Todo ano, artistas, arquitetos, artesãos e designers se reúnem na Semana Criativa de Tiradentes, festival que ocupa as ruas e os casarões da cidade histórica mineira com exposições, oficinas e conversas sobre a produção brasileira. Idealizada pela jornalista Simone Quintas e pelo produtor cultural Júnior Guimarães, a iniciativa realizou sua 10ª edição de 15 a 18 de outubro e aproximou diferentes gerações, técnicas e perspectivas sobre o fazer artesanal e o design contemporâneo.

A Artsoul esteve presente na edição deste ano e acompanhou de perto essas trocas. Além de participar de uma ativação em conjunto com a revista PROJETO, a equipe visitou artesãos da região para conhecer seus processos de trabalho. A experiência reforçou o papel da Semana na valorização da produção brasileira e no estabelecimento de parcerias que se estendem para além do festival. A seguir, confira o que mais nos chamou a atenção.
Em meio às celebrações e aos cortejos que ocupam a cidade durante o festival, duas exposições convidam a conhecer a trajetória da Semana Criativa de Tiradentes. No Centro Cultural Yves Alves, Tesouro cotidiano reúne peças desenvolvidas ao longo dos dez anos do evento, fruto dos encontros e das trocas entre artesãos e designers. Já Inventário Brasileiro, no Sobrado Aimorés, apresenta trabalhos de 27 designers que passaram pelo festival e compõe um panorama de diferentes trajetórias e linguagens do design brasileiro contemporâneo. Nas peças reunidas nas duas exposições, o conhecimento de cada ofício encontra novas formas de expressão, em que a troca de repertórios também evidencia como essas parcerias podem contribuir para a continuidade de práticas transmitidas entre gerações.


Ao lado dessa retrospectiva, a exposição Design feito à mão apresentou os trabalhos desenvolvidos em 2026, a partir de imersões que reuniram Bruno Niz, do Estúdio Niz; Luciana Pires, do Ateliê Caféadois; e Paulo Biacchi, do Estúdio Fetiche, com grupos como as Ceramistas do Elvas e o coletivo de bordadeiras Construindo Sonhos. A partir desse intercâmbio, os participantes compartilharam conhecimentos e experimentaram soluções que podem transformar suas práticas. Assim, ao tornar essas parcerias visíveis, a exposição também destacou a participação dos artesãos e aproximou o público dos saberes envolvidos na criação de cada peça.

Esse olhar para os conhecimentos envolvidos na criação também ajuda a compreender Amálgama botânica, obra de Zé Arns apresentada na Casa Criativa. O designer reuniu sobras de madeira que havia guardado durante dez anos em sua oficina e, por meio da marchetaria, revisitou modelos antes produzidos em blocos únicos. As diferenças entre os fragmentos passaram, assim, a definir a superfície dos objetos e a conferir nova leitura às formas que já faziam parte de seu repertório.
Um dos ateliês que valeu a pena visitar durante a semana foi o de Wagner Trindade, conhecido como Waguinho do Muchacho. Sua relação com o festival começou na primeira edição, em 2017, quando abriu as portas da oficina ao público. Do pai, herdou o apelido e o ofício de produzir luminárias. Com o tempo, esse aprendizado se desdobrou na criação de mobiliário e em novas experimentações com ferro e latão, tanto em criações próprias quanto em parcerias com designers.


Entre as colaborações desenvolvidas em edições anteriores do projeto, as luminárias Maria ajudam a compreender esse movimento. Nelas, a estrutura de ferro produzida por Waguinho se combina com a cambraia de linho bordada à mão pelas artesãs do grupo Artistas do Bairro. O trabalho foi acompanhado por designers, entre eles Alfio Lisi.
O roteiro também se estendeu aos arredores de Tiradentes, com visitas a Bichinho e a Resende Costa. Bichinho, distrito de Prados situado a cerca de sete quilômetros de Tiradentes, reúne ateliês em que as esculturas de madeira e ferro estão entre os destaques. Já em Resende Costa, a tradição dos teares manuais aparece na confecção de tapetes e colchas. Nessa produção, parte dos tapetes é feita com retalhos provenientes da indústria têxtil, incorporados à trama pelos artesãos, cujos conhecimentos são transmitidos de uma geração a outra.

Em uma cidade como Tiradentes, faz sentido que os espaços históricos também participem da leitura das exposições. Foi o que se viu na Igreja São João Evangelista, onde Graça reuniu trabalhos de Vinicius Rosa Rios, artista tiradentino homenageado nesta edição. Sua pesquisa parte dos ex-votos, objetos oferecidos em agradecimento por uma graça alcançada. Nesse contexto, a apresentação no interior da igreja aproximou as obras das práticas de devoção que as inspiram.

Essa relação com o lugar ganhou um recorte político na Casa D’Preto, instalada no Sobrado Ramalho, onde funciona o escritório do Iphan na cidade. Sob curadoria de Heloisa Nascimento e Pedro Rubens, a ocupação questionou o silenciamento da contribuição negra na construção do patrimônio e apresentou Orí-gem, obra que aborda a ancestralidade e as religiões de matriz africana. Já a Casa Pará, criada pelo coletivo que reúne o escritório Guá Arquitetura e a jornalista Trisha Guimarães, levou ao Museu de Sant’Ana uma programação dedicada à cultura paraense, tendo o Círio de Nazaré como fio condutor.
Para a Artsoul, essas ocupações mostraram como a criação contemporânea pode renovar a maneira de olhar para o patrimônio. Ao reunir histórias de diferentes origens nos espaços da cidade, o festival deu visibilidade a quem participa da construção da cultura brasileira e às contribuições que continuam a transformá-la.

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