
O sistema da arte contemporânea parece atravessar um momento de revisão e abertura. Embora durante décadas a arte têxtil tenha sido confinada ao domínio do utilitário, do doméstico ou do “artesanato menor”, o cenário atual revela uma transformação profunda. A 36ª Bienal de São Paulo, por exemplo, não apenas exibiu fios e tramas, mas os consagrou como suportes de pensamento crítico e rigor estético. Mais do que uma tendência passageira, trata-se de uma ampliação efetiva do olhar curatorial e institucional sobre o que constitui o fazer artístico. É nesse contato entre a tradição manual e a linguagem contemporânea que se situa a obra de Lorena Bruno.

Artista mineira, radicada em Uberlândia, personifica essa transição do têxtil para o “cubo branco” das galerias, sem abandonar, no entanto, a carga sensorial e o acolhimento que o material proporciona. Sua produção é um convite à pausa em um mundo cada vez mais acelerado.
Em um mundo regido por interfaces digitais e pela pressa da imagem descartável, o ato de tecer surge como uma contraproposta rítmica. Não por acaso, ao ser questionada sobre essa dimensão temporal, a artista observa que o fazer manual é, essencialmente, uma busca por conexão.
Hoje percebo que nada disso foi realmente um desvio, foi repertório”, explica. Suas vivências decantaram em uma sensibilidade que hoje se organiza no tear. A transição para a arte têxtil, no entanto, ocorreu de forma quase inesperada. Ao se deparar com uma tapeçaria em uma revista, Lorena vislumbrou um caminho até então inexplorado

Esse ritmo próprio transborda, naturalmente, para a obra. Ao observar uma de suas tapeçarias, o espectador é convidado a abandonar a leitura rápida e a mergulhar em suas camadas. A lã, o algodão e as fibras sustentáveis devolvem ao olhar uma tridimensionalidade que a tela do computador é incapaz de simular. O orgânico emerge, assim, como método e ética de produção, celebrando, afinal, o que escapa às réguas e aos padrões industriais.
A trajetória de Lorena Bruno não segue a linearidade acadêmica tradicional das Belas Artes, o que confere à sua obra um frescor particular. Graduada em Direito, com passagens pelo mercado da moda e formada em Design de Interiores e de Mobiliário, ela carrega o que chama de “repertório invisível”.
“Hoje percebo que nada disso foi realmente um desvio, foi repertório”, explica. Suas vivências decantaram em uma sensibilidade que hoje se organiza no tear. A transição para a arte têxtil, no entanto, ocorreu de forma quase inesperada. Ao se deparar com uma tapeçaria em uma revista, Lorena vislumbrou o caminho da produção têxtil.

Essa bagagem multidisciplinar é o que permite que suas peças dialoguem tão bem com o espaço. Sua formação em Design a leva a enxergar a tapeçaria para além do adorno de parede, como um objeto que habita a arquitetura. “Elas não estão ali apenas para serem vistas, e sim para alterar a percepção do espaço. De certa forma, a obra cria um pequeno campo sensorial ao redor do espectador”, afirma a artista.
Para o público leigo, a beleza de uma tapeçaria autoral pode esconder a complexidade técnica de sua execução. Lorena opera em seu espaço quase como em um atelier experimental, mesclando técnicas como o tufting (tufagem com pistola pneumática), o ponto russo e o latch hook.
Ao explicar seu processo criativo, ela revela que a técnica está a serviço da narrativa visual: “No Instagram eu tento mostrar um pouco do meu dia a dia, mas a verdade é que cada tapeçaria funciona quase como um pequeno laboratório. É um processo intuitivo, os volumes vão surgindo na medida em que vou construindo a obra.”

Nessa construção, o material frequentemente precede a ideia. Lorena conta que a escolha das fibras, naturais, sintéticas ou sustentáveis, é capaz de ditar o rumo da história que a peça contará.
Nesse ponto, o erro e o acaso ganham protagonismo como elementos que Lorena abraçou ao longo de seu percurso autodidata. “O fio tem um comportamento próprio: ele tensiona, cede, cria volumes inesperados. Meu processo tenta acolher essas respostas do material.
De exposições individuais em Uberlândia à participação na World Art Dubai e em diversas edições da CasaCor (São Paulo, Rio, Paraíba, Mato Grosso e Paraná), a recepção de seu trabalho revela um desejo global por essa estética do tátil e do orgânico. “Apresentar meu trabalho em contextos internacionais foi uma experiência muito interessante, porque percebi que a linguagem têxtil tem uma capacidade de comunicação bastante universal.”
Nesse sentido, a artista observa: “Ainda existe, em alguns contextos, uma tendência de olhar para o têxtil como algo decorativo. Mas isso vem mudando. Hoje vemos artistas utilizando o têxtil para discutir memória, território, identidade e política. A materialidade do fio carrega uma força simbólica muito potente.”
Essa maturidade atrai plataformas de curadoria criteriosa, como a ArtSoul. Em um mercado onde o colecionismo tradicionalmente se volta para a pintura e a escultura, a tapeçaria contemporânea de Lorena Bruno surge como uma alternativa que traz “presença” e “aconchego”, termos que, no contexto dela, ganham status de conceito artístico.


Essa maturidade atrai plataformas de curadoria criteriosa, como a ArtSoul. Em um mercado onde o colecionismo tradicionalmente se volta para a pintura e a escultura, a tapeçaria contemporânea de Lorena Bruno surge como uma alternativa que traz “presença” e “aconchego”, termos que, no contexto dela, ganham status de conceito artístico.
Ao trabalhar com tecelagem, Lorena Bruno manipula uma das tecnologias mais antigas da humanidade. Tecer é também evocar a memória de gerações de mulheres que trabalharam com o fio em diferentes contextos. O desafio da artista está em “reconhecer essa herança e, ao mesmo tempo, expandir suas possibilidades”.
“Acredito que trabalhar com tradição não significa repetir o passado”, afirma Lorena. “Quando utilizo técnicas tradicionais para criar formas e volumes contemporâneos, sinto que estou justamente nesse ponto de encontro entre memória e presente.”

Nesse sentido, o fio em suas mãos funciona como uma pincelada. Se na pintura a cor se deposita sobre a tela, na tapeçaria de Lorena a cor e a forma são construídas simultaneamente à própria estrutura do suporte. Trata-se de uma “pintura tátil” que expande os limites do quadro.
Lorena Bruno, assim como outras e outros artistas que vêm trabalhando com a arte têxtil, não está apenas produzindo objetos de decoração, mas contribui para uma pluralidade de vozes que hoje redefinem o panorama artístico. Sua entrada no mundo da arte, movida pela intuição e consolidada por um repertório de vida vasto, traz o frescor necessário para um circuito que muitas vezes se torna autorreferencial.
A artista busca, acima de tudo, o impacto sensorial. “Quando alguém encontra uma obra minha, espero que exista primeiro um encontro sensorial, a vontade de se aproximar, de perceber as texturas, quase de tocar. E, depois, que a obra possa provocar alguma pausa ou reflexão.”
Se o objetivo da arte contemporânea é, em última análise, nos fazer sentir e pensar o tempo em que vivemos, Lorena Bruno se insere nesse diálogo. Por meio de seus relevos, tramas e “erros” deliberados, ela nos lembra que a beleza, muitas vezes, reside naquilo que é irregular, manual e, acima de tudo, humano.
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