Técnicas em Gravura

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Fabricio Lopez,  Yamatãma, 2014, Xilogravura em cores sobre papel, 187 x 227 cm. Foto: Divulgação.

A Gravura consiste em uma linguagem multifacetada, que reúne técnicas e procedimentos diversos. Seu principio fundamental é a impressão da imagem presente em uma matriz, em um outro suporte, geralmente o papel ou o tecido. As impressões tratam-se, nesse sentido, de múltiplos produzidos através do processo de transferência de imagens gravadas em uma única superfície. As matrizes podem ser feitas em madeira, metal, pedras porosas, tramas têxteis, entre outros materiais.

 No Ocidente, o desenvolvimento das técnicas da Xilogravura e da Gravura em metal, durante o Renascimento, possibilitou a reprodução de diversas cópias idênticas de uma mesma imagem. Nos séculos seguintes, o aprimoramento dos processos de gravura, em relação estreita com o surgimento da imprensa e da indústria gráfica, foi capaz de popularizar o acesso a essas imagens.

Sobretudo a partir da invenção da Litografia, no século XVIII, as imagens se multiplicam, reproduzidas não apenas em livros, mas também em jornais e cartazes. Artistas como Albrecht Dürer e, em seguida, Francisco Goya, são conhecidos como precursores, pela elaboração de suas pesquisas. É importante lembrar, no entanto, que os primeiros registros de gravuras, na História da Arte, são muito anteriores ao Renascimento Europeu. Datam do século V, na China, e depois no Japão, onde Xilogravuras eram utilizados na decoração de têxteis e na produção de escrituras religiosas.

Albrecht Dürer, Melancolia I, 1514, Gravura em metal, 24 x19 cm.
Albrecht Dürer, Melancolia I, 1514, Gravura em metal, 24 x19 cm.

O impulso à reprodução das imagens, revelado no desenvolvimento da gravura no ocidente, encontra afinidades com outras técnicas modernas como a Fotografia, e para alguns autores, até mesmo com a reprodução ilimitada alcançada, atualmente, através dos meios digitais e da mecanização. Por outra parte, a tradição do fazer artesanal – a acumulação de saberes e recursos técnicos – continua vigente na produção contemporânea em gravura. Entre os artistas contemporâneos brasileiros que pesquisam linguagens e técnicas da Gravura contam-se nomes como Regina Silveira, Antônio Henrique Amaral, Evandro Carlos Jardim, Maria Bonomi, Claudio Mubarac e Fabrício Lopez. Outra vertente, muito influente na produção contemporânea brasileira, especialmente em Xilogravura, é representada pela arte popular do cordel que tem entre seus grandes expoentes J. Borges e Samico.

Gilvan Samico, O fazedor da manhã, 1982, Xilogravura. Foto: Divulgação.
Gilvan Samico, O fazedor da manhã, 1982, Xilogravura. Foto: Divulgação.

Matrizes e Reproduções: a multiplicação das imagens

Os procedimentos fundamentais envolvidos na produção em gravura consistem na criação da matriz, impressão e reprodução da imagem. Estas etapas se aplicam às diferentes técnicas, no entanto, as ações se transformam de acordo com os materiais utilizados. Depois de produzidas, em geral, as cópias são numeradas e assinadas, para atestar a autenticidade, e para um controle do artista sobre as tiragens de uma mesma matriz. As técnicas mais conhecidas, no campo da Gravura, são: Xilogravura, Linóleo, Litografia, Gravura em metal (Buril, Água-forte e Água-tinta) e Serigrafia. Os diferentes tipos são definidos de acordo com o material da matriz, e também em relação aos instrumentos e processos envolvidos na criação da imagem.

As matrizes podem ser gravadas, por incisões, através de dois procedimentos básicos distintos: criam-se relevos ou encavos. Ao produzirem relevos, os gravuristas elaboram imagens em negativo, ou seja, as regiões da matriz que recebem riscos e sulcos aparecem em branco, quando transferidas para o papel. É o que ocorre, por exemplo, com as Xilogravuras. O processo de gravação através de encavos, por sua vez, garante que as linhas feitas na matriz absorvam a tinta e, portanto, apareçam nas impressões finais. É este o caso das técnicas de Gravura em metal. No entanto, como veremos, estes não são os únicos procedimentos usados para a criação de matrizes.

Xilogravura

J. Borges, Os boiadeiros, Xilogravura em cordel. Foto: Divulgação.
J. Borges, Os boiadeiros, Xilogravura em cordel. Foto: Divulgação.

A Xilogravura é uma das técnicas mais antigas de impressão de imagens ou textos, tendo a madeira como suporte para a criação da matriz. O principio básico da produção em xilo é semelhante ao da feitura de um carimbo. Utilizando goivas, que são instrumentos de entalhe e corte, o artista realiza sulcos na madeira. Cria, assim, relevos que receberão camadas de tinta.  Os desenhos são feitos em negativo e o processo de impressão é simples. Depois de aplicar tinta na superfície da matriz, basta exercer uma pressão entre ela e o papel. Este procedimento pode ser realizado manualmente, ou com o auxilio de uma prensa. A xilogravura possibilita a experimentação em cores, bem como diferentes recursos expressivos no trabalho de entalhe da madeira, na construção de linhas e massas em baixo, ou auto relevo. 

Linóleo

Pablo Picasso, Tête de femme, 1962, Linóleo.
Pablo Picasso, Tête de femme, 1962, Linóleo.

A Linóleogravura se baseia nos mesmos processos da produção em xilo. Trata-se, porém, de uma variação mais recente desta técnica, que substitui as matrizes em madeira por um material sintético semelhante, chamado linóleo. Este suporte foi muito popular entre artistas do modernismo, especialmente na produção de Picasso, sendo utilizado também por Kandinsky, F. Cizek, entre outros. O linóleo, além de mais barato, é um material mais flexível que a madeira. A linóleogravura permite, portanto, que o gravurista empregue menor esforço no processo de entalhe da matriz, facilitando também a criação de detalhes e linhas finas. 

Gravura em metal

Evandro Carlos Jardim, São Paulo, cidade: vista do Tamanduateí, 1983, Água-forte e água-tinta, 16,6 x 19,5 cm. Acervo do MAM de São Paulo. Foto: Divulgação.
Evandro Carlos Jardim, São Paulo, cidade: vista do Tamanduateí, 1983, Água-forte e água-tinta, 16,6 x 19,5 cm. Acervo do MAM de São Paulo. Foto: Divulgação.

A primeira técnica desenvolvida para gravar placas metálicas é o Buril (ou Ponta seca), nome da ferramenta com ponta de aço usada para criar incisões diretas na matriz. Ela exige o traço firme do artista, representando um alto grau de dificuldade no processo de gravação. Entre as técnicas mais comuns, criadas posteriormente, podemos citar a Água forte e Água tinta. Ambas propiciaram novas possiblidades de criação visual ao estabelecerem formas indiretas de gravação. Estas inovações permitiram aos artistas uma maior liberdade em relação ao uso das linhas, nos desenhos, bem como a exploração de tonalidades. Além disso, diferentes técnicas podem ser combinadas em uma mesma matriz.

Na Gravura em metal, o desenvolvimento das matrizes é na maioria das vezes complexo, exigindo diversas etapas. A técnica de Água forte, por exemplo, depende do trabalho com vernizes e substâncias químicas corrosivas. Na primeira etapa, a placa metálica é revestida com um verniz. As imagens são gravadas nesta camada superficial, com o auxilio de uma ponta-seca.  Nas etapas seguintes, diferentes ácidos corroem o metal, atingindo somente as linhas em que o verniz foi retirado pelo traço do artista. Estes procedimentos possibilitam a criação de linhas delicadas e uma ampla gama de texturas, matizes e efeitos de profundidade. Finalizada a matriz, as cópias devem ser impressas com o auxilio de uma prensa, sendo possível produzir uma tiragem superior (em comparação à xilo), graças à resistência do material.

Litografia

Toulouse-Lautrec, Reine de Joie, 1892, Cartaz, Litografia, 136 x 93 cm.
Toulouse-Lautrec, Reine de Joie, 1892, Cartaz, Litografia, 136 x 93 cm.

A Litografia utiliza como matriz pedras planas e porosas (calcárias). Esta técnica, inventada em 1796 por A. Senenfelder, se baseia no princípio químico segundo o qual água e gordura não se misturam. A criação da imagem sobre a pedra é feita com tintas ou lápis gordurosos (como o crayon). O processo de impressão, depende do uso de uma prensa e prevê o uso de uma tinta, também gordurosa, que adere apenas às imagens desenhadas na matriz. A litografia foi largamente difundida, sendo absorvida pelas mais diversas indústrias da época, seja na produção de jornais, até rótulos de produtos. Além disso, propiciou no campo da produção artística, nos séculos XIX e XX, uma expansão da pesquisa de cores e materiais, se popularizando com trabalhos de inúmeros artistas modernos, entre eles Matisse, Toulouse Lautrec, Miró e Marc Chagall.

Serigrafia

Andy Warhol, Campbell’s Soup Can (Tomato), 1964, Serigrafia. (Foto do processo de produção)
Andy Warhol,Campbell’s Soup Can (Tomato), 1964, Serigrafia. (Foto do processo de produção)

É uma técnica de impressão, muito utilizada por artistas a partir dos anos 1960, em grande medida, por influencia dos cartazes produzidos por Andy Warhol.  A Serigrafia, também conhecida como silkscreen, já era usada comercialmente no início do século XX, na produção de estampas em tecidos e em papéis de parede, mas se populariza definitivamente nos meios artísticos, com a Pop Art. Assim como as demais gravuras, ela também envolve o uso de uma matriz: uma trama de tecido em poliéster, esticada no interior de uma moldura de madeira.  Sobre esta tela são criadas “máscaras”. Tratam-se de estênceis que impedem que a tinta entre em contato com a superfície do papel. A tela pode ser lavada diversas vezes, permitindo o uso de outras máscaras e de tintas de diversas cores. Esta técnica possibilita o processo de impressão tanto em um sentido artesanal, quando a reprodução de imagens em uma escala industrial, que utiliza maquinários sofisticados para a produção das matrizes, e também no processo de impressão.

Regina Silveira, Série Middle Class & Co, (1971-1972), Serigrafia.
Regina Silveira, Série Middle Class & Co, (1971-1972), Serigrafia.

Anna Luísa Veliago Costa é Mestre pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo, é graduada em História pela mesma universidade, com intercâmbio acadêmico na Universidade Sorbonne-Paris IV.

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