Finalmente uma mulher no papel, a pintura moderna de Georgia O’Keeffe

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A obra de um artista pode começar como uma obsessão. Pode ser a consequência de incontáveis horas que se acumulam em anos debruçados sobre um tema. Esse tema pode esparramar para outros assuntos paralelos que tangenciam e, por vezes, parecem se afastar do ponto central de referência do artista. Mas, com frequência, o tema central está sempre lá como uma intuição de algo maior que só irá anunciar-se com persistência. Como uma imagem delicada que estava oculta num bloco de mármore e se revela após centenas de investidas intencionais do cinzel contra a pedra. 

Georgia O’keeffe em sua propriedade no Novo México. Imagem: Peabody Essex Museum

Aos dozes anos de idade, Georgia O’keefe (Sun Prairie, EUA, 1887 – 1986) profetizou para uma amiga que quando crescesse seria pintora. A intuição da grandeza da arte soprava em seus ouvidos já na infância, quando O’keeffe tinha aulas de aquarela com uma pintora local em Wisconsin, onde nasceu e cresceu com sua família. No início da vida adulta, a jovem artista se muda para Chicago onde estuda no Instituto de Arte e, mais tarde, na Liga de Estudantes de Arte, em Nova York. Nesses anos de formação, O’keeffe aprende sobre a pintura como normalmente acontece nas academias de arte: imitando o estilo dos professores e mestres.

Georgia O’Keeffe. Coelho morto com panela de cobre, 1908. Imagem: Revista Select

Em seus primeiros trabalhos a artista revela uma excelente capacidade para alcançar tais expectativas atribuídas a uma jovem pintora, porém, em seu íntimo, percebe que a pintura acadêmica não a satisfaz e, uma vez mais, sua intuição lhe diz para perseguir algo além. Em seus escritos, O’keeffe revela que, ao colocar toda a sua produção de determinado ano lado a lado, consegue reconhecer em cada uma das obras quem era a pessoa a quem ela queria agradar pintando aquele trabalho. A artista percebe que nenhuma daquelas pinturas havia sido concebida para agradar a si mesma. Tal realização a lança violentamente em busca de sua expressão pessoal. Imagens que habitam seu interior e as quais a pintora não permitia até então que existissem em suas obras, tornam-se o centro de seu interesse. Nessa obsessão por sua verdade, O’keeffe decide que só trabalhará com preto e branco, até que o carvão não seja mais capaz de expressar a pulsão que essas imagens interiores lhe revelam. 

Georgia O’Keeffe. Early Abstraction, 1915. Imagem: Whitney Museum of American Art

Em suas cartas para a amiga Anita Pollitzer, a artista compartilha que despende horas a fio imersa na tarefa que delegou a si mesma de encontrar sua verdadeira expressão. Deita o papel no chão e se move sobre ele até que seus pés tenham câimbras. É para essa amiga que O’keeffe envia parte dessa série de desenhos em carvão. Anita, conhecendo o íntimo da artista decide, sem seu consentimento ou ciência, mostrar os desenhos para Alfred Stieglitz, fotógrafo e dono da galeria 291, em Nova York. À época, a galeria era a mais avant-garde dos Estados Unidos e introduzia ao público os primórdios do movimento modernista no país. 

Ao ver os desenhos de O’keeffe, Stieglitz declara: “Finally a woman on paper!” (“finalmente uma mulher no papel”, em tradução livre). Stieglitz fica impressionado pelo contraponto entre força e sutileza dos desenhos de O’keeffe. Evidentemente trata-se do fruto de uma sensibilidade única. Se interessa por entender mais profundamente o universo interior que gestou tais obras e passa a se corresponder com O’keeffe que, naquele momento, vivia e lecionava no Texas. Em 1916 o galerista exibe dez dessas obras em carvão de O’keeffe em uma exposição coletiva em sua galeria, dedicada à arte moderna americana. Dois anos depois, é o responsável pela primeira exposição individual da artista, que se dá no mesmo espaço. Nesse mesmo ano, após um longo período de intensa troca de correspondências entre os dois, O’keeffe se muda de volta para Nova York onde assume um relacionamento com Stieglitz. Tal acontecimento é fundamental para a compreensão do rumo que toma a obra da artista. Stieglitz faz centenas de retratos de O’keeffe nos quais partes de seu corpo são enquadrados conferindo aos volumes desse corpo um caráter escultórico.

Alfred Stieglitz. Retrato de Georgia O’keeffe – Pescoço, 1921. Imagem: Encyclopædia Britannica

Esse mesmo enquadramento de detalhes, que ao serem ampliados revelam volumes de bordas marcadas, começa a ser visto nas pinturas da artista. Nesse ponto O’keeffe já é reconhecida como uma das principais artistas do movimento modernista americano. Ela produz alguns de seus trabalhos mais famosos, tratam-se de abstrações a partir de flores. Os retratos de Stieglitz em que o corpo de O’keeffe aparece com um objeto de sensualidade, em associação as pinturas da artista nas quais as abstrações de flores remetem à anatomia feminina, projetam na crítica uma imagem de que a obra de O’keeffe fala, acima de tudo, sobre a sexualidade feminina. 

Georgia O’Keeffe. Red, Yellow and Black Streak, 1924. Imagem:  Whitney Museum of American Art

Georgia O’Keeffe. Music, Pink and Blue No. 2, 1918. Imagem:  Whitney Museum of American Art

Essa recepção de sua obra perturba profundamente a artista, que passa a trabalhar seu principal tema de interesse, a natureza, de forma mais figurativa e realista. Nessa fase ela pinta Jimson Weed/White flower nº 1, uma das obras produzidas por uma artista mulher a alcançar valor mais alto em leilão. 

Georgia O’Keeffe. Jimson Weed/White flower nº 1, 1932. Imagem:  Crystal Bridges Museum of Modern Art

Afeiçoada à paisagem rural e aos grandes horizontes das planícies americanas, O’keeffe se muda definitivamente para o Novo México. Lá, ela diz, o céu é de um azul mais intenso, as estrelas brilham como em nenhum outro lugar, todos os tons terrosos da paleta de um artista podem ser encontrados nas montanhas. Seu trabalho, mais maduro do que nunca, reverbera a potência do encontro com a natureza, o tema de sua obsessão. Nesse momento, tal obsessão toma a forma do Cerro Pedernal, imponente formação montanhosa nas imediações de sua residência e atelier. Certa vez, O’keeffe declarou: “Deus me disse que se eu pintar a montanha vezes o suficiente, ela será minha.”. Como o artista japonês Katsushika Hokusai (Edo, Japão, 760 – 1849) em suas 36 vistas do monte Fuji, O’keeffe pinta de novo e de novo o Cerro Pedernal e as formações rochosas do entorno, algumas das quais ela apelida como White Place e Black Place. São lugares, muitas vezes ermos, para os quais a artista prepara pequenas viagens e acampamentos onde possa mergulhar na paisagem a fim de pintá-la em sua essência. 

Katsushika Hokusai. Da série 36 vistas do monte Fuji, circa 1830. Imagem: National Museum of Asian Art

Georgia O’Keeffe, Meu jardim frontal, verão, 1941. Imagem: Georgia O’keeffe Museum

Georgia O’Keeffe, Black Place II, 1944. Imagem: The Metropolitan Museum of Art

Georgia O’Keeffe. The White Place – A Memory, 1943. Imagem: Georgia O’keeffe Museum

Georgia O’keeffe era uma artista extraordinária no que se refere à observação das formas da natureza com paciência e constância para, a partir daí, desenvolver uma linguagem pictórica. Nenhuma linguagem se aprende da noite para o dia, mas ao observarmos o corpo de obra que a artista produziu ao longo de mais de setenta anos de carreira, nos deparamos com o testemunho e a prova de uma vida dedicada à arte. Georgia O’keeffe merece a posição de uma das principais artistas modernas, não apenas dos Estados Unidos, mas da história da arte em uma perspectiva ampliada.

Hoje, o trabalho da artista pode ser visto permanentemente no Museu Georgia O’keeffe, instituição dedicada à sua obra, sediada em sua antiga residência no Novo México. No Brasil, parte de seu trabalho poderá ser visto na exposição Pelas ruas: vida moderna e diversidade na arte dos EUA (1893-1976), programada para abrir em agosto de 2022 na Pinacoteca de São Paulo. A exposição é fruto de uma parceria com o Terra Foundation for American Art e conta com curadoria de Valéria Picolli e Fernanda Pitta. Na mostra também estarão presentes obras de Andy Warhol e Edward Hopper.

Georgia O’Keeffe: By Myself, by Allen Charlton disponível no Youtube

Luísa Prestes, formada em artes visuais pela UFRGS, é artista, pesquisadora e arte-educadora. Participou de residências, ações, performances e exposições no Brasil e no exterior.


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