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Esculturas de Guto Neves e a geometria do peso

Publicado por Artsoul em 01/06/2026
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Obra de Guto Neves com quatro esculturas geométricas em mármore preto sobre fundo branco, formando um vazio central.

Segunda Série: OBNM:01, de Guto Neves. Disponível no site da Artsoul.

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O clique no concreto

Há um clichê persistente que reveste a criação artística de uma aura romântica, isolando o criador em cenários bucólicos, distantes do ruído do mundo. Guto Neves recusa esse caminho. Diante de convites que sugerem o isolamento como combustível criativo, sua resposta é pragmática: “Meu processo não opera dessa maneira.” A engrenagem de seu trabalho se move na fricção do cotidiano urbano.

O verdadeiro estopim de sua produção está na vivência diária: na subversão da forma e da função, inspirada pelo conceito japonês mitate, ligado à arte de enxergar um objeto como outra coisa, quando o artista se depara com materiais e situações do cotidiano; e no diálogo com a paisagem concreta de São Paulo, robusta e vertical. O estalo criativo surge no intervalo do dia a dia urbano, não na vastidão da paisagem natural. Neves opera imerso na pulsação da metrópole, e é nessa tensão que suas obras tomam forma.

Obra de Guto Neves com quatro esculturas geométricas em mármore preto sobre fundo branco, formando um vazio central.
Segunda Série: OBNM:01, de Guto Neves. Disponível no site da Artsoul.

Esculturas de Guto Neves entre joalheria e monumentalidade

Não é necessário rastrear os primeiros anos de formação de Guto Neves para compreender suas esculturas atuais. Ainda assim, reconhecer essa linha de continuidade ajuda a ampliar a compreensão de sua produção.

Sua vinda para São Paulo, aos dezoito anos, teve como ponto de partida os estudos em Desenho Industrial. Embora a rigidez técnica e as demandas utilitárias do curso tenham provocado o desejo de trancar a faculdade e buscar linguagens mais livres, o interesse pela construção do objeto e pela tridimensionalidade permaneceu central. Dessa formação permaneceu um fio ainda presente em sua poética: a investigação em torno do manuseio, do peso e da proporção da matéria em relação ao corpo.

Esse raciocínio estrutural encontrou vazão na alta joalheria. Na microescala dos metais preciosos, Neves desenvolveu uma pesquisa fundamentada no encaixe e no contraste de materiais. Sua primeira coleção, À Margem (2010), já explicitava essa busca ao colocar pregos de ferro em diálogo direto com diamantes.

A transição da escala milimétrica da joia para a escala monumental do bloco de mármore não representou uma ruptura conceitual, mas uma mudança de escala. O norte de sua produção continua o mesmo: criar objetos que solicitam manipulação, que dialogam com a escala do corpo e que exigem uma compreensão exata dos limites físicos da matéria. O raciocínio tridimensional que organizava a composição de uma joia é o mesmo que hoje articula uma rocha de grandes proporções no espaço, preservando o rigor técnico como ferramenta de expressão estética.

Primeira Série: ORE, de Guto Neves. Disponível no site da Artsoul.
Segunda Série: OBNM:02, de Guto Neves. Disponível no site da Artsoul.

A poética do encaixe: o origami de pedra e o neoconcretismo

No desenvolvimento das esculturas de Neves, o fazer artesanal tradicional do ateliê se alia à tecnologia industrial. A produção de suas obras envolve o uso de maquinário de alta precisão em marmorarias, especialmente o corte por jato d’água de altíssima pressão. Esse recurso técnico permite uma exatidão inalcançável com o cinzel tradicional. A máquina executa cortes que transformam a rocha bruta em planos geométricos puros.

Terceira Série: OM3SC:01, de Guto Neves. Disponível no site da Artsoul.
Segunda Série: OBNM:03, de Guto Neves. Disponível no site da Artsoul.

Essa precisão cirúrgica fundamenta duas metáforas que podem ser encontradas em seu trabalho: o origami e a herança neoconcreta. A primeira diz respeito à subversão visual do material. Quando blocos maciços de mármore são cortados e acoplados com tamanha exatidão, eles criam a ilusão de dobras finas e consecutivas, como se o espectador estivesse diante de uma folha de papel sulfite articulada pelas mãos de um dobrador. Há uma tensão no fato de uma matéria historicamente associada à rigidez e à monumentalidade transmitir a sensação de leveza e de maleabilidade do papel.

A segunda conecta o trabalho de Neves à tradição construtivista e neoconcreta brasileira. Suas linhas marcadas, cortes retos e intervalos precisos encontram eco nas investigações geométricas que marcaram a arte nacional em meados do século XX. O corte e o encaixe não funcionam aqui como meros ornamentos ou acabamentos superficiais, mas como a própria estrutura da obra. Ao recortar o bloco, o artista não busca apenas a forma preenchida, mas a ativação do vazio, organizando o espaço circundante e conduzindo o olhar do espectador por um ritmo de presenças e ausências. Como sintetiza o artista: “A precisão é o que une os dois pontos.”

Mármore, bronze e volumetria nas esculturas de Guto Neves

O valor estético do mármore é comumente associado à singularidade de seus desenhos naturais: os veios coloridos e os padrões irregulares criados pela sedimentação geológica ao longo de milênios. A pesquisa atual de Guto Neves caminha em outra direção. Hoje, seu olhar recai sobre superfícies homogêneas e puras, como o mármore de Carrara sem veios ou a profundidade uniforme do negro absoluto. A escolha não se baseia no desejo de neutralizar a pedra, mas na intenção de priorizar a volumetria e o desenho espacial.

Sem a distração visual causada pelos veios orgânicos, o plano geométrico se impõe. Recuperando a imagem da folha de papel branco, a escultura limpa permite que o verdadeiro acabamento da peça ocorra na transição entre o dia e a noite, por meio do jogo de luz e sombra. A intenção é fazer desse jogo de luz o elemento que esculpe os volumes aos olhos do observador, acentuando as fendas e suavizando as superfícies retas de acordo com o deslocamento do espectador no espaço.

Neves também direciona agora sua pesquisa para tensionar o mármore por meio de sua junção com o bronze. Esse movimento traz à tona um diálogo com seu repertório da joalheria. Nesse processo, o artista aplica o conhecimento técnico sobre fundição e comportamento dos metais à escala da escultura monumental. O encontro entre a opacidade densa e mineral do mármore e a superfície reflexiva do bronze fundido, passível de oxidação e desgaste, promete expandir o campo tátil de suas obras. A introdução do metal não visa ao adorno, mas ao estabelecimento de um novo diálogo de pesos, temperaturas e resistências mecânicas em um mesmo corpo escultórico.

Habitar a verticalidade de São Paulo

As esculturas de Guto Neves não ignoram a geografia do lugar em que são produzidas. Pelo contrário, propõem, a partir dela, uma leitura crítica e morfológica. O artista propõe uma distinção entre as paisagens urbanas brasileiras que contribui para a compreensão de suas obras. “Enquanto o Rio de Janeiro, por exemplo, se apresenta como uma linha horizontal, orgânica e fluida, São Paulo se configura como uma estrutura vertical, geometricamente dura e predominantemente construída em linhas retas, na qual o concreto assume o protagonismo espacial.” Suas esculturas são fruto direto dessa rigidez paulistana.

Obra de Guto Neves em mármore branco, composta por dois módulos verticais geométricos com recortes internos sobre fundo branco.
Primeira Série: OBA, de Guto Neves. Disponível no site da Artsoul.

As peças de Neves incorporam a sensação de adensamento da metrópole. Como afirma o artista: “Eu gosto dessa densidade da matéria do mármore, que é uma coisa tensa.” O artista descreve a experiência de viver na cidade como um “sufocar que faz entrar em ebulição”, estado que impulsiona a criação. Ao chegarem a coleções e espaços expositivos, essas obras pesadas e densas encontram seu repouso e sua própria gravidade. A solidez do mármore organiza o entorno não pelo excesso, mas pelo equilíbrio de suas tensões internas.

O trabalho de Guto Neves se consolida como uma prática que utiliza o peso e o rigor da matéria para delimitar, acolher e estruturar o vazio no espaço habitado.

Matheus Paiva é internacionalista, formado pela Universidade de São Paulo, e produtor cultural.

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