistar e reavivar sensações que a rotina nos assalta.

Christo faleceu no último 31 de maio e deixou em aberto o planejamento de uma próxima instalação no Arco do Triunfo em Paris que, segundo sua equipe, será construída em breve.

Victoria Louise é crítica e produtora cultural, formada em Crítica e Curadoria e Gestão Cultural pela PUC-SP.

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