Sob as cinzas, brasa: sobre a curadoria do 37º Panorama da Arte Brasileira 

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Em entrevista exclusiva, Cauê Alves, Claudinei Roberto da Silva, Cristiana Tejo e Vanessa Davidson – curadoria do novo Panorama da Arte Brasileira do MAM SP -, contam sobre a exposição que retorna 3 anos após sua última edição. 

A história do Panorama e sua importância para o MAM SP 

Inaugurado no dia 23 de julho, o 37º Panorama da Arte Brasileira, intitulado “Sob as cinzas, brasa”, marca o retorno da exposição mais relevante da história e da programação do Museu de Arte Moderna de São Paulo. 

A importância da exposição que ocorre a cada dois anos se explica na própria história do museu, como coloca Cauê Alves – atual curador chefe do MAM SP: 

“O Panorama é um momento muito especial para o MAM porque ele marca a reconfiguração de um Museu de Arte Moderna que se refaz depois da sua perda histórica em 1962, quando doa o seu acervo para a Universidade de São Paulo, que funda o Museu de Arte Contemporânea (MAC USP). O primeiro Panorama acontece em 1969 e vai justamente tentar acertar o passo do museu com a arte contemporânea, mostrando-o cada vez mais voltado para arte atual – tanto que o nome inicial dele era Panorama da Arte Atual Brasileira”. 

Já a curadora Cristiana Tejo reflete o papel dessa exposição no contexto de seu surgimento: 

“O fato do Panorama ter iniciado em 1969, um ano tão complexo no Brasil – inclusive o ano da crise da Bienal de São Paulo, o recrudescimento da ditadura do Brasil, etc. Podemos pensar que o Panorama se inicia como uma história de Fênix. Uma história de celebração da instituição, de reconstrução”.  

  • Marina Camargo. América-Látex (pós-extrativismo), 2020. Foto: Tiffany Danielle Elliott.

Após 3 anos, construído em casa

Entre as particularidades desta edição, pode ser mencionado o fato de a 37ª ser a primeira a ocorrer em um ano par, motivado pela pandemia. Além do time ser composto por curadores que fazem parte da comissão de arte do museu: 

“Todos fazem parte da equipe do museu, cada um com responsabilidades diferentes, meus colegas colaboram na definição da programação, da grade de exposições, de doações, etc”, lembra Cauê.  

Para o curador Claudinei Roberto da Silva, a formação desse time tem um papel fundamental no modo como o projeto se delineou: 

“Nós temos duas mulheres, uma delas, a Cris, é nordestina. A Vanessa é norte-americana, eu sou negro e parece que isso é um acontecimento inédito no Panorama. De modo que essas contribuições – eu espero – tenham criado oportunidade para que esse Panorama espelhe uma diversidade política, de gênero, de raça, de classe, porque tudo isso esteve no radar desse grupo. Tenho a impressão que atendemos a demandas sociais e nesse sentido cumprimos o destino original do Panorama desde a sua fundação”.

Sobre a relação interna dos curadores e culminância dessa exposição, Cristiana entende a curadoria como uma oportunidade de posicionamento institucional: 

“É engraçado pensar que esse é um Panorama de casa, como uma aposta mesmo, uma crença na instituição, no nosso poder de reconstruir e apoiar as instituições brasileiras. Eu acho isso muito importante porque, como notório, a questão da crítica institucional que é super importante mundo afora, no Brasil é uma nuance, é o contrário”.

Para Claudinei, a atuação da curadoria e as possibilidades trazidas pela instituição colocam essa exposição em um lugar particular em comparação ao cenário do país: 

“Acho muito significativo essa perenidade do Panorama. No Brasil, infelizmente as instituições têm muita dificuldade de se perenizar, de sedimentar procedimentos, protocolos, criar uma identidade que possa de alguma maneira projetar essa instituição para todo o país, para que ela tenha capilaridade. Ela precisa existir no tempo, e com qualidade, e tenho a impressão que isso foi alcançado. Como a Cris disse, em 1969, nós vivemos uma situação de grande tensão e muito problemática, mas, naquilo que respeita a cultura, essa tensão e esses problemas mais ou menos permaneceram”.

Esse tipo de capilaridade e um maior alcance da curadoria Brasil adentro é visto na diversidade de artistas trazidos à exposição: 

“É importante notar que quisemos destacar artistas que não têm tido o reconhecimento merecido na cena brasileira atual. Tem muitos artistas com maior reconhecimento que poderíamos ter incluído, mas tomamos a decisão de focar em artistas cujas práticas têm sido ignoradas pela cena nacional e internacional, mas são tão inovadores que merecem maior reconhecimento”, reforça a curadora Vanessa Davidson. 

  • Eneida Sanches e Tracy Collins. Eu não sou daqui, 2014. Foto: Tracy Collins. 

Na costura dessas produções, a curadoria não formulou eixos explicitamente declarados, mas afirma que alguns pontos surgem em destaque: 

“A discussão de símbolos nacionais, mapas, bandeiras e a ideia de nação, que tem a ver com a efeméride do Bicentenário da Independência, uma data que de algum modo nos debruçamos. Também podemos ver alguns eixos de artistas que vão olhar para o legado da Arte Moderna, especialmente o modo como ela foi patrimonializada a partir de monumentos racistas, colonialistas, com artistas que discutem tanto Brasília como monumentos modernos, como o obelisco, o Borba Gato e entre outros”, afirma Cauê, sinalizando outros eixos:  

“Temos artistas que vão falar mais da relação com o corpo, com a terra, com a cerâmica, isso é fundamental. Além de artistas que nos servem como espécies de âncoras históricas e nos ajudam a pensar na relação com o passado colonial e o modo como a terra foi explorada, arrasada, dizimada desde o derrubador de árvores do Glauco Rodrigues até a Celeida Tostes, já para citar duas âncoras históricas”. 

Expografia

Para que o diálogo entre as obras fosse expandido, a curadoria optou por uma expografia mais aberta:

“O intuito é que, desde a entrada, possa ser visto quase tudo e, a partir daí, o que está no início faz um diálogo com o que está lá no fundo da sala. Realmente há uma possibilidade de cada um ir fazendo seus circuitos e criando as suas relações”, define Cristiana. 

Vanessa lembra também que existem obras inéditas na exposição: 

“É um espaço muito aberto para facilitar os diálogos entre as obras. [O visitante] vai encontrar não somente obras de artistas que tem produzido nos últimos anos, mas também obras comissionadas especialmente para o Panorama que são muito especiais”.

Além disso, a exposição se expande também para o Jardim das Esculturas do Parque do Ibirapuera, com uma obra de Jaime Lauriano, além de uma parceria com o Museu Afro Brasil que recebe, pelo Panorama, obras de Davi de Jesus do Nascimento e Lídia Lisboa.

  • Lídia Lisboa. Cupinzeiros. Foto: Henrique Zaad. 

A curadoria dentro do tempo

Apesar de ter sido desenvolvida ao longo da pandemia, a curadoria não tematizou este cenário específico nas escolhas de artistas e obras. Antes, olhou para uma temporalidade mais ampla, mas que ainda proporciona um olhar para o agora. Cristiana elabora mais sobre essas relações temporais: 

“Eu diria que são obras que nos ajudam a metabolizar o que nós estamos vivenciando, no sentido do reconhecimento de que essa crise [pandêmica] que estamos vivendo a nível global é uma das crises. Mas não deixa de ser uma espécie de culminância de um processo histórico de 500 anos, de exploração da terra, dos povos…

O público não vai encontrar obras que falam diretamente do covid ou obras que tenham sido feitas com as condicionantes da pandemia. A maior parte se relaciona com temporalidade mais ampla, ou múltiplas temporalidades”. 

E Cauê complementa: 

“Essa ideia das múltiplas temporalidades é muito importante. Claro que a gente pode ler o Panorama com a lente dos últimos dois anos de pandemia, mas pode ser outra coisa também. No nosso Panorama a arte não é um meio para passar uma mensagem apenas, mas ela tem a sua polivalência, sua multiplicidade”. 

  • Rodriguez Remor. Japamala. Foto: Patrícia Sales. 

O núcleo educativo do MAM no Panorama 

O núcleo educativo possui uma atuação fundamental no museu, e esteve presente nos processos curatoriais do Panorama:

“O educativo participou das nossas reuniões desde o início e nós vemos o educativo como parte integrante do processo de construção da curadoria – e, não só, como também no processo de construção de algumas obras, nas quais o educativo está dentro da obra, a potencializa. A voz dele não é uma voz que chega depois, ao contrário, tem obras em que a ação educativa está no interior. O [núcleo] educativo certamente é um protagonista” defende Cauê.

Cristiana complementa a respeito da visão da curadoria sobre o papel da arte educação: 

“Essa experiência com educação de cada um de nós, de uma maneira não pré-determinada, mas já totalmente contaminada com o olhar, nos guiou nesse sentido. Também pensando que educação não é só você pegar na mão da pessoa e fazer uma visita guiada, não é isso. É deixar justamente essa liberdade de experiência e de caminhos para que cada sujeito se aperceba e crie suas próprias opiniões e sentimentos”.

  • Giselle Beiguelman. Meio monumento, 2022. Imagem: Divulgação.

Por fim, Claudinei sinaliza o que pode ser esperado pelo público visitante:

“O público vai ter uma oportunidade extraordinária de pensar a nossa realidade a partir da narrativa que está sendo organizada com essas múltiplas contribuições. Sobre essa expografia que facilita a construção de uma narrativa mais ampla, como se você tivesse a oportunidade de se aproximar de uma obra a partir de outra e isso traz uma  riqueza extraordinária para a proposta. Torna, possivelmente, mais potente aquilo que já tem uma força extraordinária”.

A programação do educativo pode ser acompanhada na agenda do MAM.


Diogo Barros é curador, arte educador e crítico, formado em História da Arte, Crítica e Curadoria pela PUC SP.

Entrevista concedida por Cauê Alves, Claudinei Roberto da Silva, Cristiana Tejo e Vanessa Davidson via chamada de vídeo em Junho de 2022.

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