Vestir a revolução

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Yayoi Kusama

Algumas passagens marcam a nossa vida de forma acidental. Uma cena, uma palavra, um objeto, uma pessoa, coisas que nos são apresentadas pelo mundo sem grande expectativa, de maneira desinteressada, mas que, por algum motivo, parecem desviar uma rota pré-estabelecida. Esses encontros inesperados nos fazem questionar categorias e definições, gostos, cultura, conhecimento e erguem pontes entre diversos outros pensamentos antes desconectados, que, a partir daquele momento, passam a ter novos sentidos e gerar ideias originais. Nesse momento, o sentimento é de náusea, ansiedade, iluminação, insegurança.  Se deixar confrontar com o estranho é estar aberto a modificar a maneira como entendemos a nossa existência, ou, mais do que isso, é nos dar a oportunidade de enxergar mundos antes invisíveis. Algumas pessoas passam a vida em busca dessas rachaduras de realidade, outras, tendem a se preservar da inconsistência e imprevisibilidade que é deixar ruir aquilo que se escolheu acreditar como verdade – pela manutenção da estabilidade, melhor não questionar aquilo que já foi dado como certo. Por que contestar gravatas e vestidos se eles funcionam?

Vestir a revolução
Andy Warhol, 1986

Se deixar permear pelo incômodo da inconsistência, do questionamento, do risco, do desvelamento do invisível é a base do pensamento artístico. O devir artista por sua vez é traduzido pelo criador em todas suas esferas estéticas; dessa forma ele elabora trejeitos, palavras, maneirismos, estilos, decorações, ornamentos, para além de sua obra e transforma a si mesmo em suporte. De alguma maneira, todos nós fazemos isso. Acordamos, abrimos os olhos e ao nos vestir, decidimos o melhor figurino para o personagem que queremos interpretar.

Frida Kahlo

O artista, no entanto, – sendo ele determinado mais pela pulsão de vida do que pela midia que frequenta – nos ajuda a desafiar os limites impostos ao agenciamento de nossa figura social. Pensemos na artificialidade dos trejeitos de Andy Warhol, nos pés descalços e ternos caros de Basquiat, na irreverência do bigode de Salvador Dalí, no chapéu noir de Joseph Beuys, na simplicidade Beatnik de Pollock, nas roupas coloridas de Frida Kahlo, no exagero gráfico de Yayoi Kusama, para nomear alguns poucos. Todos extrapolam seus suportes de trabalho para contar, sobre seu próprio corpo, as rachaduras do mundo que habitam.

As relações entre a obra artística e a construção da imagem do artista em si, trazem à tona elementos muito mais interessantes para pensarmos as confluências entre Moda e Arte do que se nos atermos apenas às colaborações mais conhecidas historicamente. Elsa Schiaparelli e Salvador Dalí (1937), Yves Saint Laurent e Andy Warhol (1974), Comme Des Garçons e Cindy Sherman (1994), Louis Vuitton e Takashi Murakami (2003 – 2009), Alexander McQueen e Damien Hirst (2013) são algumas que geraram encontros prósperos e reconhecimento internacional. Existe, no entanto, um exemplo pouco conhecido que merece destaque, uma vez que fala sobre a colaboração entre criadores, quando mais do que juntar forças estéticas para lançar um novo produto de moda, elevou a máxima filosófica, “a estética é uma ética” pela ousadia de vestir a revolução que se desejava para o mundo.

Vestir a revolução
Alexander McQueen + Damien Hirst (2013)

O final do século XIX e a virada do século XX viram o primeiro levante feminista eclodir. Lutava-se pelo direito ao voto, pela educação feminina e principalmente pela liberdade de movimento que incluía a emancipação do espartilho vitoriano. Ao mesmo tempo, na Arte, os impressionistas e seus dissidentes, enfrentavam a rejeição de um sistema estruturado em tradições formais que não se deixava permear por novas linguagens. É nesse ambiente de ruptura de mundos que Emilie Flöge e Gustav Klimt se conhecem e iniciam uma relação passional, que transborda suas criações individuais para construir uma vida como obra de arte. Flöge, uma estilista de sucesso em Viena, encontra em Klimt um parceiro de gênio revolucionário simbiótico. Juntos, eles criam roupas que os mesmos declaram como “obras vestíveis”. Ambos se tornam estilistas, pintores e principalmente suportes. Em 1902, Klimt eterniza em óleo a beleza rebelde de Emilie Flöge. O que poucos sabem é que o vestido estampado do quadro não se imobilizou ali, ele passeava pelas ruas de Viena, largo, solto, colorido, permeava o mundo, conquistava encontros inesperados e cessações. As formas amplas e adornadas revindicavam um novo olhar sobre as mulheres e chocavam uma sociedade acostumada com corpos moldados por corsets e crinolinas.

 Emilie Flöge, 1902 de Gustav Klimt & Retrato de Emilie Flöge, início do século XX

 A relação de Gustav e Emilie é um exemplo sobre como podemos observar as colaborações entre Moda e Arte, quando o processo criativo se torna a principal fonte de inspiração, mais do que o produto final. Diversas marcas de moda importam para seus vestidos estampas inspiradas em obras de arte (Yves Saint Laurent e Mondrian), outros inspiram-se em cartelas de cor (quase todos os desfile de 2017 e David Hockney), outras ainda homenageiam grafismos de forma literal (Virgil Abloh e Lucio Fontana). No entanto, o devir gênio é mais do que o produto que ele gera.

Vestir a revolução
Trabalho do designer gráfico AG Fronzoni baseado no corte assinatura de Lucio Fontana para exposição em 1966 e camiseta Off-White fall-winter 2016.

O que confere a alma da obra de arte é a capacidade do artista em olhar para o mundo de forma invertida, de conseguir enxergar algo que ainda paira no ar e não foi explicado, a habilidade de olhar para as coisas não pelo o que elas são e sim pelo o que elas podem vir a ser. Importar o resultado final de uma obra parece tentador, mas esvazia de sentido o ato. Para uma interação entre Arte e Moda que produza intensidades, deve-se deixar permear pelo inesperado, se abrir para as imprevisibilidades dos desvelamentos. Uma moda inspirada na arte, portanto, não traz para si uma cartela de cor e sim a potência de um pensamento, não se apoia em um grafismo e sim se alimenta de impulsos disruptivos. Resta perguntar a nós mesmos, admiradores das artes, o quanto de seu espírito libertador estamos trazendo para nossa própria imagem. Olhe-se no espelho e se pergunte “eu visto a minha revolução”?

OLIVIA MERQUIOR, formada em Fashion Design pela Central Saint Martin’s de Londres, é diretora da Dacri Deviati, empresa polimática de curadoria de informação no mercado latino americano, é coordenadora de moda na América Latina do evento Première Vision e diretora criativa da marca Melissa. Além de apresentar o Highlow podcast.

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