A INTENSIDADE PLÁSTICA NA OBRA DE ALMANDRADE

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Almandrade, Sem título (1998) – imagem: Plataforma Artsoul

Representante notável do auge da poesia visual brasileira dos anos 1970, Almandrade permanece no circuito artístico contemporâneo trazendo a estética construtivista como forma de linguagem.

É um artista que explora a tendência entre o construtivismo e o conceitual. Na linha de sua produção, a materialidade do trabalho se propõe como um intermédio para transmissão do argumento conceitual.

Publicou livros conhecidos por dar intensidade plástica à poesia. Quando se fala em plástico, é necessário frisar o que se quer dizer: plástico é algo maleável e passível de modelagem. Inserir essa noção plástica a palavras tão formalmente construídas e engessadas no papel é praticamente uma revolução. Como modelar palavras? Como brincar com as letras? A sagacidade da poesia plásticas é a tônica do trabalho de Almandrade e dos artistas concretistas.

Desde a década de 1970 busca uma linha de trabalho na qual possa desenvolver experimentações em cores, materiais e poéticas. Assim, encontrou na diversidade de suportes a possibilidade de ampliação da linguagem.

Almandrade, Sem título (1974) – imagem: Plataforma Artsoul

Foi passeando por essas variações que chegou a perceber o grande potencial da gravura. A gravura se estabelece como uma ferramenta de reprodução, mas vai ainda além: se caracteriza como meio de continuidade do trabalho do artista. E aí chegamos num ponto relevante. As obras únicas estão sempre passíveis de perda, dano e controle de acesso, na medida que, se forem retiradas de circulação ao ser comprada por colecionadores ou instituições privadas, perde a possibilidade de exposição ao público geral. A gravura, na contramão dessa lógica de obra única, permite tiragens sequenciais que compõe uma edição e amplia o acesso e o alcance da proposta daquele trabalho.

Nessa linha, a parceria de Almandrade com o editor Lincoln Reis da Gravura no Brasil funcionou com harmonia. O editor, ao perceber como alguns trabalhos de Almandrade foram prejudicados por má conservação ou foram perdidos com o tempo, tratou de desenvolver novas matrizes para dar seguimento ao trabalho. Os poucos registros feitos das obras do artista até então demonstraram a importância de se desenvolver a ampliação desses projetos artísticos. Lincoln refez as matrizes de alguns trabalhos do artista exclusivamente para lançar novas edições com numeração e edição definidas e assinadas pelo artista. A matriz foi posteriormente descartada para manter o equilíbrio entre acesso e exclusividade. 

Outra motivação para desenvolver esse trabalho, Lincoln conta, foi a percepção de que ao ser vendida, a obra saía de circulação e perdia a possibilidade de se manter em exposição ao público. Isto, quando a gravura é editada em apenas um único original. Para as novas edições foram feitas tiragens distribuídas para museus em São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre, por exemplo.

Desta vez, para a exposição no evento ArtSoul Gravuras 2020 foram selecionadas 30 gravuras fazendo a mescla entre trabalhos antigos e atuais.

Almandrade conta que foi Lincoln Reis, com um olhar atencioso e comprometido com o projeto cultural, o curador responsável pela seleção. E ainda vai além: a escolha desses trabalhos para a exposição demonstra cuidado em conservar toda a história e simbologia que essas obras mais antigas carregam e representam para arte contemporânea.

A curadoria atua no campo micro, ao valorizar o projeto individual do artista em questão e vai além, ao trabalhar na conservação de trabalhos definidores para a história da arte.

Victoria Louise é crítica e produtora cultural, formada em Crítica e Curadoria e Gestão Cultural pela PUC-SP.

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Técnicas em Gravura

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