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Cerâmica e Porcelana: Diferenças e Técnicas no Design Artesanal

Publicado por Artsoul em 13/01/2026
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Existe um fascínio ancestral no ato de moldar o barro. Milênios de história humana estão contidos no gesto de transformar a argila úmida em forma perene. Desde os utensílios rústicos aos objetos mais refinados, a cerâmica nos conecta à terra e ao fogo de maneira única. No design contemporâneo, esse material primordial se desdobra em linguagens visuais e estéticas distintas, mas que partem de um mesmo princípio.

É neste ponto de partida que está a distinção essencial entre a cerâmica e a porcelana. No cotidiano do ateliê, não são antagonistas, mas duas narrativas de um mesmo processo, caminhos diferentes que a técnica e o fogo oferecem á mesma matéria. Entender essas diferenças é compreender as intenções de quem transforma minerais em arte.

Para aprofundar essa discussão, buscamos o olhar de Nicole e Luiza Toldi. Especialistas em porcelana de alta temperatura, mãe e filha desenvolvem um trabalho que une o rigor técnico à sensibilidade orgânica, e são referências no design artesanal brasileiro contemporâneo. Para elas, a técnica não é um fim em si, mas a estrutura que sustenta o diálogo criativo. Como observa Nicole, “a colaboração entre mãe e filha estrutura todo o ateliê”.


Algumas das peças criadas pelo Ateliê Nicole e Luiza Toldi. Reprodução: SP-Arte. Foto: Luiza Toldi e Álvaro Dominguez.

Diferenças entre Cerâmica e Porcelana: Composição e Temperatura

A distinção fundamental entre os dois materiais está na composição e, principalmente, na temperatura de queima. A cerâmica, que abrange tipologias como a terracota, a faiança e o grés, é moldada a partir de argila natural, mais abundante e rica em óxidos metálicos que lhe conferem tons terrosos.

Já a porcelana é um material de alta pureza mineral. Sua base é o caulim, que garante a brancura, misturado ao quartzo e ao feldspato para permitir a vitrificação completa. O divisor de águas é o fogo: enquanto a cerâmica queima em temperaturas mais baixas (geralmente entre 900 °C e 1.150 °C), a porcelana de alta temperatura exige calores extremos, atingindo entre 1.300 °C e 1.450 °C.

Nesse estágio, a porosidade é eliminada, tornando o material impermeável e dando a ele a famosa translucidez. No entanto, o caminho até esse resultado exige planejamento minucioso. Para as artistas do Ateliê Toldi, o processo não se resume ao momento do forno. “A queima da porcelana é um momento decisivo, mas ela não começa no forno. Começa no modo como a peça é pensada, construída e deixada secar”, explicam. Trabalhar nessa faixa de calor exige controle rigoroso sobre umidade e espessura, mas as artistas ressaltam que o controle não é mecânico e nasce da “combinação entre conhecimento técnico e escuta sensível do comportamento do material”. Para elas, o forno deixa de ser um mero equipamento para se tornar “agente ativo do processo”.

Trabalhar com Porcelana: Técnica e Sensibilidade

Além das especificidades químicas, existe uma dimensão tátil que altera a forma como o artista interage com o material. Trabalhar com porcelana exige, segundo Nicole e Luiza, um tipo de presença muito específica na modelagem.

Diferente da cerâmica, que aceita uma condução mais cadenciada e tolerante, a porcelana exige foco imediato. “Ela responde imediatamente ao toque e não permite distrações. O gesto precisa ser atento, mas não contido”, revela o ateliê. Essa necessidade de prontidão transforma o trabalho em um exercício de concentração absoluta.

Nesse contexto, a alternância com as argilas tradicionais oferece um contraponto pedagógico e criativo. Segundo as ceramistas, as argilas oferecem outra escuta, com mais resistência e outro ritmo. “Trabalhar entre esses materiais amplia o vocabulário do ateliê. Cada um exige um gesto diferente, e é nessa alternância que o fazer se mantém vivo”, pontuam. Essa versatilidade manual permite ao artista transitar entre diferentes “tempos” da matéria, valorizando o objeto não apenas pela sua dureza final, mas pela disciplina de quem o moldou.

Trabalhar entre esses materiais amplia o vocabulário do ateliê. Cada um exige um gesto diferente, e é nessa alternância que o fazer se mantém vivo

Subvertendo a Perfeição: A Porcelana e a Natureza

Historicamente, a porcelana é associada a uma estética de perfeição industrial: peças lisas, brancas e delicadas ao extremo. No entanto, o design contemporâneo amplia esse entendimento. No trabalho de Nicole e Luiza, essa subversão busca formas orgânicas e texturas que se aproximam da natureza.

Para elas, o objetivo não é negar a nobreza do material, mas permitir que ele incorpore gestos mais livres e superfícies irregulares. “A rusticidade que aparece no trabalho não é um efeito planejado, mas algo que surge do encontro entre gesto, material e processo”, explicam.

Essa filosofia permite que o ateliê escolha o material que melhor dialoga com a investigação do momento, pois entendem que “cada matéria carrega um tempo, um peso e uma resposta diferente”. Assim, a porcelana deixa de ser um símbolo de rigidez para se tornar um suporte de investigação sensorial, em que a marca do gesto livre é tão importante quanto a brancura do caulim.

Peças da coleção “Origem”, do Ateliê Nicole e Luiza Toldi. “Desenhos atentos aos detalhes revelam a intimidade da natureza por meio da morfologia de plantas e frutos. Com traços livres, sem pretensões de uma representação fiel, as ilustrações botânicas de Luiza estampam as peças criadas pela mãe”. Reprodução: Ateliê Nicole e Luiza Toldi.

Alta Temperatura e Controle Técnico na Porcelana

Trabalhar com as variáveis extremas da alta temperatura impõe um limite tênue entre o sucesso e a perda da peça. Para as Toldi, o rigor técnico é uma ferramenta para viabilizar a criação, e não uma barreira. “Trabalhar com alta temperatura exige rigor técnico, não há como ignorar isso. Mas esse rigor existe para sustentar a liberdade, não para limitá-la”, afirmam.

Essa base técnica permite que elas lidem com o acaso de forma produtiva. Como o fogo sempre traz algum grau de imprevisibilidade, a aceitação desse imprevisto se torna parte da linguagem do ateliê. Para Nicole e Luiza, esse “diálogo constante com o acaso” é o que permite que erros estruturais sejam descartados, enquanto imprevistos poéticos sejam incorporados, ampliando o sentido da obra final.

A Química das Cores: A Alquimia dos Esmaltes

Outro ponto de distinção fundamental está no acabamento. Na cerâmica artesanal, o esmalte não é uma tinta aplicada superficialmente, mas uma mistura mineral que funde com o corpo da peça durante a queima. No Ateliê Toldi, a química é tratada como uma extensão do gesto.

“Desenvolvemos esmaltes de alta temperatura pensando em como eles reagem às superfícies, às texturas e às variações do relevo”, contam as ceramistas. A pesquisa busca um diálogo entre o esmalte e a peça. As cores e acabamentos nascem de testes sucessivos e da observação de como a matéria responde, fugindo de paletas fixas. Para elas, cada superfície pede uma resposta diferente, e a cor é a materialização desse “momento do fazer”.

Da Peça Utilitária à Obra de Arte

A transição entre o que chamamos de “utilitário” e o que reconhecemos como “obra de arte” é um dos temas mais férteis no design contemporâneo. Muitas vezes, uma peça que nasce de uma necessidade prática, como um vaso ou um bowl, ganha tamanha autonomia ao longo do processo que a função deixa de ser o único propósito.

Na visão de Nicole e Luiza, essa fronteira é fluida. “Quando o objeto passa a carregar uma presença que vai além do uso, ele se aproxima naturalmente do campo da arte. Não vemos essa transição como algo fixo”, explicam. O material escolhido contribui para essa leitura, mas o que realmente define a obra é o caminho que ela percorre até se tornar o que é.

Essa maturidade artística conecta o trabalho do Ateliê Nicole e Luiza Toldi ao acervo da Artsoul. Ao lado de trabalhos de Isadora Mourão, Alice Aroeira e Gabriela Batista, revelam diferentes caminhos da matéria: enquanto Alice e Gabriela celebram a rusticidade terrosa, Nicole e Luiza investigam a porcelana de alta temperatura, em que técnica rigorosa e formas orgânicas se encontram.

Vaso – CONTORNO N.02. Peça por Isadora Mourão, disponível no site da Artsoul.
Vaso Átimo Vermelho. Peça por Gabriela Batista, disponível no site da Artsoul.
HÍBRIDOS N°10. Peça por Alice Aroeira Studio, disponível no site da Artsoul.

O Valor do Gesto e a Herança do Ofício

No fundo, a cerâmica e a porcelana representam dois modos de relação do ser humano com a matéria. Ambas, no entanto, são manifestações do desejo de permanência e de transmissão de conhecimento.

A colaboração entre mãe e filha ilustra como o ofício da cerâmica é vivo e colaborativo. Muitas vezes, Luiza identifica uma demanda que se encontra com as pesquisas minerais de Nicole no momento do fazer. “O nome e o sentido da coleção surgem depois, como uma leitura posterior do processo vivido”, revelam

Essa troca constante cria uma linguagem em que técnica, gesto e intuição convivem sem hierarquia. Em um mundo dominado pela produção rápida, escolher uma peça artesanal é um ato de valorização da história. Seja um objeto em cerâmica terrosa ou uma peça em porcelana de alta temperatura, o valor simbólico está na sua singularidade irrepetível, no registro de que ali houve um corpo, uma mente e um par de mãos em diálogo com o tempo.

Ao contemplar o acervo da Artsoul, o público é convidado a compreender que a verdadeira beleza está no equilíbrio entre o rigor do caulim e a acolhida do barro. Porcelana e cerâmica nos ensinam que o objeto, quando trabalhado com alma e respeito ao processo, deixa de ser apenas um utensílio para se tornar uma fonte eterna de reflexão.

Matheus Paiva é internacionalista, formado pela Universidade de São Paulo, e produtor cultural.
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