
O mercado de arte encerrou 2025 em recuperação após um período de ajustes, com sinais de confiança renovada especialmente no segmento de topo, onde grandes leilões e obras de alto valor voltaram a registrar transações expressivas. Paralelamente, artistas emergentes e propostas diversas encontraram espaço crescente. A retomada, porém, não trouxe euforia generalizada: as transações seguem cautelosas e seletivas, orientadas pela confiança e pelo critério.
Em 2026, esse movimento deve persistir e revelar novas dinâmicas. Em meio a juros elevados e incertezas macroeconômicas, o sistema demonstra resiliência e expande sua lógica para além dos artistas consagrados, se transformando em um ecossistema mais plural, diverso e atento às mediações culturais. Veja o que indicam as análises recentes.

Além da recuperação no topo do mercado, uma das principais mudanças apontadas para 2026 é o crescimento na compra de obras de pequeno formato, especialmente online. Dados da Artsy indicam que, em 2025, as aquisições de trabalhos classificados como pinturas em miniatura e de pequena escala cresceram 66%, enquanto cerca de 40% de todas as vendas se concentraram em obras de pequeno formato.


Somado aos pequenos formatos, cresce o interesse por categorias historicamente consideradas secundárias, como gravuras, desenhos e aquarelas. Esse movimento aparece de forma pontual nos grandes leilões. Em 2025, a Sotheby’s realizou uma venda dedicada a gravuras de Roy Lichtenstein e incluiu séries de David Hockney em sessões de destaque no calendário londrino. Esses episódios indicam maior visibilidade para gravuras em vendas dedicadas e segmentos específicos, ainda que os leilões noturnos principais sigam concentrados em pintura e escultura.
Quanto aos temas, a Artsy aponta que obras ligadas ao cotidiano ganham espaço, especialmente aquelas que abordam convivência, mesa e comida como lugares de relação. Esse movimento vem acompanhado de preferência por paletas contidas, com destaque para tons de azul. Trabalhos abstratos e semiabstratos seguem concentrando parcela significativa das vendas, reforçando que o mercado privilegia linguagens abertas, capazes de sustentar múltiplas leituras.
O perfil do comprador de arte mudou nos últimos anos, com maior entrada de compradores jovens em determinados segmentos. Dados das principais casas de leilão indicam esse movimento de renovação parcial. Segundo a Christie’s, 46% dos novos licitantes em 2025 pertenciam a gerações mais jovens, enquanto a Sotheby’s informou que 29% dos participantes tinham menos de 40 anos. Esses números apontam para ampliação da base geracional de compradores, ainda que o volume financeiro siga concentrado em colecionadores estabelecidos.
Esse público, formado principalmente pelas gerações Y e Z, atua de maneira distinta no mercado. Além de participar de leilões presenciais, esses compradores usam plataformas online e acompanham galerias digitais. Segundo o Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2025, colecionadores dessas gerações demonstram hábitos de compra mais variados: estão mais dispostos a adquirir obras de artistas menos conhecidos e destinam parcela maior de seus recursos à arte. Esses dados mostram que a decisão de compra é guiada não apenas pelo investimento, mas pelo envolvimento mais amplo com artistas e circuitos.
Dessa forma, esses comportamentos ajudam a explicar o crescimento de formatos acessíveis, como gravuras, edições e obras de menor escala, que permitem experimentação e aprendizado sem a pressão de grandes investimentos.
Em 2026, museus, bienais e grandes exposições seguem como fatores centrais de valorização no mercado de arte. Um estudo publicado na revista Research in Economics analisou mais de 34 mil resultados de leilão e indicou que a participação em exposições institucionais relevantes tende a se refletir em preços mais altos ao longo do tempo. Com edições da Bienal de Veneza, da Whitney, de Lagos e de Diriyah previstas para este ano, o circuito institucional continua a orientar o interesse de colecionadores.
Esse tipo de validação curatorial passou a funcionar como referência para a formação de acervos planejados. O caso de Simone Leigh ilustra esse movimento. Após representar os Estados Unidos na Bienal de Veneza de 2022 e receber o Leão de Ouro, seu valor em leilão passou de US$337 mil para US$5,74 milhões em 2025. Essa valorização acompanhou diretamente o aumento de sua visibilidade institucional. No Brasil, a 36ª Bienal de São Paulo consagrou nomes como Ana Raylander Mártis dos Anjos, posicionando a artista em um patamar de maior visibilidade institucional.
O impacto institucional também se manifesta nas grandes feiras. A Art Basel Miami Beach de 2025 destacou artistas latino americanos, indígenas e da diáspora, acompanhando o interesse crescente por narrativas ligadas à identidade e à história cultural.

O mercado de arte segue ampliando sua distribuição geográfica, com presença internacional menos concentrada em um único eixo. Estados Unidos e Europa permanecem centrais, mas dividem atenção com outras regiões que vêm consolidando infraestrutura institucional, calendário de feiras e atuação comercial.
Nesse sentido, o Oriente Médio se insere progressivamente nesse movimento. Para 2026, estão previstas a abertura do Guggenheim Abu Dhabi, a primeira edição da Art Basel Doha e a continuidade da Frieze Abu Dhabi. Juntos, esses eventos reforçam o papel da região como polo institucional e comercial em crescimento no circuito internacional.
Ao mesmo tempo, casas de leilão ampliam sua atuação local. A Sotheby’s anunciou a expansão de sua presença na Arábia Saudita e intensificou operações durante a Abu Dhabi Art Week, mostrando estratégia de aproximação com colecionadores e fortalecimento de relações comerciais na região.

Em 2026, a tecnologia passa a ser tratada menos como ruptura e mais como parte da estrutura básica do mercado, atuando tanto na criação artística quanto na infraestrutura operacional. A arte digital deixa de ocupar lugar secundário. Segundo o Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2025, 51% dos colecionadores compraram ao menos uma obra digital, e essa categoria está entre as principais em volume de gastos, ao lado de pintura e escultura.
Esse cenário se reflete na consolidação da Art Basel Zero10, setor dedicado à arte digital e novas mídias. Lançada como espaço experimental dentro da feira, a iniciativa amplia a visibilidade desse segmento e passa a ocupar lugar mais integrado na estrutura da Art Basel, com indicações editoriais de possível presença em outras edições, como Hong Kong e Basileia, refletindo sua incorporação progressiva ao circuito principal.
Paralelamente, observa-se maior atenção a práticas manuais e ao uso de materiais tradicionais. Cerâmica, têxteis e trabalhos que evidenciam gesto e matéria aparecem com maior frequência em galerias e feiras. Esse movimento ocorre em paralelo com a ampliação do uso de tecnologias digitais.
Em um contexto de expansão de ferramentas de inteligência artificial na produção de imagens, parte do debate curatorial e do interesse do mercado enfatiza obras que tornam visíveis processos, materialidade e presença humana, sem configurar oposição às tecnologias digitais.
Fontes: Art market 2026 predictions: underwhelming rebound and another Frieze fair; Fine-art market sees buyers return; Digital art is going mainstream; 5 Themes That Will Define the Art Market in 2026; 12 Collectors on the Artists, Shows, and Trends to Watch in 2026; Art Basel Miami Beach 2025: feira põe a arte latina, indígena e diaspórica no centro do debate global; Observer’s 2025 Art Market Recap: Recovery After a Year of Recalibration; The Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2025; Entre retomada e recalibragem: o mercado de arte em 2025; Historic art exhibitions; Sotheby’s projects 2025 consolidated sales of $7 billion.
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