
Masterplan assinado pelo Estúdio Leonardo Zanatta Arquitetura. Foto: Divulgação/BAB
A Bienal de Arquitetura Brasileira estreia em 25 de março no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera. A BAB chega com 20 mil metros quadrados de exposição, 28 pavilhões organizados pelos seis biomas do país e Uma pergunta que orienta toda a sua proposta: o que acontece quando a arquitetura passa a ser percebida como linguagem cultural, expressão de território e forma de pertencimento?

Para concretizar essa proposta, a BAB adotou uma lógica curatorial que a diferencia de iniciativas anteriores do setor: todos os projetos foram selecionados por concurso público, com votação por pares, aberto a arquitetos de todas as regiões do Brasil.. Nesse sentido, o júri foi composto por nomes de referência do campo, entre eles Daniel Mangabeira, Greg Bousquet, Marko Brajovic e Rodrigo Ohtake.
A partir desse processo, o Masterplan da edição inaugural, responsável por organizar e dar forma ao espaço que abriga toda a mostra, coube ao Estúdio Leonardo Zanatta Arquitetura, escolhido entre dezenas de propostas enviadas de todo o país. Com essa estrutura definida, cada pavilhão estadual foi concebido para traduzir a relação entre arquitetura, clima, cultura e modos de vida locais.
A Bienal é dividida entre dois núcleos expositivos: o Pavilhão Brasil, instalado no interior do PACUBRA, com ambientes de aproximadamente 100 metros quadrados, e o Pátio Metrópole, sua extensão ao ar livre. “A Bienal precisa ocupar uma cidade”, disse Raphael Tristão, fundador e presidente da BAB, “e o Ibirapuera é essa cidade.”
O Pavilhão Brasil reúne ambientes organizados pelos seis biomas do país, cada um com cinco cômodos construídos em escala real. A Casa Empate Mulheres Seringueiras, pelo Acre, é um dos projetos mais carregados de sentido da mostra. Concebida por Marlúcia Cândida em colaboração com Marcelo Rosenbaum, a instalação evoca os empates da floresta, forma de resistência não-violenta dos seringueiros contra o desmatamento, ligada à história de Chico Mendes. O foco está no protagonismo das mulheres nessa luta. O espaço recria o interior de uma moradia tradicional seringueira, com cuias, luminárias do tipo poronga, redes integradas à estrutura e objetos do cotidiano feminino. Marlúcia Cândida, mestra pela UnB com pesquisa sobre arquitetura vernacular amazônica, responde pela voz técnica e territorial do projeto. Rosenbaum, por sua vez, acumula 14 anos de parceria com povos do Acre.


Esse protagonismo feminino se repete em outros biomas com a mesma força. No Cerrado mineiro, a Casa Adélia Prado, assinada por Marina Reis Arquitetura, homenageia a maior poetisa viva do Brasil, cuja obra encontra o sagrado no cotidiano doméstico — matéria-prima direta do projeto. Da mesma forma, no Nordeste, o Relicário de Voinha, de Sergipe, do Mangaba Estúdio, propõe uma casa-memória construída a partir das tradições transmitidas pela avó.
Na Mata Atlântica, o Loft da Escritora, de Gabriel Rosa, o arquiteto negro mais jovem da história da CasaCor Brasil, traduz o habitar urbano paulistano com sensibilidade intelectual e afetiva. Já a Casa Corcovado, assinada pela carioca Paula Martins, transporta para um apartamento em São Paulo a atmosfera leve e informal que define o estilo de vida carioca. Tons de verde e azul evocam a proximidade entre floresta e mar, enquanto a curadoria de arte de Belchior Almeida completa a composição. Concebido como homenagem a dois cariocas radicados fora da cidade natal, o projeto mobiliza a arquitetura como instrumento de memória e pertencimento.


Nos Pampas, a Querência Amada, do Rio Grande do Sul, pelo Studio Carbono e Matte Arquitetura, aposta em cimento queimado e paleta austera para traduzir o sentimento gaúcho de pertencimento. No Pantanal, por sua vez, a Casa Ñandejara, do Mato Grosso do Sul, assinada pela DNA, Deborah Nazareth Arquitetos, homenageia a herança indígena como fundamento da identidade sul-mato-grossense: “Ñandejara” é a palavra Guarani para “Nosso Senhor”.


No Pátio Metrópole, a arquitetura brasileira ganha outra dimensão: marcas do setor convidaram arquitetos para assinar seus espaços. Nas palavras de Raphael Tristão, “o protagonismo é sempre do escritório, viabilizado pela parceria com as marcas.” Entre as colaborações confirmadas, o Superlimão assina a Casa Electrolux, uma das mais densas conceitualmente. Com 150 metros quadrados e volumetria inspirada na casa brasileira, o projeto parte de uma pergunta direta: como materializar os valores de design, inovação e tecnologia da marca por meio da arquitetura?
A resposta está em materiais etéreos, neutros e predominantemente sustentáveis, e na lógica de circularidade que estrutura o espaço: a casa foi concebida para montar, desmontar e transitar entre eventos. Ao longo de toda a programação, o espaço recebe workshops com agendas abertas ao público, e visitantes que vivenciarem a experiência completa têm direito a 10% de desconto nos produtos da marca.
Além disso, o escritório assina também a Casa do Futuro, instalação que parte de uma provocação de Ailton Krenak — “o futuro é ancestral” — para reconciliar tecnologia de ponta e saberes milenares. A premissa é biomimética e se traduz em: piso elevado em madeira de reuso que flutua sobre o terreno; pilares impressos em impressora 3D inspirados no caule da folha de bananeira; cobertura em madeira engenheirada que funciona como um “catavento” flexível; e paredes de PET reciclado que regulam temperatura e umidade naturalmente.

Com outra abordagem, Ricardo Abreu assina a Casa TCL. Pensada para colocar a televisão como centro dos lares brasileiros, o projeto evoca o aparelho como ponto de reunião familiar ao longo do tempo. Com 160 metros quadrados divididos entre área externa e interna, o espaço propõe um túnel do tempo sobre a evolução do design de produto em diálogo com arquitetura e escultura. No dia 14 de abril, a casa recebe ainda a estreia de uma série produzida pelo próprio arquiteto sobre arte, arquitetura e consumo.
Na parte inferior do PACUBRA, André Henning assina o café da Copa Energia, pensado para ser uma homenagem ao cachorro caramelo, ícone da cultura brasileira. O ambiente de 100 metros quadrados trabalha com tons de caramelo e marrom em integração visual direta com o Parque Ibirapuera, com cardápio desenvolvido pela Go Coffee dedicado inteiramente ao caramelo.
Na entrada do Pavilhão Brasil, ainda dentro do Pátio Metrópole, o restaurante BIOMAS é assinado por Celso Rayol e a Cité Arquitetura, com mobiliário de Del Sanchez e patrocínio da Breton. O fio condutor é, nas palavras do arquiteto, “os rios, o fluxo da vida.” No salão da Amazônia, iluminação que imita a copa das árvores, cestaria indígena e cerâmicas evocativas das datações arqueológicas da floresta compõem o ambiente. Entre os elementos do espaço, uma instalação central remete aos rios voadores — fenômeno em que a evaporação é tão densa que o rio parece flutuar no ar. No salão da Caatinga, por sua vez, tons de vermelho-terra traduzem o que Rayol descreve como visceral: “o sangue que corre nas veias”, o fluxo do Velho Chico, materializado em nuvens de juta e fios vermelhos que descem como chuva.



Dois projetos do Pátio se destacam pela ênfase na leveza construtiva. Rodrigo Ohtake assina o espaço da Zissou apostando na interação direta do visitante com os produtos, enquanto Helena Camargo desenvolve para a Renault uma estrutura de madeira montada por encaixes sem desperdício, pensada para continuar circulando entre eventos após a Bienal.
Por fim, Marcelo Rosenbaum fecha o Pátio Metrópole com a cenografia da Westwing, em que as estantes entram em diálogo direto com as esquadrias do edifício de Niemeyer, numa conversa entre o projeto expositivo e a arquitetura que o abriga.
Apenas 9% das reformas no Brasil contam com a participação de um arquiteto, segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo CAU/BR em 2022. É nesse cenário que a Bienal estruturou iniciativas para tornar a mostra acessível e compreensível ao público geral. Assim, a programação inclui agenda de conteúdo dedicada a cada bioma, desenvolvida em parceria com o CAU/BR, abordando o papel social do arquiteto junto à sociedade.
Para ampliar esse alcance, a edição inaugural estreia o primeiro tour guiado por inteligência artificial em uma mostra de arquitetura no Brasil, desenvolvido com o Google Gemini. O recurso oferece percursos personalizados com informações em tempo real sobre projetos e arquitetos. A Bienal conta ainda com a parceria do Projeto Morrinhos, que integra jovens de comunidades periféricas à montagem, operação e desmontagem do evento.
Bienal de Arquitetura Brasileira — BAB Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA) | Parque Ibirapuera, Portão 03 — Av. Pedro Álvares Cabral, São Paulo
Horário de visitação: diariamente, das 12h às 21h
Período expositivo: 25 de março a 30 de abril de 2026
Ingressos: R$ 100 (inteira) aos finais de semana | R$ 80 (inteira) durante a semana Vendas exclusivamente pelo site: www.bienaldearquiteturabrasileira.com
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