
Residenza Vignale, Piloto Milano, Milano Design Week 2026, Milão, Itália. Foto: Divulgação.
A Semana de Design de Milão 2026 reuniu mais de 1.900 expositores de 32 países em 169 mil metros quadrados de área expositiva na Fiera Milano Rho. Em paralelo, o Fuorisalone ocupou os principais bairros históricos da cidade, com exposições e instalações que transformaram toda Milão em um circuito criativo. Nesse contexto, o Brasil marcou presença em múltiplas frentes.
O que chama a atenção na presença brasileira de 2026 é a diversidade de caminhos que trouxeram designers ao circuito: convites de marcas italianas, plataformas curatoriais construídas por brasileiros radicados em Milão e projetos que chegaram por iniciativa própria.
No Salone del Mobile, Pedro Franco ocupou o Hall 24 com estande independente, posição que mantém desde 2025 e que o torna o único designer brasileiro com presença autônoma dentro dos pavilhões da maior feira de design do mundo. Com 26 participações acumuladas ao longo de sua trajetória, Franco apresentou a poltrona Bambolotto, peça que sintetiza sua pesquisa mais recente ao propor um equilíbrio instável entre forma, matéria e movimento. Dessa forma, a tensão entre o artesanal e o industrial, presente em toda a sua obra, resulta em objetos que transitam entre escultura e design sem se fixarem em nenhum dos dois territórios.
Por sua vez, Leonardo Zanatta chegou à feira por convite direto da Serafini, marca italiana especializada em pedras decorativas de alta qualidade. Ser chamado por uma marca italiana para integrar uma seleção que circula entre nomes europeus e asiáticos é um feito ainda raro para designers brasileiros. Para a coleção Austral, Zanatta buscou referências na arquitetura brutalista paulistana, na obra de Lygia Pape e no suprematismo de Malevich. A mesa de jantar escolhida pela Serafini como peça central da estreia, segundo o próprio designer, lembra, quando invertida, uma maquete de arquitetura.

Além disso, no Salone Raritas, Humberto Campana apresentou uma série de tapetes para a Art de Vivre, inspirados em seus desenhos de estruturas celulares e reproduzidos manualmente em diferentes cores, texturas e relevos. A presença de Campana no espaço dedicado ao design colecionável reforça a conexão entre o modernismo brasileiro e o circuito de alto valor que o Raritas inaugurou nesta edição.

Fora dos pavilhões, no Fuorisalone, a presença brasileira se desdobrou em diferentes iniciativas. A primeira foi a Piloto Milano, plataforma criada e curada pelo brasileiro Ricardo Gaioso, radicado em Milão desde 2022. A terceira edição ocupou a Residenza Vignale, palácio de estilo Liberty de 1905 no distrito 5VIE, reunindo cerca de 20 designers sob o tema Echoes of Elsewhere, uma reflexão sobre o design contemporâneo a partir de repertórios culturais e contextos pessoais distintos.

Entre os brasileiros presentes, o destaque foi a estreia internacional de Bruna Horn com a série Aurora, luminárias em aço inoxidável e vidro de Murano feitas manualmente por artesãos milaneses, resultado de um diálogo entre o modernismo brasileiro e a tradição artesanal italiana. Além disso, Luccas Iatauro, do Puupa Studio, apresentou as cadeiras Whole Alone, da Coleção Intra, e Leonardo Zanatta integrou a mostra com seu trabalho em luminárias, acumulando uma presença dupla na semana.

Além da Piloto Milano, outros projetos brasileiros se espalharam pelo Fuorisalone por caminhos independentes, ocupando diferentes pontos da cidade.
Fernanda Marques abriu a semana com o tapete Lençóis Maranhenses, exibido no Museo Nazionale Scienza e Tecnologia Leonardo da Vinci. Produzido em lã, seda e mohair pela técnica hand-knotted, em colaboração com a americana By Henzel, o tapete traduz em curvas orgânicas e variações de relevo o movimento das dunas e a presença da água nos Lençóis Maranhenses. “Inspirado nos Lençóis Maranhenses, o tapete nasce de uma leitura sensível do território brasileiro, traduzindo em cada detalhe a memória de uma paisagem em constante movimento”, disse a designer.

Também no Fuorisalone, no distrito de Brera, Luciana Teixeira apresentou a coleção Saudade na mostra “IA — Inteligência Artesanal”. As luminárias ressignificam centrinhos de crochê fornecidos pela Associação dos Artesãos da Praça dos Imigrantes, de Campo Grande, combinando estrutura de madeira, sistema elétrico e lâmpada de filamento. Desenvolvidas com a arquiteta Maristela Cristaldo e concebidas com atenção ao ciclo de vida completo dos materiais, as peças criam uma relação entre luz, sombra e memória.

Ainda em Brera, na mesma mostra, Katharina Welper exibiu a mesa Cascata, ao lado de peças assinadas por marcas como Uultis e ÍCON Design, reforçando o peso coletivo da presença brasileira no distrito. Já no Senato Hotel Milano, a St. James apresentou a instalação Floresta Futurística, assinada por Matteo Cibic em celebração aos 50 anos da marca. Ambientada como uma paisagem onírica, a instalação propõe um diálogo entre arte, design e natureza, com a coleção Cafuné no centro da narrativa.
No distrito 5VIE, a exposição Alagoas Plural, com curadoria de Marco Aurélio, ocupou o espaço Le Cavallerizze, reunindo mais de 100 peças de 46 artesãos alagoanos. A mostra articulou design e cultura material a partir de técnicas como renda, cerâmica e fibras naturais, evidenciando a continuidade entre práticas tradicionais e produção contemporânea.

Diante de toda essa movimentação, o artista Alê Jordão, veterano do circuito milanês, resumiu bem o que a edição de 2026 revelou: “O Brasil sempre teve força em Milão, mas hoje vejo uma presença mais segura da própria identidade: existe menos preocupação em se encaixar e mais liberdade para assumir referências, contrastes e até imperfeições.”
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