A forma segue a função: o design da Bauhaus

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Detentora do título de primeira escola de design do mundo, Staatliches Bauhaus, conhecida popularmente como Bauhaus, foi um dos principais polos do modernismo europeu; desenvolvendo projetos que iam de utensílios de cozinha até complexos de prédios. Fundada no início do século XX, formou uma legião de arquitetos, artistas e designers que revolucionaram como a arte se relaciona com os bens de consumo atrelados à estética; após mais de 100 anos, é possível encontrar inspirações que remetem ao movimento, mantendo-se viva por mais de um século.

A origem do movimento

Com as mudanças sociais ligadas à revolução industrial, a população que antes tinha a sua maior concentração na zona rural, começa a mudar-se para as cidades, ocorrendo o início da explosão demográfica nas principais cidades do mundo. Com a escalada na produção mecanizada, o lema capitalista adotado foi: produzir o máximo no menor tempo possível. Em oposição ao método industrial, o designer britânico William Morris (1834-1896) funda o movimento Arts & Crafts em sua oficina Morris & Co., que defendia o artesanato criativo como alternativa à produção massificada.

Oficina Morris & Co. Imagem: Photoarchive.merton.gov.uk.

Inspirado pelo movimento britânico, foi fundado em 1907 na Alemanha uma organização de designers, a Deutscher Werkbund, fundada pelo arquiteto Hermann Muthesius (1861-1927). Em seus primeiros anos, a Werkbund passou a ser considerada o órgão competente pelas questões de design na Alemanha, com a busca pela nova arte modernista alemã. Questões fundamentais como o artesanato contra a produção em massa e a relação entre utilidade e beleza, foram discutidas entre os seus 1.870 membros, entre eles Walter Gropius (1883–1969). Reconhecido como um dos principais nomes da arquitetura do século XX, Gropius nasceu na Alemanha e herdou a influência para a arquitetura da sua família. O seu tio-avô, Martin Gropius, havia construído um museu no estilo renascentista que hoje é conhecido pelo nome de Martin Gropius Bau, um dos principais locais para exposições artísticas em Berlim.

Com o devastador fim da Primeira Guerra Mundial para a Alemanha, o país volta-se para a sua reestruturação industrial, cultural e social. Buscando novas alternativas de reconquistar o espaço de potência a qual pertencia antes, um grupo de arquitetos, artistas e intelectuais são convocados para este novo projeto estatal. Gropius que até então já era reconhecido por seus trabalhos, é nomeado diretor da escola de arte Grand-Ducal Saxon. Ao assumir, o arquiteto cria um projeto de reestruturação da escola, modernizando-a e formando uma nova instituição que será reconhecida por revolucionar o movimento modernista mundial, a Bauhaus. Fundada em 1919 na cidade alemã de Weimar, é formada pela inversão da palavra hausbau (do alemão: “construção da casa”).

“Desejemos, imaginemos, criemos juntos a nova construção do futuro, que juntará tudo numa única forma: arquitetura, escultura e pintura que, feita por milhões de mãos de artesãos, se elevará um dia aos céus como símbolo cristalino de uma nova fé vindoura.” – Walter Gropius, no manifesto Bauhaus em 1919.

Walter Gropius. Imagem: Onelistonegiordano.

O que foi a Bauhaus?

Originária da cidade de Weimar (1919-1925), mudando-se para Dessau (1925-1932) e por fim Berlim (1932-1933), a Bauhaus foi uma escola estatal que buscou criar novos elementos que rompessem com a dialética entre o campo industrial e o artístico. Inspirando-se no Arts & Crafts e movimentos como o concretismo, construtivismo russo, suprematismo e de stijl, criou-se um método que buscava trazer praticidade e ergonomia aos objetos, aliando o design a um produto funcional. Gropius, que foi o diretor mais influente da escola, proclamou em sua inauguração o seu objetivo como: “Criador de uma nova classe de artesãos, sem as distinções de classe que levantam uma barreira arrogante entre artesão e artista.”

Bauhaus em Weimar, 2017. Imagem: Afar Magazine.

Com as mudanças geopolíticas e sociais pelo mundo, os arquitetos não se concentravam mais em criar palácios para a monarquia ou projetos para a igreja e o Estado, mas sim em algo dedicado ao homem comum e as suas necessidades, como a construção de casas eficientes e acessíveis para os trabalhadores. A grande proposta da Bauhaus era a criação e o aprimoramento de móveis e utensílios domésticos, onde cada material era valorizado pela sua funcionalidade, com diversas possibilidades de usos e experimentações; além de grandes projetos prediais e até malhas urbanas.

Com a chegada da nova fase racionalista alemã, que atingiu diversas áreas acadêmicas, o grupo se considerava uma referência na revolução social, e não somente estética. O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), também influenciou fortemente os artistas com a discussão sobre a função materialista do objeto e a relação entre a sua utilidade técnica versus a sua inutilidade livre, em seu livro “A Origem da Obra de Arte”, de 1950.

Em 1925, um partido de direita conquistou maioria no parlamento estadual e cortou os subsídios da Bauhaus por ser considerada comunista, fechando as suas portas. Graças a sua influência, outras cidades começaram a oferecer espaço para a Bauhaus, entre elas a cidade de Dessau destacou-se por ser a cidade que fez a oferta mais atrativa aos professores e diretores, que aceitaram se mudar. O prédio da Bauhaus em Dessau, projetado por Gropius, é o símbolo que representa a escola, sendo um dos mais emblemáticos do século XX. O complexo era dividido em três partes: a área das oficinas, a área da escola de artes e ofícios e a área administrativa; a casa onde os professores moravam também era um complexo Bauhaus, porém situava-se mais afastado do complexo.

Bauhaus em Dessau, 2011. Imagem: Aegis Education.

Com o desejo de dedicar-se a outros projetos, Gropius se demite da Bauhaus em 1928, para ele a escola era um projeto estabelecido, autossuficiente. Hannes Meyer (1889-1954) que cuidava do departamento de arquitetura foi indicado como o seu sucessor. Mas após a saída do seu fundador, a escola começou a passar por diversos conflitos ideológicos que acabaram tomando a atenção dos jornais da cidade e consequentemente, do país. Com os atritos em crescimento, que já estava preocupando o prefeito da cidade, Meyer renuncia o cargo, assumindo o seu sucessor Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969). Com a saída de Mayer, parte dos alunos ficaram revoltados e não aceitaram a decisão tomada. Porém, van der Rohe, que adotava uma postura autoritária, começou a censurar os alunos, não podendo mais produzir nas oficinas da escola, limitando-os a produzir somente os modelos industriais já pré-estabelecidos; os subsídios financeiros foram cortados e os valores dos licenciamentos criados pelos alunos também.

Bauhaus em Berlim,1932. Imagem: Bauhaus Kooperation.

Com o avanço de influência do partido nazista na Alemanha, que via a Bauhaus como uma escola marxista, somado a crise de 1929, a Bauhaus de Dessau é fechada; van der Rohe tenta manter a Bauhaus em Berlim como um instituto independente de ensino e pesquisa, mas sem sucesso, encerrando oficialmente a suas atividades em 19 de julho de 1933. Atualmente, é possível visitar o prédio da Bauhaus em Dessau, tendo a opção de se hospedar no prédio. As obras de Bauhaus influenciaram fortemente o mundo no decorrer das décadas, especialmente na capital de Israel, Tel Aviv, que reúne o segundo maior número de edifícios inspirados no estilo Bauhaus.

Principais artistas da Bauhaus

Jogo de chá de Marianne Brandt, 1924. Imagem: Metalocus.

A pedagogia que era aplicada na escola também diferia do convencional, a relação aluno-professor (aprendiz-mestre) era próxima, com a colaboração de pesquisas e projetos em conjunto, democratizando o ensino. Caso tivessem sucesso em suas criações, alguns alunos podiam evoluir para “jovens mestres”, como exemplo o artista Josef Albers (1888-1976) que entrou como aluno e tornou-se professor. Como forma de estímulo, a escola comprava os projetos dos alunos para uso comercial; dessa forma os estudantes eram empregados pela instituição, podendo passar mais tempo dedicados a novos projetos e estimulando a sua carreira.

A estrutura curricular era dividida em oficinas, onde cada professor coordenava um tema, entre as principais, havia a oficina de metal, onde foram produzidos porta copos, jogos de chá e luminárias de mesa. A oficina de mobiliário, onde Marcel Breuer (1902-1981) tornou-se um notável aluno, assumindo o cargo da oficina posteriormente; Breuer ficou reconhecido pelo desenvolvimento dos móveis de aço tubular, como as cadeiras Wassily.

Vale ressaltar que as diretrizes da escola para as mulheres eram restritivas, o próprio Gropius impunha que a seleção para as mulheres deveria ser mais rigorosa, onde algumas oficinas não permitiam a sua participação. Entretanto, algumas mulheres conseguiram superar esses obstáculos, como na oficina de tecelagem (que era composta em sua maioria por mulheres), formando pioneiras na arte têxtil como a artista Gunta Stölzl (1897-1983), que se tornou professora na escola. Na oficina de cerâmica, Marguerite Friedländer (1896-1985) destacou-se, sendo a primeira mulher a receber o certificado de mestre oleira no país. Na oficina foram produzidos recipientes de armazenamento para a cozinha da casa experimental da Bauhaus, e que estavam entre os primeiros produtos de barro a serem manufaturados industrialmente. Na oficina de teatro, o professor Oskar Schlemmer (1888-1943) desenvolveu o balé no estilo triádico, elaborando ritmos, figurinos e músicas.

Móveis Bauhaus. Imagem: Vexels.

Cerâmicas confeccionadas na Bauhaus. Imagem: El Sumario.

Balé triádico. Oskar Schlemmer. Imagem: Grupo Educar.

Entre os pintores que já eram reconhecidos pelos seus trabalhos, Paul Klee (1879-1940), foi convidado a lecionar na Bauhaus, iniciando como professor no ateliê de encadernação e posteriormente, assumindo a chefia da oficina de pintura em vidro e afrescos. Klee ficou conhecido como um professor muito dedicado em suas aulas, preparando as suas aulas meticulosamente. Outro artista que foi convidado a lecionar, foi o pintor Wassily Kandinsky (1886-1944), assumindo parte dos cursos preliminares da escola.

Da esquerda para direita: Wassily Kandinsky, Nina Kandinsky, Georg Muche, Paul Klee e Walter Gropius, em Dessau, 1926. Imagem: Design Luminy.

Bauhaus no Brasil

Com a chegada da década 50 no Brasil, com o movimento desenvolvimentista do país, projetos arquitetônicos funcionais começaram aparecer, como no caso do projeto de Brasília; uma cidade planejada com edifícios residenciais e públicos desenhados para promover a funcionalidade.

No âmbito educacional, Lina Bo Bardi (1914-1992), Pietro Maria Bardi (1900-1999) e Jacob Ruchti (1917-1974), fundaram em 1951 o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Assim como na Bauhaus, o IAC possuía disciplinas como arquitetura, tecelagem, botânica, pintura e gravura, fotografia, sociologia, materiais, composição gráfica e a moda dedicada à estamparia têxtil.

No Rio de Janeiro, a diretora-executiva Carmen Portinho (1903-2001) do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), idealizou uma escola de design atualmente conhecida como Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI). Mesmo que indiretamente, alguns dos princípios “bauhausianos” podem ter influenciado na elaboração da escola, já que em 1953 Max Bill (1908-1994) esteve no Brasil; Bill foi um dos principais precursores do concretismo europeu, estudando por dois anos na Bauhaus de Dessau.

Nas artes plásticas, dois movimentos tomaram força no sudeste brasileiro, em São Paulo, inspirado diretamente pelas influências dogmáticas e teóricas do construtivismo europeu como o grupo Ruptura, fundado em 1952. Em contrapartida, rompendo com as estruturas formatadas paulistanas, surge no Rio de Janeiro em 1954, o neoconcretismo, formado pelo grupo Frente; sendo um movimento vanguardista originalmente brasileiro. Atualmente, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) está em cartaz a exposição “Ruptura e o grupo: abstração e arte concreta, 70 anos”; que traça a trajetória do movimento ao longo dos anos 50, juntando-o ao período de comemoração da cronologia modernista brasileira.

Carlos Gonçalves é graduando em Jornalismo pela PUC-SP, com pesquisa científica em crítica de arte.


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