
A instalação My Astral Mission, da Slash Objects, investiga a relação entre música e materialidade. No centro do projeto está o X Deck, peça de Arielle Assouline-Lichten concebida para reunir equipamentos de DJ e discos em um ambiente imersivo — Foto: Reprodução/NYCxDesign.
À medida que a economia da experiência ganha relevância em relação à economia da atenção, som e design passam a ocupar um lugar central em projetos que convidam à contemplação. Em meio a tantos estímulos, a possibilidade de permanecer sem pressa nesses espaços ganha outro valor. A escuta, por sua vez, altera o ritmo da visita e a maneira como percebemos e ocupamos o ambiente.
Assim, essa aproximação se manifesta tanto no desenho dos equipamentos quanto na criação de espaços de escuta e de obras sonoras. Em cada caso, o som assume uma função própria, que pode ir da presença no ambiente à condução do percurso do público.
Em artigo para a Bazaar Interiors, Beta Germano escreve que “a caixa de som é a nova cadeira”. A frase ganha sentido quando lembramos que, ao longo da história do design, diferentes gerações quiseram redesenhar a cadeira à sua maneira. A comparação sugere que os sistemas de som despertam hoje uma curiosidade semelhante, com projetos que exploram tanto sua função quanto sua presença no ambiente.


Essa curiosidade também se manifestou na Semana de Design de Milão, um dos principais centros do design mundial. Na Alcova, Pontus Berghe, fundador do Vintage Audio Institute Italia, apresentou Felt Frequencies, instalação em que músicos tocavam sintetizadores italianos de época e realizavam gravações diante dos visitantes. “Acho que o público da Semana de Design de Milão está um pouco cansado de ver cadeiras e luzes em salas silenciosas”, disse à Wallpaper.

Ainda em terras milanesas, a Deoron, plataforma curatorial independente criada em 2021 para explorar novas maneiras de descobrir objetos no ambiente digital, ocupou uma antiga fábrica de rolamentos. Ali, a cabine de DJ brutalista do estúdio Yont recebeu sessões de escuta ao longo da semana, enquanto a Stack Furniture apresentava uma estante modular de alumínio com caixas de som integradas.

Já em Nova York, a discussão ganha uma perspectiva histórica com a exposição Art of Noise, no Cooper Hewitt, que reuniu projetos de diferentes épocas e mostrou a relação entre design e escuta. A mostra acompanha a evolução dos aparelhos de reprodução sonora, do fonógrafo aos sistemas digitais, e revela como o desenho e o funcionamento desses aparelhos transformaram a experiência de ouvir.
Na Bienal de Veneza de 2026, a escuta também orienta o percurso do visitante pelo espaço expositivo. No Pavilhão da Santa Sé, a exposição The Ear Is the Eye of the Soul, inspirada na vida e na obra de Hildegard de Bingen, apresenta trabalhos sonoros no Giardino Mistico. Com fones de ouvido, o público percorre o jardim e escuta composições de artistas como Patti Smith e Brian Eno, junto aos sons do próprio lugar, captados em tempo real. A mostra, com curadoria de Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers, dialoga com a proposta curatorial de Koyo Kouoh para a Bienal e propõe a escuta como prática de contemplação e forma de conhecimento.

Com raízes nos cafés de escuta japoneses, os listening bars ganharam formas próprias no Brasil e caíram no gosto de quem frequenta a noite paulistana. O Matiz, instalado na cobertura de um edifício no centro de São Paulo, foi criado para combinar a qualidade sonora de um estúdio com a convivência de um bar. A sala foi concebida com base em um projeto acústico e recebeu um sistema de som feito sob medida. Além do Matiz, o Hi-fi Community, inaugurado neste ano na Vila Leopoldina, propõe uma experiência semelhante e, por suas dimensões, se apresenta como o maior listening bar do Brasil.

No circuito das artes, a curadoria também decide como uma obra será ouvida. A Galeria Ibehas, inaugurada em setembro na Barra Funda, estreou com Feche os Olhos, mostra de onze obras sonoras criadas especialmente para o espaço. A cada noite, o público se acomoda em uma sala com 205 caixas acústicas, recebe uma venda para cobrir os olhos e, quando as luzes se apagam, escuta duas das obras. Para Chico Cornejo, curador da galeria, essa escolha transforma um hábito familiar em formato expositivo: fechar os olhos para ouvir melhor.

A relação entre som e espaço também atravessa a pesquisa de Vivian Caccuri, artista plástica que vive e trabalha no Rio de Janeiro. Desde a adolescência, ela se perguntava por que não poderia aproximar arte e música. Com essa pergunta em mente, passou a buscar maneiras de fazer da escuta parte da obra. Em 2012, durante o mestrado em Princeton, começou a conceber a Caminhada Silenciosa após visitar lugares com problemas acústicos durante a madrugada, como parte de uma pesquisa de design de som.
De volta ao Rio, Caccuri realizou o primeiro percurso da Caminhada Silenciosa, conduzindo um grupo por diferentes pontos da cidade em silêncio. Anos depois, na exposição Pele Azul, apresentada no CCBB São Paulo em 2026, o som também orientava o percurso do público. A instalação Gatonet (Nuvem) reunia 120 caixas de concreto, a maioria equipada com alto-falantes e cabos. O conjunto propagava zumbidos de mosquitos registrados por cientistas. A mostra reuniu quatro obras que partiam da presença dos insetos para abordar as relações entre humanos e outras formas de vida.

Em conjunto, os exemplos mostram que, do desenho dos equipamentos à curadoria dos espaços de escuta, o som e design passam a ser pensado como parte do projeto. Sua presença modifica a maneira como o público percorre um ambiente e o tempo que escolhe dedicar à escuta. Em meio à disputa pela atenção, ouvir sem pressa ganha valor.
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