A coragem narrativa de Paula Rego

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Entre as maiores artistas da atualidade, a portuguesa Paula Rego ficou conhecida em suas pinturas por retratar personagens complexos e pela linguagem surrealista. Nascida durante a ditadura salazarista, a artista denunciou políticas ditatoriais que ocorreram em Portugal e Espanha, dizendo que utilizava a sua pintura como meio para mostrar as injustiças que ocorrem na vida íntima e familiar das mulheres como também os seus traumas pessoais. Por sua contribuição à arte, recebeu da Rainha Isabel II a “Ordem do Império Britânico” e condecorada pelo governo português com as medalhas de honra da cidade de Lisboa e a de mérito cultural do governo português.

O figurativismo literário

Maria Paula Figueiroa Rego, conhecida como Paula Rego, nasceu na capital Lisboa, em 1935, sendo influenciada desde cedo pela cultura inglesa e francesa. Na sua infância, foi diagnosticada com uma grave tuberculose, e uma das recomendações médicas era que se mudasse para próximo do mar, o que fez com que sua família a levasse para morar em Estoril. A sua habilidade com a pintura começou cedo, ao ser inspirada pelas histórias do Walt Disney que seu pai lia para ela. Incentivada pelo pai – que temia a ditadura salazarista – parte para Londres com 17 anos para aprimorar a sua habilidade artística. Estudou na Slade School of Fine Art, onde conheceu Victor Willing (1928-1988), artista britânico que dedicou seu trabalho a pinturas de nus e surrealismo. Rego e Willing casaram-se em 1959. 

Uma das primeiras obras da artista neste período foi “Under Milk Wood” (1954). Nesta pintura, com formatação acadêmica, é retratada a cena clássica de uma cozinha portuguesa: a galinha viva prestes a ser abatida para o jantar, os ovos já fritos e três mulheres conversando, preparando o jantar. A artista resgata nesta cena as memórias de infância que em grande parte foi vivida com a avó na cidade litorânea Ericeira. 

Under Milk Wood, 1954. Paula Rego. Imagem: Art UK.

De volta a Portugal, Paula Rego expôs em 1966 na galeria de arte moderna da Escola de Belas-Artes de Lisboa obras que denunciavam a crueldade da ditadura espanhola e portuguesa contra a sociedade. “Retrato de Grimau” (1964) é um grande exemplo desta fase, na qual é retratado Julián Grimau (1911-1963), membro do Partido Comunista espanhol que lutava contra a ditadura franquista. Grimau foi capturado em uma emboscada e julgado pelo governo espanhol sendo sentenciado a morte e fuzilado. No quadro, é possível observar diversas formas indefinidas e deformadas que representam figurativamente a angústia, a impunidade e o sofrimento que o revolucionário suportou.

Retrato de Grimau, 1964. Paula Rego. Imagem: gulbenkian.pt

Na obra “Cães de Barcelona” (1965), a artista retrata formas em convulsão, onde é possível ver a violência dos gestos atrelada ao fundo vermelho com preto da tela. As formas contorcidas em sofrimento remetem a cachorros de rua, que foram envenenados, uma ação cruel das autoridades como forma de erradicá-los. Na época, tais obras trouxeram grande comoção à crítica portuguesa. 

Em 1975, inspirada pelo universo literário dos contos populares portugueses, Paula Rego desenvolveu a série “Contos Populares Portugueses” com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Neste projeto feito em guache, a proposta era associar histórias infanto-juvenis tradicionalmente portuguesas com os valores atuais da cultura popular; atrelando a mitologia com a psicologia, propondo a relação entre o bem e o mal nos personagens.

“A imagem permite que você sinta todo tipo de coisas proibidas.”

Paula Rego

Utilizando a linguagem figurativa, a pintora demonstrou interesse pelas artes que tivessem construção contextual, nas quais eram narradas histórias por gestos ou objetos que indicam ação, o que a fazia usufruir de cenas roteirizadas em seus projetos. A inspiração veio da literatura e principalmente do surrealismo de Franz Kafka, do estilo figurativo e distópico de George Orwell e do realismo de Honoré Balzac. Caminhando por referências fantasiosas, a artista gerou projetos em que começou a utilizar o antropomorfismo, colocando os animais em situações humanas corriqueiras, como em “A Frog he would a-wooing go I”, de 1989, onde um sapo bípede vestido conversa com dois ratos. A posição das mãos na cintura do sapo e o olhar esguelho do rato demonstram a intenção de humanizar os gestos nos animais, remetendo ao humor e a estranheza. Em outra obra, “La Fête”, de 2003, observamos animais vestidos e dançando ao som da sanfoneira, que tem olhar direcionado a uma cena extra-quadro com uma expressão contrariada. Não apenas em situações amistosas ou engraçadas que os animais são retratados em seus trabalhos, mas além, a artista ilustra situações de violência e horror, como nas obras “Pequena Miss Muffet III”, de 1989 e “Três Ratos Cegos”, de 1989.

Em outros temas, ela retratou os comportamentos das crianças, de forma contrária à ingenuidade associada a estes personagens. Rego quis registrar a maldade em certas atitudes que já ocorrem nesta fase da vida. Para alcançar a proposta, ela utilizou da expressão corporal e dos olhares maldosos, como visto na obra “Snare”, de 1987, onde é possível observar a má intenção da menina e o olhar coagido do cachorro, numa cena de clara “armadilha” ou “cilada”, palavras que dão título à obra. 

A proposta da artista é evitar projetar o arquétipo da mulher submissa ou passiva, e demonstrar a ambivalência que há entre as emoções femininas; ora empática e heroína, ora cruel e manipuladora. Em 1988, seu marido morreu, após período acometido por esclerose múltipla, doença degenerativa que limita os movimentos. Por este motivo, em seus últimos anos, Willing precisou de ajuda em afazeres cotidianos, como comer, caminhar e colocar as suas roupas, momento registrado pela artista na obra “Família”, feita no mesmo ano de sua partida. Nesta tela podemos ver o oposto da tela anterior, onde se tem a intenção de estimular a complexidade da persona feminina: duas mulheres ajudam um homem a se vestir, enquanto a personagem mais nova reza próximo a janela. Amor, afeto e fé são propostos através de elementos simbólicos.

Liberdade, raiva e giz pastel

Encontrando o seu estilo técnico, Rego tornou-se mais livre e direta em seus temas, começando a retratar o mundo íntimo doméstico e os dramas do universo feminino. Com o desenvolvimento dos seus trabalhos, a sua pintura começa a tender para a estranheza, beirando a loucura, tornando uma característica em seus projetos. Parte deste estilo vem da admiração que a artista tinha pelo pintor espanhol Francisco Goya (1746-1828) conhecido por compor cenas que chocavam com violência, expressividade e simbolismo. 

A partir da década de 1990, ela começa a utilizar giz pastel ao invés da tinta a óleo. O uso do pastel dá mais autonomia e controle sobre a tela, por proporcionar gestos mais espontâneos. Rego começa a aplicar os pigmentos com os dedos e para ela, os pastéis permitem desenhar ao redor e dentro da figura. Já com a pintura a óleo, conseguia apenas o preenchimento das formas.

Iniciando uma nova fase temática, a artista volta a sua atenção aos dramas femininos na série intitulada “Mulher-Cão”, de 1994. Nesta série, são retratadas personagens mulheres em destaque com expressões e posturas incomuns para uma sociedade que controla o corpo feminino. Na pintura, a artista despiu as figuras de regras sociais e as libertou para o exercício de seus instintos naturais e zoomórficos a partir dos quais pode controlar e decidir sobre si mesma.

“Ser uma mulher-cão não tem necessariamente a ver com submissão; antes pelo contrário. Nestas imagens todas as mulheres são mulheres-cão, não submissas mas poderosas. Ser bestial é bom. É físico. Comer, rosnar, todas as actividades que têm a ver com sensações são positivas. Figurar uma mulher como cão é extremamente credível.”

Paula Rego

Seguindo em projetos que defendem os direitos das mulheres, a pintora fez o projeto “Aborto”, de 1998. O projeto foi uma resposta ao governo português que negou a liberação do aborto, um procedimento limitado a situações específicas. Para a artista, era um ato hipócrita, pois o aborto ocorria clandestinamente no país, o que fazia a proibição perder força argumentativa; representando o impedimento deste direito ser exercido de forma segura e humanizada. Na série, Rego retratou as mulheres durante o aborto em posições de sofrimento, em lugares improvisados e sempre sozinhas. Não só as mulheres passavam por esse tormento, mas uma grande parcela é composta por jovens em período escolar, como as personagens retratadas com uniforme. De forma excepcional, ela tratou o descaso e a indiferença da sociedade retrógrada que ignora os riscos do aborto.

“Fiz vários abortos. […] naqueles tempos não havia muita contracepção e os homens não se importavam”.

Paula Rego

Em 2005, a artista começou um projeto com bonecos interagindo com pessoas, uma espécie de teatro surrealista com histórias que ela presenciou; entre as quais a obra “Reading the Divine Comedy by Dante” e “La Marafona”. O boneco central representa o seu pai que sofria de depressão. A artista retratou o sofrimento da enfermidade do pai e o efeito que gerava em torno da família; especialmente na própria artista, que também teve depressão, gerando um vínculo entre eles. 

Em 2017, após uma grave queda ferir o seu rosto, Rego fez uma série de autorretratos expondo as lesões do machucado. Já com 82 anos, a artista continuou demonstrando força, energia e brilhantismo, usando a narrativa das suas obras como forma de exorcizar os demônios que assombravam as suas angústias. Rego nunca parou com os seus projetos, lutando constantemente com diversos traumas em sua vida, mostrando que por mais cruel que seja viver, é possível sobreviver aos terrores e confrontá-los. Em 2022, ela parte deixando um legado de força e coragem aos que lutam diariamente contra a brutalidade do mundo; tornando-se uma eterna referência de inspiração e redenção.

Autorretratos, 2017. Paula Rego. Imagem: Victoria Miro.

Carlos Gonçalves é graduando em Jornalismo pela PUC-SP, com pesquisa científica em crítica de arte.


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